O GAY INGLÊS QUE ESPIONAVA PARA STALIN

Memórias de um espião (1984), mais um filme para se ver neste blogue, não chega a ser propriamente uma obra-prima, embora tenha obtido algum destaque no Festival de Cannes: seu diretor, Marek Kanievska, chegou a ser indicado para a Palma de Ouro. Mas não levou.
Merece, contudo, ser conhecido, principalmente por sua componente biográfica: mostra o momento de decisão na vida de um dos cinco integrantes do alto escalão dos serviços secretos do Reino Unido que atuaram como agentes duplos entre as décadas de 1930 e 1950, fornecendo informações valiosíssimas para Stalin (o qual nem sempre fez bom uso delas, devido às suas paranoias).
Foi um episódio marcante da guerra fria, e extremamente traumático para os britânicos. 
Inspirou, inclusive, a visão amarga e pessimista do mundo da espionagem que impregna as novelas de Graham Greene e John le Carré (enquanto isto, Ian Fleming, com suas fantasias de James Bond, tentava levantar o moral da tropa…). 
O mais famoso dos agentes duplos foi Kim Philby, um dos três realmente egressos da Universidade de Cambridge (o grupo ficou conhecido como os cinco de Cambridge, mas dois deles tinham origem diversa). 
O Guy Burgess das telas… 
Memórias de um espião, no entanto, centra-se no menos lembrado Guy Burgess (Rupert Everett), cujo motivo para tomar a decisão que o faria passar o resto da vida no exílio teria sido, digamos, pouco convencional: no colégio aristocrático em que estudava, sofreu uma amarga derrota na disputa canibalesca que os aspirantes à elite travavam entre si, por uma posição hierárquica muito prestigiosa e até decisiva para suas futuras carreiras. 
Poderia, como o personagem diz, fazer a diferença entre a designação para uma embaixada na Europa ou no fim do mundo.
O motivo de sua desgraça foi a condição de gay tê-lo exposto a uma sórdida chantagem. Então, em função do ruir dos sonhos, de sua hostilidade em relação aos patrioteiros da escola e da admiração nutrida por um colega que era comunista fervoroso (Colin Firth), acaba tornando-se um improvável espião soviético.
…e o da vida real.
O filme, afora as breves introdução e epilogo, transcorre inteiro no ambiente estudantil. E mostra, realmente, outro país, como promete o título original. 
Um país que incutia os piores valores em seus filhos pródigos, estimulando-os a uma competição precoce, desleal e exacerbada pelo poder. 
E também um país que, por confinar meninos com outros meninos em plena puberdade, acabava às voltas com uma farta colheita de homossexuais.
O MI5, por sinal, passou a discriminá-los depois desse episódio, por entender que a orientação sexual de Burgess e de Anthony Blunt os vulnerabilizara, facilitando seu recrutamento pelos inimigos. 
Tais restrições perduraram até o início da década de 1990, depois caíram em desuso. Afinal, também os heterossexuais podem ser chantageados, se tiverem cometido falcatruas, se forem alcoólatras, adúlteros, pedófilos, etc. A defecção de Burgess e Blunt apenas forneceu pretexto para os preconceituosos praticarem seu esporte favorito: a estigmatização alheia.
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