‘COPA DAS COPAS’? MENOS, BEM MENOS…

COPA DO AUTORITARISMO

“Não serei o primeiro a lembrar que, dentre os vários legados da Copa do Mundo, um dos mais duradouros será certamente a ampliação da zona de suspensão de direitos. O Brasil já era conhecido por seu histórico de violência policial, de desrespeito aos direitos civis e pela proximidade entre bandidos e a polícia. Nesta Copa do Mundo, a despeito da segurança contra manifestações políticas, tal processo chegou muito próximo da perfeição.

…Transformando praça pública em verdadeiras praças de guerra nas quais pessoas ficaram confinadas por horas à força, espancando jornalistas, moradores, advogados e ativistas de maneira indiscriminada (…) e prendendo por ‘formação de quadrilha’ pessoas cujo maior crime foi manifestarem-se politicamente, as ‘forças da ordem’ [o colunista alude à PM do Rio de Janeiro] conseguiram impor um padrão de excelência em matéria de indistinção entre democracia e passado ditatorial.

Já em São Paulo, (…) a polícia havia mostrado quão pouco realmente se deixa intimidar por certas ‘ideias abstratas’, como respeito ao direito popular de contestação e às garantias constitucionais….

…práticas de exceção, quando aparecem devido a situações, digamos, excepcionais (como Copas, Olimpíadas, uma invasão de argentinos, guerras ou catástrofes naturais) não desaparecem mais. Elas vão se tornando uma espécie de jurisprudência muda, que pode existir nas entrelinhas, sem precisarem ser claramente enunciadas para serem efetivamente seguidas.” (Vladimir Safatle, em sua coluna desta 3ª feira, 15,  na Folha de S. Paulo, cuja íntegra pode ser acessada aqui)

COPA DAS MARACUTAIAS

“A Copa do Mundo deixa um legado de infraestrutura para o Brasil muito menor do que o prometido quatro anos atrás – e a um custo mais alto. Em 2010, o governo anunciou que o evento atrairia investimentos de R$ 23,5 bilhões em 83 projetos de mobilidade urbana, estádios, aeroportos e portos. Parte das obras ficou no caminho e só 71 projetos foram mantidos na lista.
Segundo levantamento feito pela rede de repórteres do Estado nas 12 cidades-sede, as obras entregues para a Copa e as inacabadas somam R$ 29,2 bilhões – mesmo tendo sido substituídos em várias cidades projetos mais ambiciosos, como trens e monotrilhos, por modestos corredores de ônibus. Ou seja, o País gastou mais para fazer menos e com menor qualidade.” (reportagem de O Estado de S. Paulo, de autoria de Lourival Santanna e Marina Gazzoni, cuja íntegra pode ser acessada aqui)

COPA DO AFOGADILHO

“A mídia, porventura, errou ao chamar a atenção para o atraso nas obras, excesso de sedes, previsões orçamentárias desrespeitadas? Da imprensa não se espera outra atitude se não a de advertir para erros, apontar irregularidades e cobrar providências. O cronograma estava visivelmente comprometido, corria-se o risco de começar a Copa com andaimes nos estádios, tapumes nos aeroportos, nó monumental no trânsito, caos nas comunicações.

A imprensa pensava no público, tanto a nacional como a internacional. E graças à salutar verberação, as autoridades se apressaram, abusos foram evitados e providências extremas adotadas. Sem a fieira de feriados nos dias de jogos do Brasil ou nas cidades-sede o país ainda hoje estaria engarrafado. Mesmo nos dias úteis registrou-se um abrandamento geral nos horários e nos compromissos. Durante cinco semanas as viagens de negócio foram praticamente suspensas. Isso tem um custo, sobretudo em situações de depressão econômica como a atual.” (artigo de Alberto Dines publicado no Observatório da Imprensa, cuja íntegra pode ser acessada aqui)

TRIBUTO À COERÊNCIA

“Morreu Plínio de Arruda Sampaio. Era um homem inequivocamente de esquerda sem nunca ter sido de fato marxista. Foi um democrata cristão no início de sua vida pública sem jamais ter sido um conservador. Sua personalidade complexa e aparentemente contraditória, que conheci bem, guardava uma notável coerência.
Concordasse eu com suas escolhas ou não –e é certo que, politicamente, estivemos mais próximos no passado do que em dias recentes–, tenho claro que Plínio rompeu barreiras políticas sempre por bons motivos, que nunca atenderam à sua conveniência pessoal. Há homens que admiramos não porque falam o que nós pensamos, mas porque falam o que eles pensam. Plínio se foi de bem com sua consciência, e aí está uma grandeza e uma paz merecidas.” (José Serra, em artigo publicado nesta 3ª feira, 15, na Folha de S. Paulo, cuja íntegra pode ser acessada aqui)
Obs. Já que o oficialismo tenta de todas as formas impingir a balela propagandística de que o Mundial 2014 da Fifa (muito mais dela do que nosso…) teria sido a Copa das Copas, é sempre bom alguém mostrar o outro lado da moeda. Sou um dos que cumprem atualmente este papel, seja por meio de textos próprios, seja chamando a atenção dos meus leitores para aspectos importantes que outros abordaram, como faço agora. Com a autoridade de quem não tem o rabo preso com nenhuma candidatura presidencial. Apenas me indigna ver, em 2014, a repetição do mesmo ufanismo belicoso de 1970. Mudaram os slogans, mas a essência continua a mesma: manipulação e intolerância. Antes era “Brasil, ame-o ou deixe-o!”, agora é “Vândalos, mofem no cárcere para não melarem a festa!”. 

De quebra, destaco o belo necrológio de José Serra, que teve o privilégio de ser amigo do Plínio de Arruda Sampaio, dando, portanto, um depoimento que só quem o conhecia intimamente poderia dar. Não é o meu caso, embora nossos rápidos contatos tenham confirmado minha impressão de que ele era um dos últimos brasileiros cordiais, além de idealista exemplar e valoroso companheiro.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s