OS LIVROS NÃO FORAM INCINERADOS, MAS ESTÃO REDUZIDOS A CINZAS

Como rareiam notícias surpreendentes neste início de ano -a barbárie nas prisões brasileiras é estado permanente, pouco importando se às vezes nos choca um pouco mais; temos é de dar-lhe fim, o que nunca conseguiremos com a estirpe maldita do Sarney no governo!-, vamos continuar focalizando a sétima arte. Ajuda-nos a conservar um tantinho daquele otimismo da virada de ano…
Gostaria de disponibilizar mais filmes da nouvelle vague, movimento que foi uma providencial alternativa à pobreza cultural do cinema estadunidense, dominante graças ao poderio financeiro e ao marketing imbecilizante, não -jamais!- à qualidade artística. Mas, eles são aves raras no Youtube, daí a minha enorme surpresa ao encontrar o 30 anos esta noite, legendado e tudo ( por que ninguém postou obras mais significativas, como  O ano passado em Marienbad, Os incompreendidos ou Acossado? Sei lá…).
O mais próximo disto que encontrei é uma fita de François Truffaut que, contudo, não tem propriamente as características da nouvelle vague: Fahrenheit 451 (1966), com a Julie Christie como único destaque de um elenco fraquinho.
Trata-se de uma distopia do grande novelista de SCI-FI Ray Bradbury, transposta para as telas em estilo bem acadêmico, sem nada do experimentalismo com que Jean-Luc Godard visitou o gênero no seu primoroso Alphaville.

Baseia-se numa ilusão muito comum na época (mais ainda do momento em que o livro foi escrito: 1953), a de que o mundo marchava na direção de um comunismo totalitário nos moldes stalinistas.

Mostra um tipo de esquadrão de bombeiros incumbido de localizar e incinerar livros, que é mais ou menos o que se fazia na URSS depois que a revolução foi traída, embora não com procedimentos tão caricatos.

Bradbury jamais deve ter lido os grandes autores da Escola de Frankfurt, que previam para os países capitalistas avançados a mesma anulação da cultura, só que de forma mais sutil: ao invés de práticas que remontavam à Santa Inquisição, a castração de seu potencial transgressor por meio da influência avassaladora e mesmerizante da indústria cultural. 
Hoje, quando visito as grandes livrarias, encontro ouro de tolo ocupando quase todos os espaços, num contraste chocante com os consistentes livros que, na primavera de 1968, ajudavam-nos a entender a sociedade sob a qual padecíamos, ponto de partida para nela intervirmos. 
Sim, os livros que realmente compensa lermos ficaram restritos a ínfimas minorias, quase impotentes para fazê-los cumprir seu papel de sementes das transformações necessárias. Metaforicamente, poderíamos dizer que estão reduzidos a cinzas, mesmo sem terem sido queimados.
Por que assistirmos a Fahrenhait 451 agora? Talvez porque ainda nos emocione, com seu voluntarismo típico de uma época em que os cineastas ainda acreditavam em tentar melhorar o mundo… ou, pelo menos, evitar que piorasse.

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2 comentários

  1. (O COMENTÁRIO É DO JORNALISTA E ESCRITOR ARTHUR POSÉ POERNER, QUE NÃO O CONSEGUIU POSTAR, COMO EXPLICA ABAIXO)

    Celso, meu caro, bom e oportuno, tanto no que tange aos filmes quanto aos livros, o seu comentário “Os livros não foram incinerados, mas estão reduzidos a cinzas”, como outros com que tenho deparado no seu blogue. A mim, escrevendo a primeira parte das memórias para lançamento neste ano do cinquentenário do golpe, tocou, especialmente, a comparação que faz entre o panorama atual das nossas livrarias e o dos anos 60, em que, paralela à resistência à ditadura na imprensa, houve a de editoras como a Brasiliense, aí de São Paulo, com o peso da tradição e do prestígio do grande Caio Prado Júnior, pioneiro na análise marxista da história social, econômica e política do Brasil; e a Civilização Brasileira, do heroico Enio Silveira, editor dos meus três primeiros livros, inclusive O poder jovem.

    Tentei postar um comentário, com muito menos do que acabo de dizer, para me adaptar ao espaço (nem cheguei a me referir à Brasiliense e ao Caio Prado Jr.), mas acabei reprovado na prova de identidade: não consegui provar que não sou um robô. Mas, mesmo como robô, resisto e faço questão de lhe enviar esta mensagem, que você poderá usar ou não como melhor lhe aprouver, inclusive como comentário para todo o blogue, pois são meus também muitos dos herois da fotogaleria da abertura. Os parabéns, portanto, vão para todo o blogue, com o fraterno abraço do Poerner.

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  2. Meu caro Poerner,

    sou desse tempo, só que era um pouquinho mais jovem do que você e ia com alguns companheiros afanar livros na livraria da Brasiliense (na rua Barão de Itapetininga) e em duas outras livrarias que tinham muitos títulos de esquerda, uma na Praça da República (Ler?), outra na rua Aurora (Avanço?). Esqueci os nomes, mas me lembro bem de ambas. Só do Manifesto do Partido Comunista, que utilizávamos para doutrinar nossos aprendizes, devemos ter surrupiado uns 50, em sucessivas incursões.

    Mas, a trilogia dos profetas, do Deutscher, eu tive de comprar. Muito grandes para afanar. Creio ter sido a obra mais importante para minha formação, imunizando-me pelo resto da vida contra as posturas autoritárias na esquerda. Graças ao Deutscher, o programa da VPR de abril/1969 definiria a URSS como uma potência imperialista com interesses próprios e diversos dos da revolução brasileira. É claro que não foi só o meu poder de convencimento, mas (principalmente) o fato de que o Voz da Unidade apresentara o Lamarca como agente do imperialismo e os companheiros estavam furibundos com o PCB.

    Quanto aos seus comentários, me orgulharei muito de tê-los no blogue. Acompanho seu trabalho desde o Pasquim, você foi uma referência do tipo de jornalista que eu tentei ser (e provavelmente seria, se não tivesse feito minha carreira em condições tão adversas).

    Sei também que você fez parte da brilhante redação do Correio da Manhã de até 1970, embora não conheça (ou não me lembre de) seus trabalhos desta fase. Os que eu mais devo ter lido foram os do Carpeaux e do Cony.

    A dificuldade para postar comentários identificados é problema de quase todos. A forma mais simples de contornar é postar como “anônimo” e colocar o nome no final do texto.

    Um forte abraço, companheiro!

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