BESTIALIDADE POLICIAL JUSTIFICA IMPEACHMENT DOS GOVERNADORES

Um comentarista incógnito do CMI, em tom de galhofa (vide aqui), fez uma leitura totalmente equivocada do meu artigo As principais ameaças à Copa não vêm das ruas, mas sim dos gabinetes, afirmando que a minha preocupação com blecautes e violência policial se restringiria ao período do Mundial da Fifa.

Como se eu, várias vezes, já não houvesse recriminado os péssimos serviços públicos prestados aos brasileiros; e como se eu não fosse um dos mais constantes e incisivos críticos da truculência repressiva.

Respondi ser o meu artigo “uma resposta aos que, mesmo um PM tendo baleado estupidamente um manifestante, preferem assestar suas baterias contra os manifestantes e poupar os PMs”. E acrescentei:

Aliás, [são] os mesmos que estão ESCONDENDO a informação de que a petição on line pró Snowden é, provavelmente, a que alcançou maior número de adesões até hoje no Brasil. ESTA INFORMAÇÃO SERIA OBRIGATÓRIA PARA QUALQUER SITE OU BLOGUE DE ESQUERDA. Minha dúvida é: os espaços virtuais petistas ainda são espaços virtuais de esquerda? Temo que não.

Para minha surpresa, uma companheira cujo passado de lutas é dos mais expressivos, veio em socorro do humorista anônimo. Como ela merece respeito, alonguei-me um pouco no esclarecimento da questão. 
Acredito que valha a pena reproduzir alguns trechos aqui, até porque são elucidativos e servem como uma reafirmação de princípios: 
A minha intenção foi, UNICA E EXCLUSIVAMENTE, a de confrontar a rede virtual petista, que está satanizando todos os que protestam contra a Copa e insinuando que é a mão oculta da direita que move os cordéis. 
Para a esquerda palaciana, o ‘não vai ter Copa’ de alguns adolescentes bobinhos é pior do que a truculência bestial das polícias estaduais (além de consentir, pois não diz uma palavra contra, na possível participação das Forças Armadas em atividades repressivas durante a Copa). 
O que houve de mais chocante no dia 25 foi o disparo de um PM contra um civil que não portava arma de fogo; até o jornal da ditabranda, em editorial, critica esta aberração; no entanto, em espaços virtuais tidos como de esquerda se lamenta mais o fulano azarado que teve seu fusca queimado do que o manifestante que quase foi executado.

Eu contrapus que quem realmente está ensejando os piores cenários para a Copa é o Governo Federal, ao omitir-se diante dos péssimos serviços prestados pelo Poder Público ou pelas companhias privadas às quais delegou a prestação dos serviços de que antes se incumbia diretamente; e ao fechar os olhos à violência desenfreada dos fardados. 

Se tivéssemos uma esquerda de verdade no Brasil, o Jânio de Freitas não estaria falando com as paredes ao lembrar que a complacência dos governadores com os desmandos de suas polícias justifica até impeachment: ‘Os governadores e seus prepostos para a segurança pública não podem instaurar ambientes de guerra civil, com suas armas inadmissíveis e ferocidade injustificável permitidas, senão estimuladas, como se fossem normais na democracia. Essa prática é uma transgressão ao Estado de Direito e como tal pode ser tratada, por meio de impeachment’. 
O impeachment, aliás, a que Geraldo Alckmin faz jus desde o episódio do Pinheirinho, quando um idoso barbarizado pela repressão foi por ela sequestrado e mantido longe da família e da imprensa, para não gerar noticiário adverso. Como acabou morrendo logo em seguida, cabia, sim, a responsabilização do Alckmin e de sua Gestapo por sequestro e assassinato. Eminentes juristas endossaram esta tese, mas a esquerda palaciana não deu a mínima, pois prefere engolir os sapos mais indigestos do que colocar em risco a maldita ‘governabilidade’… 
Finalmente, correndo o risco de eu também, e mais uma vez, falar com as paredes (como quando escrevi este artigo), destaco: de tudo que está colocado neste post, o mais importante é a proposta de impeachment dos governadores de Neandertal, começando pelo Alckmin. 
Nem que fosse por desencargo de consciência, deveríamos fazer o que é justo, de preferência ao que é conveniente (ou menos arriscado). É claro que dificilmente resultaria, com os Legislativos que temos. Eles são o horror, o horror!
Mas dormiríamos melhor sabendo que nós -pelo menos nós!- tentamos deter a escalada do retrocesso e da barbárie.
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6 comentários

  1. Pode apostar em que, a partir do dia 22, teremos uma mobilização contra a PM, em favor da desmilitarização da polícia, e contra o governo tucano em particular; penso ser dever de todo ser humano DE ESQUERDA mobilizar-se contra a carcomida instituição policial e contra o Governo do Estado. Eu nunca dei muita pelota aos blogs lulistas, mas andei por ali observando o que os seus numerosos leitores pensam de tudo isso, e fiquei horrorizado. O lulismo é um negócio tão medíocre, mas tão medíocre, que certas pessoas que por aí se manifestam, por escrito, andam dizendo que o que está por trás do período de manifestações que agora começa é nada menos que a CIA, desejosa de “desestabilizar o governo”…

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  2. É o que me choca, companheiro. Antigamente, tínhamos um ideário de esquerda e apoiávamos partidos e organização que o seguiam, enquanto o seguiam. Se mudavam sua orientação política, perdiam nosso apoio.

    Agora, ao invés de terem ideais maiores, certas pessoas apenas apoiam o PT, em toda e qualquer circunstância. Parecem torcidas organizadas de futebol.

