DIVAGAÇÕES SOBRE UMA CAÇAPA CANTADA

Eis algo que escrevi, há cinco semanas, no artigo Mamet, a perspicácia e a ‘gansa’ dos ovos de ouro (íntegra aqui):

…quando o médico do Santos reconheceu que a volta precipitada de Paulo Henrique Ganso aos gramados poderia ter prejudicado sua recuperação de uma cirurgia, saltava aos olhos que havia algo de errado. Soltar uma informação destas à imprensa poderia até custar seu emprego. Por que o fez?

Só havia uma explicação plausível: Ganso retornou cedo demais por decisão de quem não tinha o direito de decidir. Ou seja, alguém assumiu o risco de prejudicá-lo por considerar mais importante ganhar do Corinthians na Copa Libertadores.

Deu no que deu. O atleta, visivelmente sem condições de jogo, teve atuação apagadíssima. E o Santos ficou sem a a vaga na final. Perda total.

O doutor, certamente, temia ser responsabilizado caso Ganso não tivesse condições físicas para atender à convocação olímpica, então quis deixar bem claro:  a culpa não foi minha

A suíte está neste texto do pós-derrota olímpica do UOL:

Submetido a uma artroscopia no joelho no final de maio, Paulo Henrique Ganso viajou a Londres abaixo da sua melhor condição física. Atuou no segundo tempo das duas primeiras partidas e, quando poderia ser titular contra a Nova Zelândia, acabou vetado por dores musculares. Não foi cortado pelo departamento médico e ficou no banco nas quartas, semi e final, porém sem ser utilizado por Mano Menezes. Acabou liberado para voltar ao Brasil neste sábado e está fora do amistoso de quarta-feira com a Suécia.

Este é um bom exemplo de como a experiência jornalística nos capacita a escutar o que não foi dito, a ler o que não foi escrito. A verdade dificilmente está explicitada no texto, então, se a quisermos apreender, temos de garimpá-la no subtexto, nas entrelinhas.

Não tenho bola de cristal nem dons premonitórios, mas minha taxa de acerto em prognósticos supera a de quase todos os videntes.O que costuma me angariar mais antipatia do que qualquer outra coisa.

É que as pessoas costumeiramente preferem ler/escutar aquilo que vem ao encontro dos seus desejos, não análises realistas que os contrariem. Mantêm até hoje uma  relação mágica  com a palavra escrita.

Então, amaldiçoam quem lhes antecipar aquilo que salta aos olhos, como o fato de que os principais acusados do  mensalão  já estavam condenados antes do julgamento começar ou o de que o poltrão Manuel Zelaya não tinha  cojones  para conduzir à vitória  a luta (justa) contra o golpe em Honduras

Outro texto marcante foi o que escrevi há exatos quatro anos (!), Um violeiro só não faz verão (íntegra aqui). Naquele momento eu já tinha certeza absoluta de que, sem revogar-se a anistia de 1979 –para o que precisaríamos do apoio do Governo Lula–, os torturadores da ditadura morreriam de velhos sem sofrerem nenhuma punição efetiva: 

…[há uma] evidente relutância do presidente Lula em respaldar a iniciativa do ministro Tarso Genro [no sentido de que fossem apurados os crimes cometidos pelos torturadores]. Era óbvio que ele preferiria apaziguar os militares, como acabou fazendo.

É igualmente óbvio que, sem o apoio do Executivo, jamais conseguiremos encarcerar os torturadores. Então, só nos restarão as ações declaratórias, de efeito puramente moral.

O que eu pretendia, evidentemente, não era ser ave de mau agouro, mas sim estimular a adoção de uma linha de ação alternativa, que não desembocasse na derrota por mim prevista –e hoje consumada. A esquerda preferiu outros caminhos, eu não tinha poder para sozinho alterar o rumo dos acontecimentos, então ter feito muito antes a avaliação correta só me trouxe sentimento de impotência.

Meu consolo é o de que, pelo menos no Caso Battisti, minhas previsões serviram de algo, principalmente no sentido de desestimular a adoção de estratégias e táticas desastradas.

E um dos motivos para eu entrar na política oficial é tentar adquirir poder para eu mesmo tornar mais úteis meus prognósticos acertados.

Foi a mesmíssima atitude que tomei ao criar o blogue Náufrago da Utopia, em 08/08/2008.

Até então contentava-me a espalhar na web meus textos, que eram publicados em várias tribunas da esquerda. Quando, contudo, algumas dessas tribunas se fecharam para mim como consequência do velho monolitismo stalinista, decidir investir no meu próprio espaço, para nunca mais depender de quem pudesse, a qualquer momento, tentar me censurar.

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