EXPLOSIVO, DESMEDIDO, SUPERLATIVO: "TERRA EM TRANSE"

Um dos melhores filmes políticos de todos os tempos e países, Terra em Transe (1967) é uma parábola perfeita sobre a quartelada de 1964, mas nem por isto válida somente para o Brasil.
Flagra uma realidade comum à maioria das nações do 3º mundo -ao qual, dizem, deixamos de pertencer em termos de pujança econômica, mas no qual continuamos mergulhados até o pescoço quanto à distribuição de renda, à qualidade de vida e, mais do que tudo, em espírito, pois a alma brasileira continua pateticamente colonizada e submissa ao autoritarismo.

Glauber Rocha repetiu a fórmula de enfeixar nos seus personagens principais os atributos e posturas de classes e grupos de interesses. Assim, o poeta Paulo Martins (Jardel Filho) personifica a classe média intelectualizada, contraditória e vacilante, mas que acaba fazendo a opção revolucionária quando a crise política chega à fervura máxima.

Felipe Vieira (José Lewgoy) é o político populista a quem a esquerda se atrela, como se atrelou, p. ex., ao nacionalista Getúlio Vargas, ao trabalhista João Goulart e ao sindicalista Lula. Como na vida real, a opção oportunista de colocar-se a reboque de personagens que nada têm de marxistas ou anarquistas é punida com o fracasso: na hora da verdade, Vieira prefere não resistir ao golpe de estado, para evitar, alega, o derramamento do sangue dos inocentes. Ou seja, age exatamente como o poltrão Jango.
Porfírio Diaz (Paulo Autran), claramente inspirado em Carlos Lacerda, é o direitista obcecado em conquistar o poder a qualquer preço. Mas, Glauber teve o bom gosto de não fazer dele uma mera caricatura, embora bata pesado em seus desvarios megalomaníacos e em sua amoralidade entreguista (“As nossas carnes, as vidas, tudo, vocês venderam tudo, as nossas esperanças, o nosso coração, o nosso amor, tudo! Vocês venderam tudo!”, atira-lhe na cara o poeta).

Don Julio Fuentes (Paulo Gracindo) é o grande capitalista nacional a quem os comunistas convencem de que será tragado pelo imperialismo se não confrontar a multinacional que domina Eldorado. Mas, volta atrás quando recebe uma oferta vantajosa da vilã, conformando-se com a condição de subalterno bem recompensado.

Finalmente, Sara (Glauce Rocha) é a militante devotada mas impotente para mudar o destino de seu povo. Vai continuar lutando após a terrível derrota… mas, nada indica que será vitoriosa da próxima vez. 
E, se os comunistas de 1964 exibiam armas o tempo todo mas acabaram não disparando um único tiro (como enfatiza Glauber, num primor de sarcasmo), coube à minha geração resgatar a moral da esquerda, provando ao cidadão comum que também éramos capazes de sangrar pela nossa causa. 
Ao preço de vidas e de sofrimentos dantescos, reconquistamos o respeito das ruas. Mas ele seria novamente perdido adiante, quando os nossos que chegaram ao poder desonraram as pregações de décadas. 
Recheado de belíssimas citações poéticas, dramático e tempestuoso como a realidade que flagra, com algumas atuações portentosas (Lewgoy, copiando trejeitos de Vargas, Jânio Quadros e Adhemar de Barros, está simplesmente magnífico!), é um filme obrigatório para qualquer esquerdista que ainda seja capaz de refletir sobre a História e sobre o papel que nela lhe cabe, ao invés de apenas seguir obedientemente a linha justa.  

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5 comentários

  1. Suas criticas de cinema sempre são muito boas, melhor do que as que saem em qualquer jornal da grande mídia. Agora, a nível de crítica psicodélica aos impasses da esquerda no início dos anos 70 prefiro Prata Palomares a qualquer filme do Glauber. Conhece? Está disponível no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=jxvAcb-tUeE O climax é a cena da missa na praia da Joaquina: um Antonio Conselheiro redivivo em plena Floripa riponga nos anos 70.

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  2. Sergio,

    eu assisti a “Prata Palomares” no Festival de Brasília de 1979. Fui lá como convidado, por insistência própria e dos pequenos veículos no qual trabalhava. Enchi o saco até mandarem as passagens.

    Então, só podia torcer, e minha torcida foi toda para o “Prata”. Não adiantou. O candango de ouro ficou com um filme chatíssimo do David Neves.

    Tem tudo a ver com quem, como eu, acompanhava o trabalho do Teatro Oficina e havia curtido intensamente peças como “Gracias, senhor!”. Mas, é um pouco hermético para o público em geral.

    Nunca revi, mas, se bem me lembro, era um tanto sanguinolento e chocante. No arquivo da minha memória, ocupa uma pasta ao lado de outro filme bem intencionado, mas feito com mão excessivamente pesada: “Actas de Marusia”.

    Um abração!

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  3. Caro Celso:
    Eu também vi no Cine Brasília, mas fora da mostra competitiva. Acho que passou no circuito comercial em Brasília no início dos anos 80; eu era adolescente e já nessa época gostei muito do filme, que só vim assistir de novo nos agora no youtube. Actas de Marusia (Miguel Littin, Gian Maria Volonté etc.) também é outro dos meus filmes prediletos, por coincidência; vi no cine clube da Cultura Inglesa, também em BSB, onde havia uma excelente programação por essa época apesar da arapongagem escancarada de beleguins do antigo SNI. Ambos os filmes mereceriam comentários mais aprofundados pois são injustiçados pela critica pós-modernosa de hoje em dia, quando não redondamente ignorados. Afinal, são poucos os críticos que tem capital intelectual e político acumulado para compreende-los (ou seja, entender seu contexto e sua mensagem). Além do mais, a crítica de arte na grande imprensa está muito decadente, parece toda escrita por e endereçada a uma certa alta classe média criada em condomínio fechado. Em tempo: outro dia revi novamente os filmes do Sérgio Leone motivado exclusivamente por uma critica sua. Realmente, “The bad …” é o melhor “faroeste” jamais feito e vale cada minuto como você bem disse. Parabéns pelo blog e pelos artigos.

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  4. Sérgio,

    eu precisaria rever ambos para saber se minhas impressões de outrora se mantêm. Às vezes são coisas de momento (as lembranças de cenas semelhantes na vida real talvez ainda estivessem vívidas demais na minha lembrança).

    De resto, certa vez denunciei exatamente isso, a transformação da crítica cinematográfica numa mera apresentação das especificações do produto filme (serve para tais públicos, não serve para tais outros). Não interagia mais com a arte, apenas ajudava os consumidores a escolher os itens mais indicados para seu consumo.

    Cheguei a compará-la a uma bula, e dizer que acabava se tratando de uma burla, pois desvirtuava o próprio papel da arte.

    Os outros críticos, mais famosos, não se deram por achados. Fingiram que não era com eles.

    Apenas o Jairo Ferreira, então meu amigo, ousou escrever algo semelhante na Folha, sem nem sequer dizer que eu o inspirara. Mesmo assim, se deu mal: arrumaram um pretexto e o demitiram…

    Um abração!

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