ODE A COISA NENHUMA

Jornalistas cedo nos libertamos do fascínio mágico que a palavra exerce sobre grande número de pessoas. Aprendemos, às vezes de forma dolorosa, que não são nossos belos discursos que mudam o mundo, mas sim as ações decididas. 

E, de tanto (os melhores de nós) tentarmos, constatamos quão difícil é escrever-se ou dizer-se algo que realmente inspire a coletividade a trilhar caminhos mais verdadeiros. Daí a admiração que até hoje provocam, p. ex., o inspiradíssimo Eu tenho um sonho (Martin Luther King)  e os versos candentes de Imagine (John Lennon). 
Hoje já perdi todas as ilusões. Encaro meus textos apenas como sementes que espalho, com a remota esperança de que venham a ter alguma serventia –no presente, ou mesmo no futuro, se gerações mais lúcidas e solidárias resolverem reatar os fios da História no ponto em que a reação conseguiu cortá-los há quatro décadas, quando foi detida a marcha da humanidade para a concretização de seu objetivo maior através dos tempos, o advento da justiça social plena sob liberdade plena.
Tal ceticismo de velho revolucionário e velho jornalista chocou alguns leitores, havendo quem qualificasse de  cáusticas  minhas considerações (vide aqui) sobre a retórica presidencial na ONU. Mas, acompanhando a política internacional com razoável interesse há quase meio século,  estou careca de saber que a única diferença entre a Organização das Nações Unidas e sua antecessora Liga das Nações é terem desencavado um rótulo mais pomposo para designar a sociedade impotente e inapetente que só serve como palco para o  jus sperniandi  das nações humilhadas e ofendidas. Um mero muro das lamentações, enfim.
Falou bonito, a Dilma? Falou. Mas, dentro de alguns dias, o que restará? Nada.

Se o Brasil tivesse reconsiderado a indignidade que cometeu ao negar o asilo solicitado por Edward Snowden, aí sim aplicaria um tapa bem dado nas fuças de Barack Obama, à altura do insulto recebido. Mas, preferiu restringir-se às palavras que o vento leva, preocupado apenas em dar uma satisfação para o público interno. E foi apenas o que logrou.

Li nesta 5ª feira (26), na coluna da Eliane Cantanhêde, a confirmação da caçapa que os menos ingênuos já haviam cantado, sem medo nenhum de errarem:

…nem o presidente Obama, nem o secretário de Estado, John Kerry, nem a conselheira de segurança, Susan Rice, estavam lá. E, dizem, a própria embaixadora dos EUA na ONU só chegou na última hora.

…se os EUA deviam um pedido de desculpas ao Brasil pela interceptação ilegal de dados de cidadãos, empresas, representações diplomáticas e do Planalto, agora devem dois: o segundo pela deselegância e pelo descaso diante da fala da presidente.

Nem pedido de desculpas, nem a garantia formal de que a abominação não se repetirá, nem mesmo a demissão de um subcarimbador interino qualquer para sinalizar que o feito tinha sido sido malfeito e merecera a reprovação oficial. Nada. A catilinária de Dilma foi soberbamente ignorada e, se nosso governo zelasse de verdade pela honra brasileira, tomaria agora uma atitude mais incisiva, que não fosse recebida tão somente com bocejos pelos dignatários do Império. Mas, duvido que o venha a fazer. 
E ainda há leitor querendo que eu escreva uma ode… a coisa nenhuma!
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