    Faz pouco tempo, o “Brasil 247” noticiou que o Nelson Jobim contribuíra com R$ 5 mil para o pagamento da multa do Genoíno. Apresentou o fato de forma positiva e todos os comentaristas estavam elogiando.

    Entrei com um comentário lembrando quem foi o Jobim, como ministro da Defesa do Lula: o cara que, na luta interna ministerial, liderou a facção dos que consideravam intocável a anistia de 1979.

    Ou seja, se a punição dos torturadores está emperrada até hoje, ele é um dos principais responsáveis, pois a revogação da Lei de Anistia é condição sine qua non para a coisa andar (como eu disse desde o primeiro momento).

    Sabe o que alguns comentaristas responderam? Que eu era sectário e amargo.

    Para eles, a esmolinha doada ao Genoíno é mais importante do que a punição ou impunidade dos torturadores.

    O que essa gente tem a ver com a esquerda, afinal?!

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  3. Torcida organizada de futebol. É bem por aí mesmo.

    Mas olha só, Celso, eu ando esperançoso. A PEC 51 está tendo um desenvolvimento importante, e, pelo que podemos perceber, a própria praça militar, quando se manifesta a respeito, deixa transparecer o seu desejo de se desmilitarizar. Os governos estaduais e o oficialato quer a permanência da PM; os praças, criminosos ou não, culpados ou não, querem o seu fim.

    Por outro lado, ando querendo escrever alguma coisinha sobre o PT, porque ainda me parece dos temas mais desafiadores, vou me dedicar a isso a certa altura. Há muita contradição em torno do PT, e isso devemos ter em mente. Por exemplo, o mesmo partido que, no Governo Federal, reivindica uma repressão mais dura contra os indignados, e parece que já vão recuando quanto a este ponto em particular, apresenta no Senado uma PEC como a 51, pela mão de um sujeito tão inexpressivo e apequenado como L. Farias, mas amparado por um gigante da nacionalidade como Luiz Eduardo Soares. Haveria muito o que considerar a respeito.

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  4. Eduardo,

    o trâmite no Congresso vai ser espinhoso e, se o Governo Federal não apoiar a desmilitarização, nada acontecerá. Anote.

    Quanto ao PT, a transformação num partido que só quer gerenciar o capitalismo é, a meu ver, definitiva.

    Mas, mesmo como partido reformista, não precisaria recuar tanto em relação aos ideais de outrora como a Dilma recua.

    O Lula, p. ex., recusou-se a extraditar o Battisti, caso a última palavra fosse dele.

    [Não o endeusemos: ele mandou um recado ao Gilmar Mendes, antecipando que procederia assim mas ressalvando que, se o STF encontrasse um meio de decidir a questão sem necessidade do aval presidencial, ele não se oporia. Ou seja, o problema dele era só o de não levar a culpa pela extradição…]

    A Dilma nem isto faria. Correria a entregar o Cesare para o Berlusconi, assim como correu a rechaçar o pedido de asilo do Snowden.

    Ela é uma completa decepção. O que foi, não é mais e já deixara de ser há muito tempo, quando o Lula a inventou como presidenta. Havia se tornado uma mera tecnoburocrata
    e é como tecnoburocrata que ela está governando.

    Abs.

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  5. Sim, estou de acordo.

    Quanto ao impacto que o lulismo tem na sociedade, na ideologia, etc, temos aí um modo de ver interessante, inimigo da mediocridade, que é o do Vladimir Safatle: o lulismo é um ramo do pensamento conservador.

    Mas esse assunto da PEC 51 merece uma atenção maior. Ainda que o Governo Federal não seja composto por entusiastas de alguma renovação popular da República, há na sociedade uma ampla linha favorável, até mesmo dentro da polícia. Até onde podemos constatar, a praça, transformada em besta humana por “treinamentos” tão criminosos quanto os assassinatos que a PM comete nas periferias, quer se desmilitarizar. Quer ter direito a um plano de carreira unificado, a um sindicato de verdade, a um bom salário. Se, de dentro da praça militar, tivermos uma mobilização ocorrendo em favor da PEC, então a pespectiva se modifica. Devemos ter em mente que desde junho de 2013 o Brasil não é mais o mesmo em algum aspecto, embora o significado e a magnitude da mudança não sejam ainda muito claros. É só o começo, como diz a meninada na rua.

    Mas eu insisto nisto em relação à PEC 51. A mim me parece que toda a esquerda deveria estar divulgando e apoiando a PEC noite e dia, mobilizando as bases pequenas ou grandes em seu favor, procurando atingir os policias pelas redes sociais, essas coisas. Devemos procurar ganhar os policias, embora essa ideia desagrade um setor da esquerda, pequeno-burguês e inconsequente como ele só, carente de qualquer pensamento tático. Por outro lado, a população, a sociedade, quer soluções, soluções concretas, propostas, uma pauta política, ainda que o povo queira a Copa, assista o Datena, etc. Sem essa dimensão, seremos facilmente transformados, todos nós, em bárbaros que incendeiam fusquinhas.

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  6. Eduardo,

    a disciplina de instituição militarizada é o primeiro empecilho. Ainda que os subalternos queiram a mudança, dificilmente ousarão externar tal posição.

    Depois, os governos estaduais não verão com bons olhos a volta à civilização. Preferem o autoritarismo, começando pelo Alckmin.

    Finalmente, no Congresso as viúvas da ditadura, a bancada evangélica e outras excrescências tudo farão para atrapalhar.

    Daria para ganhar a parada, se o PT ainda fosse o velho PT. Mas, o atual não comprará tal briga, como não comprou a da revogação da Lei da Anistia.

    Vamos fazer o que estiver ao nosso alcance, como sempre, mas…

    Um abração!

    Celso

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