DOIS TEXTOS IMPERDÍVEIS SOBRE NEOFASCISMO x FUNDAMENTALISMO

Maior teatrólogo brasileiro das últimas décadas, José Celso Martinez Correa tem também muito faro político, como o atesta o artigo Feliciano é a ponta de lança de um golpe de estado, que disponibilizou no seu blogue (vide aqui).

Meu único reparo é quanto a este trecho:

Todos que trabalham com a arte ou mesmo com seres humanos e os que se sentem mortais, humanos, estão putos com esta situação na Comissão dos Direitos Humanos que anuncia coisa pior: o Congresso agora vai votar por uma proposta-lei dos evangélicos Fundamentalistas pra derrubar o Estado laico brasileiro.

Refere-se a uma proposta do deputado evangélico João Campos, no sentido de estender às organizações religiosas a prerrogativa de contestar a constitucionalidade de leis no Supremo Tribunal Federal. Atualmente, quem pode propor a chamada Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) são o presidente da República; as Mesas do Senado, Câmara e Assembleias Legislativas; os governadores; o procurador-geral da República; a OAB; os partidos com representação no Congresso; confederações sindicais e entidades de classe de âmbito nacional.

Evidentemente, entre tantos proponentes possíveis, os pastores ensandecidos sempre encontrarão algum disposto a assumir a paternidade de suas contestações à modernidade, em nome dos valores de dois milênios atrás.

Ou seja, mesmo que se abra esta porta para o passado brigar com o presente e o futuro (o projeto ainda tem de ser aprovado por duas comissões do Congresso e em duas votações no plenário), ruim mesmo seria o precedente, não o efeito concreto. Até porque tais bizarrias acabariam sendo inevitavelmente fulminadas pelo STF.

Quanto ao restante da catalinária do Zé Celso, aplaudo e subscrevo:

A regressão aos estados fundamentalistas tem sido a causa de inúmeras guerras e de situações estupradoras monstruosas dos direitos humanos em todo Planeta Terra.

Precisamos todos nos movimentar urgentemente (…) para não sermos condenados a desumanidade das ditaduras das religiões fundamentalistas.

Este Infeliz Feliciano é a ponta de lança da ameaça de um golpe de estado tão nefasto quanto o de 1964.

Além dos artistas, nós todos, mortais humanos, que assim se aceitam e que não temos versão única da vida, da ‘verdade’, nem somos proprietários dela, que amamos a liberdade temos de criar juntos meios para que esta regressão nefasta de aprisionamento da vida aqui no Brasil não aconteça.

É trabalho não somente de artista, mas de todos os humanos que tem amor ao poder de nossa condição humana livre de tutela da boçalidade fundamentalista de uma verdade única.

O ESPAÇO PARA UMA AGREMIAÇÃO TRIPLAMENTE
CONSERVADORA NA POLÍTICA BRASILEIRA

Quanto ao filósofo Vladimir Safatle, cumpre admiravelmente sua missão de dimensionar este novo fenômeno: a emergência de um populismo de extrema-direita encabeçado pelos mercadores do templo e tendo como exército os milhões de coitadezas mesmerizados por sua lavagem cerebral.

Desde a última campanha eleitoral, quando a Igreja Universal quase catapultou Celso Russomanno para o 2º turno em São Paulo, venho alertando para tal perigo. Vide, p. ex., a advertência que lancei neste artigo:

…os  pa$tore$ eletrônico$, que propagam e tornam cada vez mais rentável o culto ao bezerro de ouro, podem se tornar uma força política de primeira grandeza caso se apossem do governo e passem a gerir o orçamento da principal cidade brasileira.

Lembrem-se: Hitler só foi tão longe porque suas futuras vítimas o subestimaram. Começando pelos socialistas que, desatinadamente, atacaram a democracia alemã pela esquerda enquanto os nazistas o faziam pela direita.  

Contando com um exército de zumbis que atuarão como cabos e tarefeiros eleitorais gratuítos, até onde os exploradores da fé poderão chegar? O céu é o limite.

Mas, para a democracia brasileira, o quadro que se delineia é o de um inferno. Deus nos acuda!

Recomendando a leitura na íntegra do artigo do Safatle, O primeiro embate (vide aqui), destaco os trechos principais:

Os embates em torno da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara talvez sejam o primeiro capítulo de um novo eixo na política brasileira.

A maneira aguerrida com que o deputado Marco Feliciano e seus correligionários ocupam espaço em uma comissão criada exatamente para nos defender de pessoas como eles mostra a importância que dão para a possibilidade de bloquear os debates a respeito da modernização dos costumes na sociedade brasileira. Pois, tal como seus congêneres norte-americanos, apoiados pelo mesmo círculo de igrejas pentecostais, eles apostam na transformação dos conflitos sobre costumes na pauta política central. Uma aposta assumida como missão.

