APOLLO NATALI PERGUNTA: "CADÊ O BIXIGA?"

CADÊ O BIXIGA?

                                                                                                                   Por Apollo Natali

“a pia que salvou a minha alma”
Grande como um continente, o Brasil tem 8 milhões e 542 mil quilômetros quadrados de território. O litoral brasileiro, 7 mil e 367 quilômetros de extensão. Quem se aventura a percorrer o País pelo litoral, desde o arroio Chui, no Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai, até o arroio Oyapoque, no alto do estado do Amapá, este lá em cima da América do Sul, já para os lados da América Central, contempla, entre esses dois pontos limites do chão brasileiro, uma sequência sem fim de nomes italianos em fachadas de indústrias, comércio, hospedarias,  fazendas.
Nós, brasileiros, quando queremos expressar o tamanho do nosso país dizemos: do Oyapoque ao Chui. No percurso pelo litoral entre esses dois distantes riachos limites, o aventureiro vê das janelas dos ônibus, do carro, da canoa, do lombo do jegue, artísticos recortes e contornos de deslumbrantes praias cheias de dizeres italianos.
   
Imigrantes de várias origens e etnias se espalharam pelo país e deixaram sua marca de trabalho e de progresso em cada canto do Brasil. Mas a religiosidade católica, a sensibilidade, as boas comidas, a participação em vários esportes, o modo de se mostrarem sempre felizes mesmo tendo sofrido muito ao tempo da imigração em  massa, estão entre as maiores influencias deixadas pela enorme colônia de italianos. A expansividade e o jeito alegre desses imigrantes modificaram até o próprio modo de falar de muitos dos brasileiros. Mesmo a mais comum xingação do mundo os brasileiros falam em italiano.
Convivi com a italianada de um punhado de cortiços na fronteira entre o Brás e a Mooca, em São Paulo, nas ruas Coronel Cintra, rua da Mooca, Caetano Pinto, Carneiro Leão.  Eu mesmo vivi 33 anos, desde bebê, num cortiço na Mooca, na rua Coronel Cintra, 129, habitado por 20 famílias de ruidosos italianos e suas briguentas crianças. Minha meninice lá foi marcada pela música “Marechiare”, pelo rádio de Tzi Terê e vozerio de Gino Bechi. Eu sabia cantar essa canção em italiano: quem diz que as estrelas são luzentes não conhecem os olhos que você tem na fronte.
A tradicionalíssima escadaria do Bixiga
Realizando um sonho de criança, aos 46 anos fui a Manaus, capital do Amazonas, e naveguei pelos rios daquele Estado: o Amazonas, o Madeira, o Mamoré, o  Negro. Sabem o que eu via enquanto meu barco deslizava pelos igarapés, esses rios quietos e caudalosos que passeiam por entre a selva inundada? Via índios com camisas do Milan, remando suas canoas em meio ao mistério da floresta. E sabem qual o pano de fundo, ao longe? Placas com o nomes de propriedades e fazendas, em italiano. 
Um dos marcos dessa emocionante saga da italianada em nosso país, é que, em meio à massa de oriundi que invadiu o Brasil desde o final do século 19, uma mítica aglomeração deles emergiu em São Paulo: o bairro do Bixiga. Na capital paulista os imigrantes que chegavam se hospedavam na Hospedaria dos Imigrantes, no bairro do Brás, hoje tornada Museu da Imigração. Em São Paulo, as principais regiões onde eles mais se concentraram foram nos bairros do Bixiga, Brás, Mooca, Água Branca, Lapa, Ipiranga e no chamado ABC paulista, formado pelas cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul.
São uns privilegiados os milhões de leitores brasileiros deste blogue do meu velho amigo ítalo-brasileiro Celso Lungaretti. Privilegiados são também os outros milhões de leitores que o acessam na América do Sul, Estados Unidos, Canadá, Rússia, Alemanha, Portugal, China, França, Índia, Austrália, Malásia. Privilegiados porque podem viver agora a emoção intitulada bairro italiano do Bixiga, que no meu tempo de criança  – estou com 78 –  era habitado predominantemente por italianos e negros.  Os negros e pardos correspondem hoje praticamente à metade da população do país. Pesquisa de 2005 contava 92 milhões de brancos e 91 milhões negros e pardos. No Brasil apenas não há negros nas reservas indígenas.
O passado sucumbe à degradação urbana
Ainda hoje está viva lá no Bixiga, pertinho da casa que foi da minha nona, no fim da rua São Vicente, uma escola de samba que desfila no Carnaval, chamada Vai-Vai. No coração do Bixiga, o samba italiano. Brasileiro de sangue italiano, a maior frustração da minha vida, além de não ter voz para cantar canções napolitanas como “Parlami d’amore Mariu” na voz potente e dramática de Mário Lanza, é não ter aprendido a dançar como os negros, é invejar sua dança, que está no seu sangue, nos nervos, na pele, nos pés, nos olhos. Considero perdido o dia em que não se dançou o samba nenhuma vez. Até os cachorros do Bixiga latem no ritmo do samba, dizia Osvaldinho da Cuíca, integrante da ala italiana do samba paulista no Bixiga. Confesso, eram escurinhas as 4 moças por quem este brasileiro branquelo de sangue italiano se apaixonou  no decorrer de sua longa vida.
