O QUE FOI MESMO AQUELA NOITE EM 67?

O 3º Festival da Música Popular Brasileira é relembrado no filme que vocês podem ver, completo, na janelinha abaixo: o documentário Uma noite em 67 (d. Ricardo Calil e Renato Terra, 2010), trazendo imagens reprocessadas da transmissão pela TV Record, mais as entrevistas recentes de alguns dos seus principais personagens.

Ele se iniciou exatamente no mês em que os estudantes desafiavam os dispositivos policiais e voltavam às ruas, nas famosas  setembradas  de 1967.

A partir daí o movimento de massas iria se intensificar e radicalizar até a promulgação do AI-5.
O certame da Record foi marcado por um dos episódios mais deprimentes de toda a história dos festivais: o público pespegou monumental vaia numa composição que abordava o fenômeno futebol — e de uma maneira bem amadurecida e crítica.
Sérgio Ricardo, compositor idealista e talentoso, autor de clássicos como “Zelão” e “Esse mundo é meu”, além de haver dado magnífica contribuição musical para duas obras-primas de Glauber Rocha (Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe), cansou de tentar interpretar sua “Beto bom de bola”, veemente denúncia da engrenagem do futebol, que tritura ingênuos como Garrincha. Mas, os intransigentes uivantes o impediam.
Afinal, explodiu: “Vocês são uns animais!”. E, arrebentando seu violão, atirou-o contra os espectadores.

O festival da Record de 1967 trouxe à tona, também, uma aguda cisão no front da música popular:

  • de um lado os defensores dos ritmos genuinamente brasileiros e das canções engajadas às lutas sociais; e
  • do outro, os adeptos do  som universal, da liberdade temática e das experiências formais.
Em teoria, a posição dos tropicalistas era inatacável: as raízes culturais só se mantém vivas e puras em comunidades fechadas, não no Brasil de 1967, com sua economia integrada ao bloco ocidental e as informações chegando de todos os lados.
Na prática, entretanto, a contestação ao autoritarismo das lideranças políticas foi, para muitos, um pretexto conveniente, servindo para justificar a omissão num período crítico da vida brasileira.
A derrota, sabemos hoje, custou-nos seis anos de trevas absolutas. Mas, seria um exagero imputá-la apenas aos jovens que se desgarraram do rebanho ao verem o lobo se aproximar…
O próprio tropicalismo foi, por sinal, contraditório, ora pregando a derrubada de prateleiras (“É proibido proibir”) e fazendo a apologia da guerrilha (“Soy loco por ti, América”, “Questão de Ordem”), ora se embasbacando com as   vitrines   e outros signos da sociedade de consumo.

Em tempos normais, seria uma mistura de Semana de 1922 com psicodelismo à Beatles.

Em meio ao transe brasileiro, assumiu posturas às vezes mais radicais do que aqueles (os  puros) que faziam passeatas contra as guitarras elétricas.
E, no final, acabaram todos vítimas dos mesmos algozes, frequentando as mesmas prisões e amargando o mesmo exílio.
A canção-manifesto do tropicalismo foi “Alegria, alegria”, de Caetano, que ele interpretou acompanhado pelos Beat Boys (conjunto de iê-iê-iê cujos integrantes ostentavam enormes e desgrenhadas cabeleiras; um deles era Tony Osanah, que nunca soube exatamente em qual América se encontravam suas  raíces…).
Flagra o estado de perplexidade resultante do bombardeio de informações, contrapondo-lhe o descompromisso de caminhar “contra o vento, sem lenço, sem documento”. Ficou em 4º lugar.

“Domingo no Parque” é uma música descritiva, propondo imagens cinematográficas e nada mais. Gil, aliás, já fizera coisa semelhante em “Água de Meninos”. O que ela teve de tropicalista foram as guitarras elétricas dos Mutantes.

Numa total inversão de valores, o júri atribuiu-lhe a 2ª colocação, à frente da incomparavelmente superior “Alegria, alegria”.
A vitória coube a “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam, um dos temas da trilha musical do filme A Vida Provisória, de Maurício Gomes Leite.
Metafórica (a viola a cujo ponteio os versos aludem é a metralhadora guerrilheira), correta, com ótimo arranjo e as presenças simpáticas de Edu Lobo e Marília Medalha, foi a solução encontrada para não se premiar a sensação tropicalista; em termos criativos, não avançou um milímetro em relação ao que já se fazia.
Em 3º lugar, Chico Buarque com “Roda Viva”, composta para a peça homônima (aquela cuja encenação foi vandalizada por uma horda do CCC) e defendida pelo autor com o MPB-4.
No 5º, “Maria, carnaval e cinzas”, de Luís Carlos Paraná, por Roberto Carlos e O Grupo.
Como melhor letra, prêmio merecidíssimo para “A Estrada e o Violeiro”, do precocemente falecido Sidney Muller.

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