Durante os últimos anos, o conservadorismo nacional organizou-se politicamente sob a égide do consórcio PSDB-DEM. Havia, no entanto, um problema de base. O eleitor tucano orgânico é alguém conservador na economia, conservador na política, mas que gosta de se ver como liberal nos costumes. Quando o consórcio tentou absorver a pauta do conservadorismo dos costumes (por meio das campanhas de José Serra), a quantidade de curtos-circuitos foi tão grande que o projeto foi abortado. Mesmo lideranças como FHC se mostraram desconfortáveis nesse cenário.

Porém ficava claro, desde então, que havia espaço para uma agremiação triplamente conservadora na política brasileira. Ela teria como alicerce os setores mais reacionários das igrejas, com suas bases populares, podendo se aliar aos interesses do agronegócio, contrariados pelo discurso ecológico das ‘elites liberais’. Tal agremiação irá se formar, cedo ou tarde.

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6 comentários

  1. Feliciano não pode ser visto como um problema isolado: tem a ver com o sistema político nacional, a correlação de forças necessárias para governar, a pressão de grupos como a blogosfera e o PIG, naturalmente antagônicos, mas que, vez por outra, colocam-se na mesma trincheira antigovernista. O veto a Feliciano cria um problema para o governo, que necessita de apoio parlamentar. Os partidos não são entidades ideológicas, mas, abrigam grupos ideológicos. Os evangélicos não são uma comunidade una e coesa: há escaramuças, por exemplo, entre os líderes do clã Edir Macedo e os do segmento Waldemiro Bernabeu. Em questões como a do casamento gay, do aborto, porém, há inflexível coesão entre todas essas correntes cristãs. Isso cria um impasse para a governabilidade. Afastando-se dos evangélicos o governo teria de unir-se a seus habituais concorrentes, os capitães do PIG, outro grupo forte no Congresso. Claro que a união com um ou outro partido nanico não lhe conferiria governabilidade.

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  2. Prezado Maurício,

    para um homem de esquerda deter o governo federal não é um objetivo em si. Só se justifica se nos ajudar a concretizarmos os ideais libertários e de justiça social.

    Se for para governarmos igualzinho aos burgueses, melhor deixá-lo nas mãos dos serviçais convictos da burguesia. Pois não faz avançar a revolução e ainda nos desmoraliza em função da tibieza demonstrada.

    O povo acaba nos vendo como igualmente corruptos ou como bundas moles, sem fibra para lutarmos pelo que pregávamos.

    “Governabilidade” é a desculpa para todas as infamias.

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  3. Cada dia a gente se escandaliza mais com as atitudes do Feliciano. A Folha diz hoje que sua mãe era aborteira em Orlândia-SP. Pior: Feliciano falta com a verdade, o que não é de bom tom em se tratando de um parlamentar. Verdade que Demóstenes Torres defendia a tese que mentir não é faltar com o decoro parlamentar. Feliciano disse: “Eu vi fetos serem arrancados de dentro de mulheres.” Sua mãe, dona Lúcia, consertou: “o filho jamais viu um aborto feito por ela. Na época em que ela diz ter recebido as adolescentes, Feliciano era um recém-nascido”. Tal como o filho ilustre, dona Lúcia hoje é evangélica.
    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/102031-a-espera-de-perdao.shtml

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  4. Celso, você viu que o Arquivo Público do Estado de São Paulo colocou na internet o acervo do DEOPS? É impressionante, finalmente é um resultado concreto das tentativas de esclarecer as barbaridades que foram cometidas pelo Estado fascista.

    Até o Chico [Buarque] foi fichado pelo DOPS. E a ficha do Marighella é ótima. Você também tem sua ficha lá. Me pergunto como os militares conseguiam toda aquela informação, ainda por cima, detalhada, dos integrantes da VPR. Falando nisso, a VPR tinha ligações com o Movimento Socialista Uruguaio ou era só paranóia da milicada?

    O link do Arquivo Público de SP é esse, caso queira ver: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/memoriapolitica

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  5. Barros,

    admiração pelos tupamaros, sem dúvida, existia. Eles eram o que nós queríamos vir a ser, pelo menos em termos de guerrilha urbana. Ignoro se nossos dirigentes chegaram a manter contato com eles. É possível.

    Quanto aos depoimentos dos presos, era uma salada em que se misturavam o que o próprio depoente revelara e o que outros haviam revelado.

    Ou seja, o delegado do DOPS vinha com apontamentos e acrescentava o que não tinha sido falado a bel-prazer. No final, ou assinávamos ou éramos levados de volta ao DOI-Codi para apanhar mais.

    Como aquilo era tudo coisa já sabida pela repressão e só tinha implicações legais, quase todos acabávamos assinando.

    Para nós, suportar tortura era justificável apenas para salvar companheiros e evitar fornecer informações operacionais. Nunca ouvi falar de alguém que aceitasse apanhar apenas para que tal ou qual companheiro não respondesse na Justiça Militar por tal ou qual ação.

    Nossa visão (na qual acredito até hoje) era de que as auditorias militares apenas cumpriam ordens da Inteligência das Forças Armadas, calibrando as penas de acordo com o tempo que queriam que o companheiro ficasse preso, pouco importando provas, depoimentos, etc.

    Resumindo: que os julgamentos nada eram além de farsas. Medíocres, por sinal.

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