"ERA UMA VEZ NO OESTE": SIMPLESMENTE IMPERDÍVEL!

Quarto bangue-bangue de Sergio Leone, Era uma vez no Oeste (1968), abaixo disponibilizado graças ao Youtube, é um filme lento, virtuosístico, inusitado e belíssimo, com atuações inesquecíveis de Charles Bronson, Henry Fonda, Jason Robards e Claudia Cardinale; outra trilha musical superlativa de Ennio Morricone; e a colaboração de ninguém menos que Bernardo Bertolucci e Dario Argento na concepção da história. 
Destaque também para a singela homenagem que Leone presta ao grande John Ford, ao incluir no elenco um de seus atores favoritos, Woody Stroode (como um dos pistoleiros que esperam a chegada do Harmônica na estação de trem).
Nas quase três horas de espetáculo, o italiano Leone evoca um dos temas clássicos dos faroestes estadunidenses, a vingança -buscada por um homem misterioso (Bronson) que toca gaita de forma agônica e parece ter contas a ajustar com Frank (Fonda), o capanga do sr. Morton (Gabriele Ferzetti), capitalista selvagem que implanta a ferro e fogo a primeira ferrovia daquelas bandas.
Outro traço nostálgico, provável lembrança de muitas matinês, é a amizade que surge entre o Harmônica e o bandoleiro Cheyenne (Robards), começando pelo respeito mútuo e evoluindo para a simpatia e para uma aliança cheia de riscos enfrentados em conjunto.
E há também o primeiro grande personagem feminino da filmografia de Leone, a prostituta Jill (Cardinale), que resolve iniciar nova vida com um viajante que atendera no bordel -mais mitologia do gênero!
De um sem-número de westerns outonais a que assisti, é um dos mais reverentes e românticos, emocionado e emocionante.
Mas, Leone não se permite o simplismo de apenas colocar na tela uma magistral sistematização das ilusões cinematográficas sobre o velho Oeste. Ele introduz também o contraponto da realidade, que se evidencia na sequência do tão aguardado duelo final.
Depois que o mocinho e o bandido finalmente se defrontam, a câmara vai se distanciando do confronto solitário para mostrar, logo ao lado, as centenas de trabalhadores construindo a estrada de ferro, que transformaria radicalmente a realidade econômica e social da região.

Breve não haveria mais lugar para os Harmônicas, os Cheyennes e os Franks. As individualidades lendárias estavam condenadas pelo desenvolvimento das forças produtivas; breve só existiriam… no celuloide.

O indutor do progresso também não é poupado por Leone. Ele o apresenta de forma mais contundente ainda do que Orson Welles retratou o Cidadão Kane, aliás William Randolph Hearst. 
Se Kane vê sua humanidade se dissipar entre o mundaréu de quinquilharias que acumula no final de sua trajetória, Morton vai morrendo enquanto sua ferrovia ganha vida.

Combalido, reduzido a cadeirante, só se movimenta com rapidez quando está no vagão do trem; Frank, aliás, sarcasticamente o compara a uma lesma que, por onde passa, deixa um rastro de gosma, na forma de trilhos.  

Um clássico absoluto. Imperdível!

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