A CENSURA DITATORIAL, UM FESTIVAL DE BESTEIRAS QUE ASSOLOU O PAÍS

O humor combatendo o horror

Fuçando nos blogues de cinema à cata de filmes para baixar, deparei-me com um que havia esquecido por completo: A rebelde (La califfa), de um diretor italiano pouco prolífico, Alberto Bevilacqua. É de 1970 e tem Romy Schneider e Ugo Tognazzi nos papéis principais.

Na época eu o vi, mas não me marcou nem foi sucesso de público ou crítica. Trouxe-me, contudo, à lembrança um dos incontáveis episódios bizarros da ditadura militar. Como bem sacou o genial Sérgio Porto, o dia 1º de abril de 1964 marca o início do  festival de besteiras que assolou o país

Num sábado de 1972, logo de manhãzinha, encontrei no Jornal da Tarde a notícia de que dez filmes em cartaz na capital paulista seriam proibidos logo depois do fim de semana. 

Pateticamente, a censura decidira voltar atrás, recolhendo fitas que já havia liberado (após ordenar os costumeiros cortes); mas, para não prejudicar o faturamento das empresas cinematográficas, iria permitir que fossem exibidos até a última sessão de domingo.

De imediato, numa reação característica dos que éramos obrigados a suportar a obtusidade encastelada no poder, eu e a minha companheira programamos uma verdadeira maratona cinematográfica: a uns seis conseguimos assistir ou rever, pulando de cinema em cinema, na certeza de que ficaríamos longo tempo deles privados.

Reportagem da revista Realidade, em 1967

Lembro-me de que, mesmo pelos critérios ridículos da censura, A rebelde destoava do restante da lista: Sacco e VanzettiQueimada! e que tais. Todos filmes políticos bem contundentes. [É quase certo que O Caso MatteiA chinesaA classe operária vai para o paraísoInvestigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita e Z também fizessem parte do lote].

Na categoria  estranhos no ninho  enquadrava-se  Sopro no coração, mostrando um caso de incesto em clave bem poética.

Não consegui encontrar a lista na busca virtual, mas desencavei um registro no Diário Oficial da União, dando conta de que as  otoridade  decidiram, baseadas no artigo 176, do Decreto n° 56.510, de 28 de junho de 1965, proibir a exibição do A rebelde, sem mais nem menos, não dando  qualquer explicação. Fazemos porque podemos, e fim de papo!

A publicação no DOU é do dia 21/02/1972, exatamente uma 2ª feira.

No final da década o pacote todo seria liberado de novo e alguns até reprisados nos cinemas, aproveitando o embalo; outros, como A rebelde, não foram considerados chamativos nem mesmo com a aura de malditos.
Por último, vale registrar que, como o ridículo dos censores não tinha limites, eles conseguiram produzir um episódio ainda mais grotesco.
Já que A laranja mecânica ficaria ininteligível se fossem  tesouradas  todas as cenas de nus, ordenaram que se aplicassem umas bolas pretas sobre a genitália dos atores e atrizes. Seios e nádegas podiam ser vistos; vaginas e pênis, não.

Aquelas bolinhas pinguepongueando pela tela se tornaram causa de humor involuntário: os espectadores caíam na gargalhada!

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1 comentário

  1. Celso
    Você não matou a charada? Pra mim, pela burrice muitas vezes ridicula, quando não simplesmente cruel e obscurantista da censura, o filme A Rebelde deve ter sido censurado apenas por causa do título. Afinal, poderia levar a associações com a resistência à ditadura. Mais um caso pro Febeapá.
    Eugenio Arcanjo

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