JOÃO PAULO CUNHA É CULPADO…

…DE FAZER 
UMA PÉSSIMA 
COMPARAÇÃO 
HISTÓRICA.


Sempre me repugnou julgar outras pessoas.
Os sites fascistas mantêm no ar até hoje uma lorota que companheiros presos devem ter impingido à repressão ao serem torturados: a de que teria sido eu um dos três juízes do tribunal revolucionário a que foi submetido um quadro da VPR. Na verdade, durante a minha militância nem sequer tive ciência da realização de tal julgamento. Só fiquei conhecendo o caso na década passada.
Na minha carreira jornalística, sempre fiz o possível e o impossível para evitar demissões de colegas. Liderando equipes, só uma vez tomei a iniciativa de colocar alguém no olho da rua, mas era caso extremo: a repórter deixara de cumprir uma pauta para ir tratar de assunto pessoal e depois tentou me iludir. Mau desempenho dá para administrarmos, má fé não tem conserto.
Então, não sou eu que opinarei sobre a culpabilidade ou inocência de João Paulo Cunha, um dos réus do julgamento do  mensalão.
Mas, detesto as incorreções históricas, as versões convenientes que vão tomando o lugar da verdade quando são evocados personagens com grandes virtudes e grandes pecados.
Vargas (o mais baixo) também tinha seu Brilhante
Ustra: o terrível Filinto Muller (o mais alto)

Como Getúlio Vargas, que liderou uma mera quartelada (jamais uma revolução!), pilotou uma ditadura de características inconfundivelmente fascistas, era admirador e tentou seguir os passos de Hitler e Mussolini, teve como chefe da polícia política um dos piores torturadores da nossa História, deixou que Olga Benário fosse entregue aos carrascos nazistas… e, lá pela metade de uma trajetória até então das mais negativas, deu uma guinada para a esquerda, assumindo a postura nacionalista que lhe valeu o apoio do PCB e a perseguição dos EUA e seus lacaios.

Hoje a esquerda só lembra do seu  grand finale: ter optado pelo suicídio na iminência de ser derrubado por uma articulação reacionária, deixando a carta-testamento que acabaria por abortar a escalada da UDN e seus aliados fardados rumo ao poder.
Omite, contudo, aquilo que nunca poderemos relevar: as atrocidades de Filinto Muller, a cumplicidade no martírio de Olga, o apoio inicialmente dado aos integralistas de Plínio Salgado (seus parceiros na instalação do Estado Novo)  y otras cosita más
Memória seletiva nunca foi comigo. Sigo Rosa Luxemburgo: “A verdade é revolucionária”.
Jamais deixarei de prestar tributo à dignidade de Getúlio, raríssima nestes tristes trópicos. Cada vez que os Zelayas da vida são enxotados do poder com um pé na bunda (deixar-se embarcar num avião de pijama equivale a isto…) faço questão de lembrar que houve quem preferisse a morte à desonra, como Allende e Vargas.
Mas, daí a retocar o lado ruim de uma biografia vai uma grande diferença. Não estou no ramo da maquilagem.
O   tiro ao corvo   foi desastrado:
acertou também o pé de Vargas.

Foi exatamente o que João Paulo Cunha fez, ao comemorar o voto favorável recebido do revisor Ricardo Lewandowski.

Comparando-se a Getúlio, afirmou que este “se matou porque a elite brasileira, os ricos e poderosos pressionavam e diziam que por baixo do Palácio do Catete jorrava um mar de lama e corrupção”.

Menos, Cunha, bem menos. Apenas o  mar de lama  teria sido insuficiente para derrubar Vargas, assim como o  mensalão  foi insuficiente para derrubar Lula.
Ocorre que um primata a serviço de Vargas (mas não por sua ordem) ofereceu numa bandeja o ingrediente emocional de que tanto careciam os direitistas: o chefe da guarda pessoal de Getúlio, Gregório Fortunato, comandou um asnático atentado ao principal porta-voz dos conspiradores, Carlos Lacerda, no qual foi mortalmente baleado um major da Aeronáutica. O  corvo, por sua vez, safou-se apenas com um tiro no pé.
Aí, com as lágrimas de crocodilo jorrando aos borbotões e os militares enfurecidos, não havia mais como segurar a onda. E Getúlio cumpriu sua promessa de só sair morto do Palácio do Catete.

