"MEU NOME É NINGUÉM" VALE POR LEONE, MORRICONE E HENRY FONDA

Meu nome é ninguém (1973) é o filme para ver no blogue deste sábado. Trata-se de um western italiano que o grande Sergio Leone idealizou, produziu e dirigiu, preferindo, contudo, transferir a seu assistente Tonino Valerii o crédito de diretor.
Por quê? Tenho cá pra mim que ele não quis quebrar a sequência evolutiva de sua obra. Começara dirigindo épicos da Antiguidade (Os últimos dias de Pompéia -também não creditado-, 1959; e O colosso de Rodes, 1961), inventara o bangue-bangue à italiana ao transferir para o velho Oeste uma saga de samurais (Por um punhado de dólares, 1964) e foi realizando filmes cada vez mais ambiciosos:
  • Por uns dólares a mais (1965), em que uma busca de vingança assume contornos grandiosos;
  • Três homens em conflito (1966), perfeito como filme de ação e extraordinário como líbelo contra a guerra;
  • Era uma vez o Oeste (1968), um western nostálgico e filosófico, que contrapõe lendas e realidade, desmistificando fábulas românticas consagradas, ao mesmo tempo em que tributo a essas belas fantasias;
  • Quando explode a vingança (1971), tudo que ele queria dizer sobre as revoluções, sem prejuízo da ação propriamente dita, magnífica!

O passo seguinte seria Era uma vez a América (1984), monumento cinematográfico, uma das maiores obras-primas da sétima arte em todos os tempos.
Enquanto acumulava forças e reunia recursos para seu projeto mais caro e ousado, que tal ganhar um dinheirinho surfando na onda do sucesso de Terence Hill em clave cômica? [Este ator começara seguindo as pegadas de Franco Nero como mocinho sinistro, mas não convencia e acabou descobrindo sua real vocação ao estrelar o acomediado Chamam-me Trinity (d. Enzo Barboni, 1970).]
Meu nome é ninguém combina o melhor do Leone (novamente a discussão sobre como se engendravam as lendas, a belíssima trilha musical -desta vez um tanto wagneriana- de Ennio Morricone e a dignidade que Henry Fonda confere ao seu personagem) com o pior do Terence Hill (as sequências típicas de comédia de pastelão, cuja ausência seus fãs jamais perdoariam, daí terem sido incluídas para garantir bom desempenho nas bilheterias). 
A história é a de um jovem desconhecido mas muito hábil no gatilho (Hill), que importuna uma lenda viva do Oeste (Fonda), tentando por todos os meios forçá-lo a, antes de aposentar-se, inscrever seu nome definitivamente na História: quer que ele enfrente sozinho um verdadeiro exército de malfeitores.
Em termos qualitativos, o desperdício de tempo com as canastrices  de Hill o coloca mais ou menos no patamar de Por um punhado de dólares; sem tal concessão comercial, seria uma espécie de irmão menor de Era uma vez o Oeste
Mesmo assim, tem um ótimo ponto de partida e algumas sequências inesquecíveis. Merece ser visto.
Leone repetiria a dose com Trinity e seus companheiros (1975), usando Damiano Damiani como testa-de-ferro. É um filme vazio e indefensável, pior do que qualquer western dirigido por Leone ou pelo próprio Damiani (cujo Gringo, de 1966,  fora outra das inspiradíssimas incursões da Cinecittà pela Revolução Mexicana). Felizmente, não houve uma terceira associação com Terence Hill, um ator simpático e carismático, mas que se projetou num contexto de decadência e descaracterização do ciclo, acabando por as simbolizar.

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