MENSALÃO: UM PARÊNTESIS

Atuar nas redes sociais às vezes é complicado para um jornalista.

Acostumamo-nos a reagir imediatamente às novidades. Têm de estar noticiadas, dissecadas, interpretadas  à exaustão na edição do dia seguinte.  Estamos sempre correndo contra o tempo.
Na web, às vezes as pessoas demoram a perceber a relevância de uma ocorrência. Podem até passar batidas por algo que eu divulguei ainda de manhã, só percebendo sua importância depois que o assunto é destacado no noticiário noturno das tevês.
Outro aspecto: passamos a carreira inteira aprendendo a discernir para onde marcham os acontecimentos. Isto é utilíssimo, até vital, no batente de redação. 
E também em lutas como a do Battisti; quem acompanhou meu trabalho dia a dia, sabe que todas as minhas previsões importantes se confirmaram.
Uma aposta arriscada que eu fiz, p. ex., foi a de que o Lula, se a palavra final coubesse a ele, jamais extraditaria o nosso companheiro italiano. Os líderes do comitê de solidariedade avaliaram da mesma forma, daí termos rechaçado todas as propostas de radicalização da luta e hostilização do STF.
Quando arrancamos do Supremo a confirmação da prerrogativa presidencial, suspiramos aliviados. Sabíamos que o resto seria só questão de tempo. E foi.

Os companheiros de outra formação, contudo, tendem a colocar nos seus textos o que querem que aconteça. É sua  torcida  que manifestam, não avaliações perspicazes e realistas.

Várias vezes já me levaram a mal por enxergar um pouco adiante.
Fui, p. ex., o primeiro a manifestar ceticismo quanto à reversão do golpe hondurenho, embora estivesse totalmente contra aquela farsa parlamentar. 
Ou seja, torcia para que o Zelaya fosse reconduzido ao poder. Mas, percebia claramente que, por ele ser um  banana, a resistência fracassaria. 
As quarteladas do século passado me ensinaram tudo que alguém precisa saber sobre tais poltrões. Tenho a certeza de que, se fosse Brizola e não Goulart o presidente, os golpistas de 1964 jamais obteriam êxito sem darem um único tiro.
Os fervorosos bolivarianos escreveram cobras e lagartos a meu respeito. Intimamente sabiam que eu estava certo, mas consideravam necessário heroicizar o bobalhão que se deixou colocar num avião de pijamas e, pouco depois, liderou uma carreata até a fronteira de Honduras, ingressou no seu país… e deu meia volta ao constatar que os militares o aguardavam.
O que ele queria, que lhe estendessem um tapete vermelho? A tal carreata só faria sentido se fosse para deixar-se prender e, com isto, forçar uma atitude mais enérgica da OEA e dos presidentes que lhe eram solidários. Caso contrário, nem deveria  ter sido tentada.
O último desse episódios foi o julgamento do  mensalão.

Tendo acompanhado atentamente as quatro intermináveis sessões relativas ao Caso Battisti, sabia muito bem o que poderia esperar dos ministros do STF sob pressão tão violenta da grande imprensa. Então, antes mesmo do circo começar, eu já sabia que o resultado seria a condenação dos principais réus, e por goleada.

Gato escaldado, não o afirmei tão claramente em artigos, mas cantei esta bola (a condenação por goleada) em resposta a comentários indignados de torcedores em alguns espaços de que participo.
Não deu outra. 
Então, os que tanto tempo desperdiçaram escrevendo textos e mais textos para provar a inocência dos réus e a inexistência do  mensalão, melhor fariam se tivessem adotado a minha linha de argumentação: a de que, sob outros nomes,  mensalões sempre existiram, deveriam ser  todos  igualmente punidos, mas o que comprometia a imagem de Lula e do PT recebeu, desde o primeiro momento, tratamento muito mais severo da mídia; e, depois, também do Judiciário.
Criticarmos o dois pesos e duas medidas fazia sentido. Evidenciarmos a manipulação do PIG, que ora enfoca tais casos de corrupção como pecadilhos, ora como pecados mortais, seria muito educativo. E, já que a derrota era inevitável, mais valia nos a relativizarmos, tirando-lhe peso. Não tentarmos inutilmente mudar o que já estava decidido antes mesmo de o julgamento começar.
 
O mais frustrante é que avaliarmos bem as situações de nada serve  quando não conseguimos tornar útil tal conhecimento (e tais antevisões).
Então, este meu parêntesis não tem o sentido de “Viu? Eu não disse?”. Mas sim o de “Pelo amor de Marx, da próxima vez me leiam com a mente aberta!”…
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