TRIBUTO ÀS CHUTEIRAS IMORTAIS – 5: FELIPÃO ROUBA A CENA (2002)

Em 1998 o Brasil perdeu o Mundial da França por causa de uma lambança de enfermeiro, da divisão do elenco e da pusilanimidade do técnico Zagallo.

Não vinha mesmo fazendo campanha brilhante: perdera da Noruega (1×2) na 1ª fase e necessitara dos pênaltis para despachar a Holanda nas semifinais (1×1 e 4×2).

Pior: a liderança do grupo era disputada por Dunga (apoiado pelos veteranos de 1994) e Bebeto (o preferido dos novatos), com direito a uma cabeçada do brucutu no bebê chorão durante a partida contra o Marrocos.


Poucas horas antes da final contra os anfitriãos, Ronaldo Fenômeno recebe uma rotineira infiltração de xilocaína para diminuir as dores no seu joelho. Mal aplicada: atingiu uma veia e espalhou-se na corrente sanguínea, fazendo com que, 10 minutos depois, ele entrasse em convulsão.

Zagallo, acertadamente, pretendeu substitui-lo por Edmundo. Mas, o inacreditável Ricardo Teixeira, presidente da CBF, impôs uma mudança de escalação na enésima hora, em benefício do garoto-propaganda da Nike, que voltava sonado do tratamento de emergência.


Dunga ainda tentou dar força a Zagalo, para que mantivesse a decisão sensata. Mas, Bebeto usou sua influência no sentido oposto, favorecendo a aceitação do ultimato de Teixeira.

Inexistindo unanimidade no grupo, Zagallo ficou com as mãos livres… para submeter-se ao cartola-mor, como sempre.

Os jogadores levaram para o campo os rancores do vestiário, fazendo exibição das mais apáticas no 1º tempo. Era tudo de que Zidaine precisava para praticamente liquidar o Brasil: 0x2.

Quando acordaram, já era tarde. A França resistiu à pressão brasileira, marcou outro gol em contra-ataque e poderia ter feito mais. A goleada por 0x3 saiu barata.

A frustração por haver deixado escapar uma Copa tida como ganha ainda se fazia sentir nas eliminatórias para o Mundial seguinte.

Em suas 18 partidas o Brasil foi dirigido por nada menos do que quatro técnicos: Luxemburgo, Candinho, Leão e Felipão. Acabou por garantir sua vaga apenas na última rodada, ficando 13 pontos atrás da Argentina e só três à frente do Uruguai (repescagem) e da Colômbia (desclassificada).

Luiz Felipe Scolari, técnico de conceitos rústicos e alguma força de caráter, era malvisto pela cartolagem, pois não tinha perfil de títere.


Assombrados pelo fantasma da desclassificação, os dirigentes, entretanto, acabaram cedendo à pressão dos torcedores, para quem, depois do fracasso de Luxemburgo, Felipão se tornara unanimidade — como consequência, principalmente, de seu ótimo currículo nos mata-matas da Copa Libertadores da América.

Não foi nada além de razoável (três vitórias e três derrotas), mas segurou o rojão num momento crítico, bem de acordo com sua imagem de homem forte.

De quebra indispôs-se com Romário, por suposta ou real má vontade do baixinho para com o escrete. Afastou-o definitivamente, apesar do seu pedido de desculpas público e do lobby de cartolas & imprensa esportiva.

Situação paradoxal: queda de braço entre um técnico que era preferência nacional e um jogador, idem.

Para dar a volta por cima, Felipão fez uma jogada arriscadíssima, contrapondo um mito a outro mito: escolheu Ronaldo Fenômeno como seu artilheiro, embora viesse em maré de fracassos, contusões graves e longos períodos de convalescença, desde a fatídica final contra a França em 1998.

Com seu carisma e extrema habilidade motivacional, aproveitou as críticas à Seleção para fechar o grupo em torno de si. Era a Família Scolari  lutando contra tudo e contra todos.


E a sorte o bafejou: não só Ronaldo renasceu das cinzas na Copa da Coréia do Sul/Japão, como a Seleção teve a tarefa facilitada por enfrentar as galinhas mortas que pediu a Deus.

Treinou contra a China (4×0), Costa Rica (5×2) e desperdiçou duas vezes a oportunidade de golear a incipiente Turquia, vencendo-a apenas por 2×1 na 1ª fase e 1×0 na semifinal (gol de Ronaldo, em bela arrancada pela meia-esquerda).

Nas oitavas-de-final, a Bélgica chegou a dar algum trabalho a são Marcos (um dos destaques da campanha), mas Rivaldo e Ronaldo resolveram. 2×0.

O único adversário de verdade foi o das quartas-de-final: a Inglaterra de Beckham, Owen e Campbell, que sobrevivera ao grupo da morte na 1ª fase (vencendo a Argentina, empatando com Suécia e Nigéria) e vinha de golear a Dinamarca. Não havia favorito.

