O MELHOR TEXTO DO ‘NÁUFRAGO’ É SOBRE A TRAIÇÃO ÀS DIRETAS-JÁ

Inaugurado em 08/08/2008, este blogue completará cinco anos com quase 700 seguidores e mais de 770 mil visualizações de páginas, originárias do Brasil (600 mil), EUA (90 mil), Rússia (16,7 mil), Portugal (13 mil) e Alemanha (6,2 mil), principalmente.

Os textos postados estão na casa de 2,1 mil, sendo mais de 300 com o marcador Cesare Battisti; quando da libertação do escritor que a Itália queria silenciar, o total já era de aproximadamente 250. 

Foi a mais prolongada e –considerando-se a extrema desigualdade de forças–, surpreendentemente vitoriosa campanha assumida pelo blogue, que também se colocou ao lado do cineasta Roman Polanski; do ex-etarra Joseba Gotzon; de Julian Assange, Bradley Manning e Edward Snowden, que escancararam para o mundo a nudez do rei; da iraniana Sakineh Ashtiani, quase-vítima da intolerância medieval; do movimento estudantil em geral e dos universitários da USP em particular (pois submetidos a controle policial como nos piores tempos da ditadura militar); e do de outros humilhados e ofendidos no dia a dia brasileiro.   


Afora as lutas travadas contra as múltiplas facetas e manifestações do autoritarismo, inclusive no seio da web; e a defesa permanente dos direitos humanos, dos ideais revolucionários e da memória da resistência à ditadura de 1964/85, da qual tenho orgulho de haver participado, ao lado de alguns dos melhores cidadãos que este país já produziu.


O meu post preferido do blogue é uma crônica política que escrevi para o Jornal da Tarde em 1994, por ocasião do 10º aniversário da rejeição da Emenda Dante Oliveira.

Em termos políticos, porque considero a derrota das diretas-já e o golpe da eleição indireta como um momento maior da nossa História, só que no sentido negativo. 

Parte do esquema de sustentação da ditadura conspirou com Tancredo Neves para, primeiramente (votando contra a emenda), negar ao povo brasileiro o direito de eleger pela via democrática o seu presidente; e, em seguida (virando casaca na eleição indireta), levar ao poder o dito cujo, um oposicionista domesticado que, nas urnas, jamais se elegeria. 

Foi tão sórdida a manobra que o destino encarregou-se de a punir exemplarmente. Mas, isto piorou ainda mais o que já era péssimo: quem acabou governando não passava de um antigo garoto de recados dos ditadores. 

E o Brasil, ao invés de renascer, encruou, ficando entregue a nulidades a serviço da burguesia (Sarney, Collor e Itamar), a um ilustre intelectual cooptado pela burguesia (FHC) e a dois veteranos do bom combate que se deixaram manietar pela burguesia (Lula e Dilma aceitaram manter  imexível  a política econômica ditada pelos banqueiros e pelo grande capital) . 

E, em termos pessoais, aquele momento político inicialmente esperançoso, depois desalentador, se confundiu com o nascimento da minha primeira filha (adotiva, só 18 anos depois  eu viria a ser pai biológico). As emoções contraditórias marcaram-me profundamente, tanto que, após uma década, o passionalismo ainda era nítido no meu texto. 

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F…

“Em que momento o Peru tinha se f…?”, pergunta Mario Vargas Llosa na abertura de Conversa na Catedral. Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.
Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.
Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada.
Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já… tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.
Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!
No rescaldo da derrota entraram em cena os   profissionais — conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática.
É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.
Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada — mesmo que tanto tempo depois — minha indignação com o aborto de uma esperança.
São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzir os acontecimentos no sentido de um eterno retorno.
Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.
Daí o desencanto e o nilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.
E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f…
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