E foi da seguinte maneira que os italianos fundaram o bairro do Bixiga, na região central de São Paulo: em 1º de outubro de 1878 o imperador do Brasil D.Pedro II inaugurou o loteamento da Chácara Bexiga – falava-se Bexiga – que pertencia a Antonio José Leite Braga. Os lotes eram baratos e foram comprados por imigrantes italianos, que acabaram batizando o bairro. A Chácara Bexiga ficava no centro de um bairro chamado até hoje de Bela Vista. O nome Bexiga vem de um problema de saúde, a varíola, que atacou os imigrantes. Eles tinham seus rostos marcados por bechigas. Pasmem: os vereadores de São Paulo não aprovaram até hoje, 136 anos desde o seu nascimento, um projeto de oficialização do bairro do Bixiga, proclamando sua independência e evitando o seu desaparecimento.
Desde os antigos italianos que o habitavam, o Bixiga veio ganhando o status de bairro cultural, por suas cantinas, gastronomia, teatros, variadas atividades culturais. No entanto, de tudo, resta hoje apenas uma única festa, concentrada na igreja Nossa Senhora Achiropita, onde ainda se rezam missas em italiano. 
A famosa festa de N. Sra. da Achiropita
De vez em quando, padres, sacerdotes, mães de santo, pais de santo, misturam ingredientes africanos na missa afro, rezada na paróquia. É uma leitura africana com olhos cristãos da religião católica. Rituais católicos se misturam às tradições afro-brasileiras. Pode-se agendar casamento afro nessa histórica igreja.
Atualmente há apenas três ambientes nas festividades para gostos variados: a rua 13 de Maio, onde eu nasci de parteira em 1936 no antigo número 29, a igreja onde fui batizado aos 7 anos de idade em 1943, em plena II Guerra  e a cantina Madona Achiropita. Na Igreja, até hoje bênçãos são dadas a cada hora. No meu batismo, o padre italiano grandão todo vestido de preto enfiou o dedo cheio de sal na minha boca e eu cuspi pecaminosamente na pia batismal. O padre deu um cascudo na minha cabeça e disse: “Onde se viu ser batizado aos 7 anos?”. Fui carregado para o batismo por duas tias italianíssimas, corpulentas, catolicíssimas, tia Bianca e tia Líbera.  Elas me erguiam decididamente pela rua 13 de Maio e meus pés nem alcançavam o chão. Outro dia, já nos meus 78 anos, voltei á Igreja Nossa Senhora de Achiropita, para matar saudades da pia que salvou a minha alma.
Na minha infância os vidros coloridos das antigas janelas de madeira do velho palacete da nona na rua São Vicente pintavam de verde, amarelo, vermelho, azul, os pratos quentinhos de macarrão e rizzoto.  O vozeirão harmonioso de Beniamino Gigli acariciava nossos corações nos almoços e jantares. Meus avós maternos são de Nápoles, no sul. Os paternos são de Pescia, no norte. Minha avó paterna engravidou 24 vezes, a materna 17 vezes, minha mãe 7. No ano de 2013 viviam no Brasil cerca de 30 milhões de descendentes de imigrantes italianos, a metade da população da Itália. Que fantástica capacidade de proliferação dessas gentes que pisaram no Brasil vindas do Vêneto, Campânia, Calábria, Lombardia, Abruzzo-Molise, Toscana, Emília-Romagna, Basilicata, Trento, Sicília, Piemonte, Puglia, Marche, Lácio, Úmbria, Ligúria, Sardenha!
Muita festa, pouco bairro  
(editorial de um jornal sobre o Bixiga que eu
criei – e não passou do primeiro número…)
Aconchego dos artistas e dos teatros. Das cantinas italianas. Da escola de samba Vai-Vai. Da festa de Nossa Senhora Achiropita. Diversidade étnica. Tradições, práticas, costumes, símbolos. Muitas e belas histórias de vida.  Pois saibam todos quantos possam se interessar, essa riqueza cultural do Bixiga respira com o balão de oxigênio da mídia. Cadê o Bixiga? Vai morrer? Já morreu? O dia em que rádio, TV, jornais, se calarem, podem encomendar o ofício dos mortos para o bairro.
O problema é que esse estado de espírito, como é definido o Bixiga, anda muito mal acomodado nesse bairro que nem é bairro oficialmente. O precioso acervo leva má qualidade de vida. É cercado por arquitetura descaracterizada pelo chamado progresso, leia-se especulação imobiliária. Calçadas, deterioradas. O leito das ruas, devastado pela invasão dos vikings do asfalto, os automóveis. Mas que terra barulhenta e poluída de fumaça é hoje o Bixiga!
Três mil saudosas residências de outrora, desesperançadas, sobreviventes da terra urbana arrasada que deu passagem a viadutos e avenidas, imploram tombamento para não acabarem virando garagens decoradas com graxa. Mas os apaixonados pela causa, trabalham. Os grandes problemas têm soluções simples. Que o diga o também italiano, como os bixiguenses, Cristóvão Colombo, a espantar o mundo com a sua solução para equilibrar um ovo.
Toque e seu desejo será atendido