Uma rara falha de Lúcio propiciou gol a Owen, mas o personagem do jogo seria Ronaldinho Gaúcho:

  • carregando a bola do meio-de-campo até a entrada da área, serviu Rivaldo livre, para este empatar;
  • cobrando falta da zona morta (na intermediária, junto à lateral), acertou chute primoroso, encobrindo o goleiro David Seaman, que esperava um cruzamento; e
  • foi expulso logo em seguida por causa de uma solada, mas os dez restantes souberam segurar o 2×1.
Melhores momentos de Brasil 2×1 Inglaterra. Para ver o jogo inteiro, clique aqui.

Depois de fazer a lição de casa contra a Turquia, teve pela frente uma Alemanha que nem sequer cogitava chegar à final: seu objetivo era preparar o time para a Copa seguinte, que iria disputar em casa.

Vitória, com autoridade, do Brasil de Marcos; Cafu, Lúcio, Edmilson, Roque Jr. e Roberto Carlos; Gilberto Silva, Kleberson e Ronaldinho Gaúcho (Juninho Paulista); Rivaldo e Ronaldo (Denilson).

Já criara mais chances no 1º tempo, quando Kleberson acertou o travessão e Oliver Kahn, o melhor goleiro do Mundial, andou fazendo defesas difíceis.


Decidiu no 2º. A tarefa foi facilitada por uma inusitada falha de Khan, que bateu roupa num chute forte mas defensável de Rivaldo, deixando Ronaldo à vontade para abrir o marcador.

A Alemanha saiu para o jogo e, em rápido contra-ataque pela direita, Kleberson cruzou, Rivaldo deixou passar e Ronaldo colocou no canto: 2×0.

Terminou a campanha com estatísticas invejáveis:

  • só vitórias, como em 1970 (quando um campeão jogava seis vezes, e não as atuais sete);
  • melhor ataque (18 gols);
  • artilheiro (Ronaldo, 8);
  • um dos vice-artilheiros (Rivaldo, 5, na companhia de Miroslav Klose, da Alemanha);
  • uma das melhores defesas (4 gols sofridos, atrás apenas da Alemanha, 3); e
  • melhor saldo de gols (14) de um campeão nos 18 Mundiais até hoje disputados.
Sem ser um esquadrão dos sonhos, como os de 1958, 1970 e 1982, soube fazer valer a experiência e a qualidade técnica do seu elenco.

Melhores momentos da final contra a Alemanha. Para ver o jogo inteiro, clique aqui.

EPÍLOGO


Como sabia Napoleão Bonaparte, a sorte é fundamental, seja para oficiais numa guerra ou para técnicos num Mundial.


Felipão gastou toda que tinha –e se viu abandonado pela fortuna nos 10 anos seguintes, os piores de sua carreira como técnico.

Isto porque não ganhou nada à frente da seleção portuguesa, chegando ao cúmulo de perder uma decisão da Eurocopa em casa para a poderosa Grécia.

Volta dos mortos-vivos: o filhote da ditadura e o ultrapassado.


Passou em branco pelo Chelsea, sendo demitido após míseros sete meses.

Foi o técnico campeão uzbeque (?!) de futebol de 2009.

Fracassou no Palmeiras, conquistando, em 26 meses, tão somente uma esvaziada Copa do Brasil e colocando o time no rumo da série B do Brasileirão. Até seu maior talento, o motivacional, pareceu evaporar: fez chegar às maltas organizadas os nomes dos baladeiros do elenco, estes tomaram conhecimento da trairagem e, em meio à divisão e desavenças que se instalaram no vestiário, teve de sair pela porta dos fundos.

Tido unanimemente como ultrapassado, tirou a sorte grande no final de 2012, quando o filhote da ditadura José Maria Marin assumiu a presidência da CBF, depois que Ricardo Teixeira teve de largar o osso, acuado por denúncias de corrupção.

Sai Pra frente, Brasil!, entra Protesta, Brasil!


A conquista da Copa das Confederações (à qual os europeus jamais deram importância) consolidou sua posição, calando os defensores de treinadores atualizados.

Tentará provar que os fatores campo e torcida ainda ganham Mundial, exumando a velha mística da pátria em chuteiras.

Bem mais provável é que prevaleça alguma seleção forte com um estrategista competente no banco –óbvio diferencial em relação a Felipão (nulo neste quesito) e ao grilo falante Carlos Alberto Parreira (que, carente de inventividade, não passa de um imitador aplicado de estratégias alheias).

E pensar que pessoa ligada a Pep Guardiola lançou um balão de ensaio em nossa direção, ao revelar que agradaria ao melhor técnico do mundo conduzir a Seleção Brasileira ao hexa! 

Marin, tão nefasto agora como antes, o descartou…

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