EU NÃO COMPACTUO COM A SATANIZAÇÃO DE JOAQUIM BARBOSA

Negros altaneiros incomodam os racistas enrustidos
Detesto as satanizações, aquelas campanhas orquestradas de desqualificação moral que foram para a lixeira da História juntamente com o cadáver fedorento do stalinismo, mas agora estão de volta, exumadas pelas  piores vertentes da esquerda na era da internet. Quem disse que Goebbels não influenciou também o nosso lado?
O caso de Joaquim Barbosa é emblemático. Ministro do Supremo Tribunal Federal que, em quase todos os temas, tem sempre assumido posições próximas às nossas (é sensível à justiça social e combate sistematicamente os abusos e privilégios dos poderosos), ele está sendo erigido em grande vilão pela rede virtual petista e seus satélites, em função da forma como relatou o processo do  mensalão.
Isto seria passável se o atacassem apenas e tão somente pelo que lhes fez doerem os calos. Mas não, transformam-no num espantalho em tempo integral, atribuindo-lhe um reacionarismo que nunca teve e até projetos políticos que jamais deu mostras de acalentar.
O  grande truque do diabo  é fingir que não existem homens de esquerda indignados com aquilo que o  mensalão  representa: o recurso às maracutaias costumeiras dos políticos convencionais, para garantir governabilidade da mesmíssima maneira: subornando a escória parlamentar para com ela formar maiorias espúrias.

A direita, cinicamente, extrai dividendos políticos do ocorrido, mas é a esquerda que mais motivos tem para o repudiar, já que sua credibilidade sofreu duro golpe. Cansei de responder, em cada palestra, a pergunta que alguém invariavelmente me fazia: todos vocês, da geração 68, são iguais aos mensaleiros?

A esquerda virtual já aclamou Barbosa, lembram? 

Ademais, tais práticas desmoralizantes foram adotadas para o governo ganhar votações que não fizeram verdadeiramente avançar a revolução brasileira. O PT, há mais de uma década, vem apenas gerenciando o capitalismo para os capitalistas. É, no máximo, reformista, tendo há muito abdicado de quaisquer veleidades revolucionárias.

Valeu a pena pagar um preço tão alto por tão pouco? E quem não releva os pecados dos  anjos caídos é necessariamente um direitista?

Na semana passada, quando a correspondente de O Estado de S. Paulo em Washington foi detida na Universidade de Yale, houve até quem trombeteasse as quatros ventos que Barbosa pedira a ação policial, baseando-se apenas em suposições e deixando mais do que evidenciada sua antipatia pelo personagem. Jornalistas se tornam Sherlocks de araque para engrossarem a horda de linchadores. Que lástima!

Nota da universidade, contudo, esclareceu que Claudia Trevisan, mesmo sabendo que estava proibida a presença de repórteres no seminário do qual Barbosa iria participar, tentou driblar os seguranças. Mas foi pilhada e, quando perguntaram o que fazia naquela ala vedada ao público, mentiu: respondeu que estava procurando um amigo com o qual marcara encontro.

Ora, sendo os estadunidenses tão paranóicos em relação a atentados terroristas, é de estranhar-se que a tenham prendido e algemado?

Mesmo cá na  patriamada, infinitamente mais tolerante, em minha atuação jornalística eu sempre evitei recorrer a falsidades para furar tais bloqueios. Nunca os aceitei passivamente, mas utilizava estratagemas como o de buscar atalhos que não passassem por portarias ou empinar o nariz e entrar com ares de poucos amigos, como se fosse uma autoridade com todo direito de estar lá. 

A mesma covardia se constata nos linchamentos morais  

Às vezes os porteiros e seguranças se deixavam intimidar e não questionavam a minha presença; quando, contudo, algum o fazia, eu revelava honestamente o meu propósito e acatava o inevitável  convite  para me retirar.

Forçar a barra implicaria… o risco de ser preso e algemado. Um risco aceitável por uma causa, mas não por uma reportagem rotineira.

Enfim, foi mesmo chato o constrangimento imposto à Trevisan, mas o Barbosa não teve absolutamente nada a ver com isso. E, claro, a suspeição injusta repercutiu muito mais na internet do que o esclarecimento do episódio.
Do Barbosa, sempre me lembrarei em primeiro lugar de ele haver resistido com unhas e dentes aos inquisidores no Caso Battisti, posicionando-se contra a extradição em todas as votações.
Este sim era um episódio que opunha, nitidamente, direita e esquerda –e Barbosa não hesitou em colocar-se ao nosso lado.
No processo do  mensalão  nem de longe existe tal nitidez. E é uma covardia o linchamento moral a que submetem o Barbosa, extrapolando todos os limites do razoável e do verossímil, além de levarem ao paroxismo a falta de civilidade. Chegam a reprovar-lhe o fato de manter-se em pé diante de interlocutores, como se fosse postura majestática e não uma forma de atenuar as dores que sente na coluna!
Eu não me omito: tenho a coragem de confrontar todos e quaisquer rolos compressores, sempre que eles estiverem destruindo reputações leviana e utilitariamente, como agora.

Fico com Rosa Luxemburgo e não abro: a verdade é revolucionária!

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2 comentários

  1. Não, ele é um sujeito que acredita estar abrindo um precedente de punição dos poderosos num país em que estes sempre escapam ilesos.

    Erram redondamente os que o veem como um direitista ou um aspirante à Presidência da República. Ele é apenas um justiceiro meio messiânico.

    Quando se trata de ferrar um Daniel Dantas, todos os petistas fazem discursos exaltados contra a corrupção.

    Mas, como eu canso de dizer, a rua é sempre de duas mãos. Ninguém do nosso lado jamais deveria deixar a mais ínfima brecha para ser acusado das podridões que o outro lado comete. Aqueles a quem os deuses querem perder, primeiro enlouquecem; o Zé deveria estar louco quando entrou nessa roubada.

    A culpa, portanto, não é do Joaquim Barbosa. A culpa é dos ex-companheiros que se deslumbraram com o poder a ponto de se imaginarem acima do bem e do mal.

    E as principais vítimas não são eles. Somos nós, os homens de esquerda que jamais praticaríamos atos tão tolos. Ficamos desmoralizados por tabela –e isto eu jamais lhes perdoarei.

    Quanto ao Lobão, nunca gostei dele nem mesmo como músico. E considero extremamente ingênuos os companheiros que caem na provocação dele e ficam retrucando.

    Ele não sabe do que está falando nem tem vínculo nenhum com tais assuntos. Por que, então, dar importância às asneiras que ele diz, repetindo a retórica falaciosa do Ternuma?

    Logo, outros artistas decadentes utilizarão o mesmo expediente para atrair holofotes. Melhor seria deixarmos o Lobão falando sozinho.

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