VEJA ESTA CINEBIOGRAFIA DO LAMARCA (ENQUANTO NÃO FAZEM OUTRA MELHOR!)

Lamarca: jeitão grave, austero.
Nada como um guerrilheiro depois do outro: em seguida ao documentário Marighella, o blogue disponibiliza a dramatização cinematográfica do período final da vida de Lamarca, lançada em 1994.
Os dois filmes entraram aqui não por sua qualidade artística, mas pela importância dos personagens históricos focalizados: foram os expoentes máximos da luta armada brasileira (sendo que o Carlos Marighella já era um dirigente revolucionário de primeira grandeza desde a década de 1930). 
No caso de Lamarca, evidentemente, meu conhecimento dos episódios e das pessoas retratadas é bem maior. Consequente, o meu desagrado também.
Trata-se, sobretudo, um filme superficial, com a estética característica das telenovelas e minisséries da Rede Globo. P. ex., só há dois sotaques no filme, o nordestino e o carioca. Quem não é nordestino, fala como carioca. Mas, o Lamarca e a Yara Iavelberg falavam como paulistas. 
Além de dialogarem entre si de forma tão sentimentaloide  e piegas que ficam parecendo tudo, menos militantes revolucionários. Comparando-os com minhas lembranças, fiquei com a forte impressão de que foram banalizados.

Pior ainda foi a escolha dos atores. Paulo Betti jamais aparenta ser um militar e Lamarca nunca deixou de parecer um.

Betti: aparência de garotão.
A impressão que ele causava era a de ser um homem mais velho do que sua idade real; Betti, exatamente o contrário.

Outro que parece muito mais jovem (e menos sinistro) do que o original: Ernani Moraes, como o delegado Sérgio Fleury.

Quanto à Yara, não era encorpada como a Carla Camurati, mas sim uma mulher frágil, graciosa. Está simplesmente irreconhecível.
É uma bronca que sempre tive do cinema estadunidense: a escolha de atores não segundo as características dos personagens (históricos ou literários), mas sim para poder contar com bons chamarizes de bilheteria. As produções brasileiras, depois daquela fase áurea dos anos 60 e começo dos ’70, foram pelo mesmo caminho, o do cinemão.
Os acontecimentos são tratados com idêntica superficialidade. A expropriação de banco em que o Lamarca se viu obrigado a matar um vigia para salvar a vida de um companheiro, numa rua entre o Brás e a Mooca, na verdade foi expropriação simultânea de dois bancos que ficavam um ao lado do outro. 
O disparo do Lamarca não foi simples como parece no filme, mas dificílimo, pois estava a uma distância de uns 40 ou 50 metros (tanto que a repressão de imediato adivinhou o autor, pois só havia um atirador de elite na esquerda). 
E ele, por não ter certeza de que acertara, deu um segundo tiro, o que também não é mostrado. Só pelos jornais ficou sabendo que ambos haviam sido perfeitos. Foi o que contou a vários de nós certa vez.
Mas, se neste caso cabe a desculpa de que são apenas detalhes, é indesculpável o filme de Sergio Rezende ter mostrado a morte do Lamarca como a repressão relatou e todos duvidamos desde o primeiro momento, até que no ano retrasado surgiu a prova cabal (vide aqui) de que ele tivera o mesmo destino do Che Guevara: estava incapacitado de se defender e foi covardemente executado.
Assim como o Zequinha (José Carlos Barreto), aliás. Foi o que concluiu a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos.
Enfim, o filme vale como uma primeira abordagem do tema, desde que o assistamos com a consciência de que nem tudo é fiel, nem tudo é verdade. Tomara que, adiante, algum  Steven Soderbergh brasileiro lhe faça justiça, pois é um dos poucos heróis autênticos de nosso sofrido povo.

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2 comentários

  1. companheiro celso,tu ja pensou em ajudar num roteiro mais fiel a respeito dessa epoca ,ja que foste uma testemunha ocular,mas a respeito do filme concordo contigo,o sequestro, o cofre do ademar,tudo superficial padrao rede globo.eu estou juntando dinheiro para comprar seu livro,acho muito real a maneira que seus textos nos aproximam de uma certa evidencia desse jogo politico

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  2. Ora, companheiro, livros não são enfeites, basta que dê para lê-los. Compre um exemplar usado na estantevirtual.com.br, que sai baratinho.

    Ser roteirista sempre foi um sonho. Duas vezes, durante o curso de jornalismo, fiz roteiros de teledramas, lacei um elenco na Escola de Arte Dramática, ajudei a dirigir, escolhi e encaixei músicas, etc. Deu para sentir bem o gosto da coisa.

    Pensei que teria uma chance de colaborar com o roteiro se o “Náufrago” virasse filme. Mas, só fui procurado por documentaristas, o que não seria exatamente minha praia. E nenhum deles (foram uns 4 ou 5) conseguiu viabilizar financeiramente o projeto.

    Como já fiz muita coisa na vida fora dos conformes -só me tornei pai biológico aos 51 anos, p. ex., talvez ainda realize meu sonho de trabalhar no cinema.

    Bem lembrado, o trecho do cofre do Adhemar. Duvido que os companheiros tenham ficado embasbacados daquele jeito ao verem os dólares. A primeira coisa que nos vinha à cabeça era: agora os companheiros não precisarão mais expropriar bancos.

    Pois, os que não cumpríamos tal tarefa, sentíamo-nos até culpados, por outros estarem arriscando a vida para sustentar-nos na clandestinidade. A vida de um único companheiro valia muito mais para nós do que 2 milhões de dólares.

    Mais uma vez, o filme mostrou-nos como pessoas comuns, não como revolucionários.

    Abs.

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