METIDA TENHO A MÃO NA CONSCIÊNCIA

“Metida tenho a mão na consciência
e só falo a verdade pura
que me foi ditada pela viva experiência”
(Camões, sonetos)
Não me considero intelectual, pelo menos no sentido que se costuma dar ao termo, mais para platônico do que para militante (esta sim minha estirpe!). Embora geralmente domine os assuntos de interesse dos doutos e cultos, não lhes dou muita importância. Uma frase de Marx que sempre adotei como minha: os filósofos interpretaram o mundo de diversas maneiras, chegou a hora de o transformar.

Mas, mesmo não pertencendo nem querendo pertencer à torre de marfim tupiniquim, considerei ultrajante a entrega do Ministério da Cultura a uma senhora que, afora a carreira política lastreada no sobrenome (a ponto de só depois de lacradas as urnas da eleição para prefeita ter dado ciência ao distinto público de que o mesmo já há algum tempo se tornara apenas griffe –o que, na minha humilde opinião, constituiu estelionato eleitoral), é conhecida mesmo por ter dado consultoria sexológica em TV.

E o pior é que tão estapafúrdia designação não passou de um agrado para que ela afinal parasse de fazer birrinha e aceitasse tentar desencalhar a campanha de Fernando Haddad, o poste que Lula e Dilma tudo fazem para eleger prefeito da principal cidade do País. 

Vá avacalhar a cultura assim na ponte que partiu! Com tal (ausência de) critério, quem será o próximo, o Tiririca?!

Enfim, como estranho nesse ninho que eu opto por ser, eu tinha decidido limitar-me a uma ou outra alfinetada. Mas, a coluna dominical do Carlos Heitor Cony –cujos méritos intelectuais, vale registrar, ultrapassam infinitamente os do arquipretensioso Paulo Coelho– me fez reavaliar a minha postura.

Cony está indignado. E como ele tem carradas de razão, eu me sentiria opostunista e covarde se deixasse de dizer o que realmente penso.

Está dito. E abaixo reproduzo o desabafo do Cony, que é meu também:

…é com certo pesar que vejo a sua [do PT] lenta, mas progressiva deterioração política e moral -que, de alguma forma, afetará o seu patrimônio eleitoral.

Não há dúvida de que o partido ficou seriamente comprometido com o mensalão. Independentemente da decisão final do Supremo, suas entranhas ficaram escancaradas, revelando que em nada se difere dos demais partidos.

Como se não bastassem os recursos ilícitos que empregava para se manter e ajudar seus aliados, dona Dilma deu agora mais uma demonstração de que o PT se utiliza do poder para obter vantagens que, embora lícitas do ponto de vista administrativo, resvalam no mais escrachado fisiologismo.

Para atingir um alvo relativamente secundário, como a Prefeitura de São Paulo, a presidente demitiu Ana de Hollanda do Ministério da Cultura, nomeando uma petista de alto e valioso coturno, como Marta Suplicy, ajudando o candidato petista -que, mesmo com a colaboração integral e entusiástica de Lula, continua até agora patinando nas pesquisas eleitorais.

A mudança naquele ministério não tem outro significado senão o mais baixo estágio da política. Nem vem ao caso discutir a eficiência da ministra demitida nem as qualidades da nova titular.

Na reta final da campanha, dona Dilma apelou para a caneta presidencial e modificou o ministério que ela livremente escolheu, dando ao partido uma boca de fogo melhor comprometida com a realidade política e administrativa da capital paulista. Uma jogada que nada teve de brilhante ou necessária.

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