É este passado que João Paulo Cunha quis trazer à baila?! Está pagando para receber tortas na cara.  Os paralelos possíveis são muitos, e a maioria desfavorável. Alguém pode dizer, p. ex., que um aloprado jogou Getúlio às feras e outros aloprados quase nocautearam Lula…

Quanto ao  mar de lama, nunca deixou de existir na política brasileira. Às vezes convém à direita utilizá-lo como trunfo, às vezes convém à esquerda. Às vezes o mesmo político (Lula) serve-se dele para derrubar um adversário (Collor) e depois é quase derrubado por ele.
Só acabará quando a sociedade não tiver mais como mandamento supremo o enriquecei! capitalista.
Até lá, nós da esquerda deveríamos ocupar-nos das tarefas revolucionárias, não de forçar a troca de mandatários sem que verdadeiramente sejam alteradas as relações de poder; e muito menos de garantir a governabilidade (sob o capitalismo!!!) usando os mesmos métodos dos nossos inimigos de classe.
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4 comentários

  1. Como sempre, gosto de ler o Lungaretti por quê, dentro do mesmo texto, tenho pontos de concordância e discordância. Sobre Getúlio, fora os benefícios sociais aos trabalhadores, só encontro uma coisa boa naquela ditadura: derrubada dos golpistas, dentro do golpe, de 32! Outro ponto, aí não é nem discordância, mas ignorância mesmo, o atentado da Toneleros. Nunca aquele caso foi investigado pela polícia, lacerdista até o último fio de cabelo, um cara morre e outro leva um tiro no pé? Muito estranho…

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  2. Meu caro Haroldo,

    o tal major era solidário ao corvo e o estava protegendo, voluntariamente.

    Então, faz sentido que ele tenha se colocado na frente, recebido o disparo fatal e o Lacerda sido atingido só no pé.

    Às vezes o destino prega mesmo essas peças. Teria sido bem melhor se ocorresse o contrário.

    Quanto ao movimento de 1932, a burguesia paulista estava nele, mas também a classe média. Os cinco estudantes assassinados (os MMDC morreram de imediato e o último, alguns dias depois)não eram burguesões.

    O problema é que, de início, o PCB era bem complacente com a quartelada de 1930. De repente, veio uma ordem de Moscou e, numa guinada tipicamente stalinista, da noite para o dia o partidão passou a organizar um levante militar, sob o comando do Prestes, que voltou ao Brasil como uma espécie de interventor designado pela Internacional.

    Mas, como naquele tempo o partido “sempre estava certo”, manteve a versão de que o movimento de 1932 era meramente oligárquico.

    Foi mais do que isto. E Getúlio não virou vilão só em 1935; já o era desde 1930.

    Outro absurdo da historiografia comunista foi minimizar a primeira greve geral brasileira –e, ainda por cima, VITORIOSA!!!–, a de 1917, apenas por ter sido liderada pelos anarquistas.

    Estava praticamente esquecida em 1968. Depois que o anarquismo voltou a marcar forte presença nos movimentos contestatórios, uma nova geração de historiadores foi resgatando esse passado e acabou dando à greve de 1917 o destaque que ela merece.

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  3. Celso, se hoje o povo, o que não dizer daqueles tempos? Mesmo essa tal classe média (Em 1930, o que siginificava isso?) era totalmente dirigida pelo que lia. Teleguiados pelos ditames religiosos – leia-se Vaticano – e pelo que se considerava bons costumes. Essa mentalidade avessa ao novo, mesmo que ditada pelas oligárquias, fez acontecer 1964, originou Dilmas, Celsos, Lamarcas… bem, você conhece a história de cor, não sou eu que vou ficar te “ensinando”. Sobre o corvo: o major relmente ficou na frente da bala? A história de um conflito, geralmente, é contada pelo seu vencedor. Quanto tempo foi preciso para o Brasil descobrir a realidade desses personagens citados acima? Mesmos alguns verdes!

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