O FANTASMA DE UM NOVO MARACANAZO NOS RONDA

Nasci dois meses e meio após o maracanazo. Cansei de ouvir meu pai rememorando o desânimo que se abateu sobre o povo brasileiro naquele domingo agourento, a ponto de nem mesmo os solteiros saírem na principal rua do bairro para o tradicional footing (ficavam, em grupinhos masculinos e femininos, circulando por dois quarteirões, para engatarem papos e iniciarem namoros). 
E, mesmo não tendo visto o grande goleiro Barbosa jogar, fiquei enojado ao saber como foi hostilizado por nossos imaturos torcedores, que sempre precisam de um bode expiatório para as derrotas mais sofridas.
O que ocorreu, na verdade? O ótimo ponta-direita Ghiggia fazia a festa em cima do limitado e truculento lateral Bigode. De um dos seus centros surgiu o gol de empate uruguaio.
Quando Ghiggia novamente se desvencilhou de Bigode e ameaçava cruzar, o pobre Barbosa deu um passo à frente, pensando em interceptar o centro. 
Mas o adversário não era bobo e aproveitou o vãozinho que se abriu entre o arqueiro e a trave para colocar a bola diretamente nas redes. Que goleiro nunca sofreu um gol desses?!
A infame estigmatização abalou tanto Barbosa que ele permaneceu deprimido e inseguro até 1953, quando quebrou a perna e a torcida do Botafogo foi, em peso, visitá-lo no hospital. Só então conseguiu dar a volta por cima. 
O que não impediu o supersticioso Zagallo de, como técnico da Seleção Brasileira durante as eliminatórias do Mundial de 1998, proibir que Barbosa pusesse os pés na concentração para uma visita, afirmando que o goleiro era pé frio. Quanta pequenez!
Enfim, é isto o que me veio à mente ao iniciar, já sexagenário, o ano do segundo Mundial a ser disputado no Brasil.
A nova oportunidade demorou tanto! E eu temo que novamente a desperdiçaremos, pois é estratosférica a inferioridade do sargentão Felipão em relação aos técnicos de ponta do futebol atual. 
Hoje, mais do que nunca, organização tática e competência estratégica ganham jogos. Os melhores adversários terão nos bancos verdadeiros enxadristas, a manejar seus efetivos como se fossem peões, cavalos, torres, bispos e rainhas. E nós, um mero jogador de damas, ajudado por um palpiteiro (Parreira) que copia esquemas alheios mas não cria nenhum.
Também já vai longe o tempo em que contávamos com craques capazes de fazer a diferença. Alemanha e Espanha nos superam nitidamente quanto à qualidade média do elenco.
Então, um olhar realista nos coloca atrás de ambas, no terceiro lugar da relação dos favoritos, ao lado da Argentina: dois escretes que dependerão exageradamente do desempenho de seu único fora-de-série. Tanto Messi poderá carregar a Argentina nas costas como Neymar compensar sozinho as deficiências do ultrapassado comandante. 
Repetiriam o que Maradona fez em 1986 e Garrincha em 1962, as duas Copas mais nitidamente conquistadas graças ao brilho de estrelas solitárias.

O que Neymar nunca conseguirá fazer é impedir que sintamos ganas de vomitar cada vez que o filhote da ditadura José Maria Marin for focalizado pelas tevês do mundo inteiro como o dirigente máximo do futebol brasileiro.

A obrigação de evitar tamanho opróbrio era, em primeiro lugar, do ministro dos Esportes Aldo Rebelo. 
Sua omissão foi pior, muito pior, do que o baile que o Bigode levou em 1950 e o gol que o Barbosa aceitou…

ISTO É FELIPÃO

Felipão foi aplaudido quando elogiou a devoção de Daniel Alves à seleção e ao país, por não ter cumprimentado seus companheiros de Barcelona, na final da Copa das Confederações.

Parece até que um atleta, para jogar bem, com garra e comprometimento com a seleção, precisa ser mal-educado e tratar os adversários como inimigos.

Palavras de Tostão, que foi craque como jogador e é craque como comentarista.

Mais ainda por se conservar um humanista e um brasileiro cordial, resistindo ao clima de belicosidade tribal que Marin e Felipão tenta insuflar na torcida brasileira, bem ao estilo das Copas disputadas durante as ditaduras militares.

Ainda em suas ponderações sobre a entrevista dada por Scolari no encontro de fim de ano dos treinadores, Tostão veio ao encontro de outra de minhas avaliações, ao destacar que ele recorre muito à “tática de faltas para parar os lances”. E deu, de graça, mais uma lição de esportividade a Felipão (a qual, provavelmente, entrará por um ouvido e sairá pelo outro):

As grandes equipes não precisam fazer isso para desarmar, vencer e brilhar

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2 comentários

  1. Caro Celso,

    Gerard Piquet foi deselegante e mal-educado na entrada truculenta em Neymar na final da Confecup.

    Não fi o técnico espanhol fazer declarações condenando a jogada do Piquet já no final de uma partida perdida.

    Vejo o time espanhol já ultrapassado por jogar sempre da mesma forma, os adversários vão organizar esquema para bloquear as principais jogadas deles.

    quando vejo o time espanhol eu lembro sempre da Holanda de 1974 que jogava sempre da mesa forma.

    Tenho horror a times robotizados. Não vejo nenhum gênio naquele time.

    Neymar e Messi são gênios.

    Outra coisa: os times europeus jamais ganharam as copas disputadas na América Latina.

    abração.

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  2. Nenhum gênio? Ora, Ismar, e o que são Xavi e Iniesta? Quisera tivéssemos dois meiocampistas desse nível.

    Se Del Bosque não recriminou publicamente a entrada do Piquet no Neymar, também não a enalteceu. Bem ao contrário do Felipão, que erige um comportamento medíocre em exemplo. Quer porque quer que todos regridamos ao tempo das Cruzadas.

    Aliás, foi engraçado você citar isso, pois o Scolari é até hoje lembrado por aquele momento repulsivo na partida final de um Paulistão, gritando do banco “Pega! Pega! Pega!”.

    O Paulo Nunes obedeceu ao comandante, escoiceou o Edílson pelas costas, todos os jogadores brigaram e o Paulistão acabou da forma mais deprimente possível.

    Esse fulano é a outra face da moeda do atraso. De um lado ele, do outro o Marin. Dois que não têm nada a ver com a mentalidade de um país democrático e civilizado, no qual o futebol deve ser encarado unicamente como esporte.

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