Uma dessas soluções simples seria  a construção de uma garagem subterrânea para mil carros, a oferecer dignidade e segurança a um número sem fim de turistas, brasileiros e estrangeiros, atraídos pela mágica do lugar. O estacionamento, aprovado por dois falecidos prefeitos, Reinaldo de Barros e Jânio Quadros, se um dia sair do papel irá para o subsolo da praça D.Orioni.
A proposta é de Walter Taverna, feitor, há décadas, de grandes eventos que, junto com o favor da mídia, vêm dando sobrevida à aura do bairro. Entre outras festas, Taverna criou o maior pão do mundo e o maior bolo do mundo, este para comemorar o aniversário de São Paulo, em 25 de janeiro. Cada bolo tem o tamanho do número de aniversários da cidade. O último tinha 460 metros e foi devorado em cinco segundos pela população. A prefeitura de São Paulo não o deixou fazer a maior pizza do mundo. O dia em que Taverna morrer, podem contratar a cerimônia fúnebre do Bixiga. Eu já disse isso a ele.
Para avivar o magnetismo do bairro, Taverna tem um belo sino dourado na porta de sua cantina, a Concheta. Ao tocarem o sino, os seus clientes participam de uma simpatia italiana: quem tocar o sino uma vez, consegue conquistar a pessoa amada. Duas vezes, consegue trabalho. Três vezes, saúde para ele e toda a família. Quatro vezes para ganhar bastante dinheiro.
Taverna lança o brado: o Bixiga precisa dessa referência, o estacionamento.
Ele quer também a rua 13 de Maio transformada num calçadão e em shopping a céu aberto. E a reestruturação do comércio da área. E sonha acordado com investidores para realizar esses seus sonhos.
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