UM DOS MELHORES E MENOS RECONHECIDOS FILMES NACIONAIS DE TODOS OS TEMPOS…

…é Sagarana, o duelo (1974), que tenho enorme satisfação em (graças ao Youtube) disponibilizar neste espaço, contribuindo para que mais pessoas travem contato com uma indiscutível obra-prima. 
Por que os apreciadores do cinema brasileiro, na sua grande maioria, passaram batidos por esta que é a melhor transposição para as telas do universo riquíssimo de João Guimarães Rosa? Por não ser uma produção cara (embora a precariedade não transpareça nem tenha prejudicado o resultado final)? Porque Paulo Thiago não era diretor-estrela como Glauber Rocha? Porque não havia entre os atores nenhum grande chamariz de bilheteria? Porque quase não se investiu no lançamento? Porque muitos críticos destacavam e favoreciam os produtos da Embrafilme (com a qual tinham, digamos, comunhão de interesses)? Provavelmente, por estes fatores e mais alguns que não me tenham ocorrido.

O certo é que se tratou de uma enorme injustiça. Eu não hesitaria em colocar este Sagarana, o duelo como um dos dez mais do cinema nacional (ao lado de outra preciosidade que as novas gerações precisam igualmente descobrir, A margem, de Ozualdo Candeias).

O filme se baseia num rápido conto de Guimarães, sobre a interminável perseguição que um antigo policial (Milton Moraes) move contra um tocaieiro (Joel Barcellos) duplamente azarado: primeiramente, porque sua mulher (Ítala Nandi) o traía; depois, por ter errado de pessoa ao disparar o tiro da vingança, matando o irmão do seu temível alvo. Nessas questões de amor e honra no sertão, “Deus mesmo, quando vier, que venha armado”…
O roteiro de Thiago é maravilhoso, entrelaçando com esta pequena saga os personagens e situações de outras histórias de Guimarães, com tal perfeição que nenhum incauto percebe tratar-se de uma colcha de retalhos. Duvido que o filme ficasse tão bom atendo-se ao conto “O desafio”, que só respaldaria a realização de um curta-metragem.

A visão que ele lança sobre o grande sertão e as veredas de Minas Gerais, seus personagens e suas lendas, é inesquecível. Mostra, p. ex.:

  • a disputa de poder entre o coronelão à moda antiga (Jofre Soares) e a versão mais urbanizada (Sadi Cabral); 
  • um chefe de jagunços que garante ter visto uma santa no meio da batalha e, noutra situação, enfrenta o próprio demônio; 
  • um pistoleiro que tem pacto com o capeta (Paulo Villaça); 
  • um rezador e contador de histórias errante  (Paulo Cesar Pereio); 
  • uma caravana de ciganos (incluindo Wilson Grey e a bela Ana Maria Miranda); 
  • um circo mambembe e sua tosca encenação de O Conde de Monte Cristo;
  • um macumbeiro cujo feitiço poderoso impede que caçador e caça se vejam frente a frente;  
  • um barqueiro que depois se torna cobrador de trem, “continuando a levar as pessoas ao seu destino”, etc.
É uma variante brasileira dos westerns outonais estadunidenses e italianos, pois fica sempre evidente que o progresso implacável está expulsando de cena aquelas figuras tão interessantes e pitorescas. O enterro do velho coronel nas águas do rio dá bem a ideia do que é tudo aquilo: um magnífico canto do cisne.
E bota magnífico nisto! Recomendo com entusiasmo.

Antes do filme há um interminável trailer. Tenham paciência…
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