O POLITICAMENTE CORRETO É UM PÉ NO SACO!!!

Picaretagem? Não.  Pior ainda! 
Caiu-me na mão uma nova edição do conhecidíssimo livro O caso dos dez negrinhos, escrito em 1939 pela novelista policial britânica Agatha Christie (1890-1976), com o título alterado para E não sobrou nenhum.
Pensei tratar-se daquela picaretagem muito frequente no mercado de VHS e DVD, de rebatizar-se um filme para vender o mesmo peixe uma segunda e até terceira vez aos incautos.
Folheando-o, contudo, logo no terceiro parágrafo encontrei o local dos crimes sendo chamado de Ilha do Soldado, ao invés de Ilha do Negro.
Curioso, procurei os versinhos infantis nos quais o assassino se inspira para matar suas dez vítimas e eles não mais se referiam a dez negrinhos, mas sim a dez soldadinhos!
Uma rápida pesquisa na internet esclareceu tudo. A explicação está num press-release da Livraria Saraiva, quando a Editora Globo lançou a edição de bolso com o título e o texto emasculados:

O culpado não é o mordomo, mas um personagem ainda mais cheio de normas, conhecido pelo codinome de ‘o politicamente-correto’. Pois foi ele que levou os agentes literários da grande dama inglesa a proporem a mudança de título de ‘O caso dos dez negrinhos’ (Ten little niggers), o livro mais vendido de Agatha Christie em todo o mundo, e adaptado para o cinema por René Clair. A solução salomônica foi, então, destacar o novo título, retirado de uma canção folclórica inglesa, e avisar na capa que o livro é uma nova versão daquele que foi consagrado pelo público brasileiro…

Na 1ª vez, colocaram esta ressalva.
Nem este cuidado a Globo teve agora, ao editá-lo em formato normal. É E não sobrou nenhum, e fim de papo.

Fiquei pasmo, pois nada havia de pejorativo no fato de a ilha chamar-se do Negro, nem na cançãozinha folclórica, como todos podem constatar:

Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;
um deles se engasgou e então ficaram nove.

Nove negrinhos sem dormir: não é biscoito! 
Um deles cai no sono, e então ficaram oito. 

Oito negrinhos vão a Devon de charrete; 
um não quis mais voltar, e então ficaram sete. 

Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis 
que um deles se corta, e então ficaram seis. 

Seis negrinhos de uma colméia fazem brinco; 
a um pica uma abelha, e então ficaram cinco. 

Cinco negrinhos no foro, a tomar os ares; 
um ali foi julgado, e então ficaram dois pares. 

Quatro negrinhos no mar; a um tragou de vez 
o arenque defumado, e então ficaram três. 

Três negrinhos passeando no Zôo. 
E depois? O urso abraçou um, e então ficaram dois. 

Dois negrinhos brincando ao sol, sem medo algum;
um deles se queimou, e então ficou só um. 

Um negrinho aqui está a sós, apenas um; 
ele então se enforcou, e não sobrou nenhum.

Foi de um ridículo atroz alguns tolos pernósticos dos EUA terem feito tempestade em copo d’água por causa desses versos bobinhos, feitos para rimarem e não para significarem o que quer que seja. E foi uma traição à literatura a conivência dos agentes mercenários com o estupro do texto original da obra!
Repito o que já escrevi quando os patrulheiros cricris foram procurar pelo em ovo num clássico da literatura infanto-juvenil de Monteiro Lobato,  o maior autor brasileiro do gênero: nosso problema é e sempre será o de transformarmos o mundo, não o de maquilarmos as palavras com que nos referimos às mazelas do mundo. 
A lepra tem de ser combatida com medicamentos, de nada adianta utilizarmos o eufemismo de hanseníano para designar aquele que o povo conhece, sem conotação negativa, como leproso (o termo que se tornou pejorativo é lazarento). 
O racismo existirá enquanto vivermos numa sociedade que coloca os homens contra outros homens, numa zoológica competição que só serve para perpetuar a desigualdade e a exploração; temos é de acabar com o capitalismo, não ficar deletando negro e preto, para substituir por afro-americano. Mas, claro, fazer o necessário é muito mais difícil do que fazer marola com irrelevâncias.
Repito, também, que quem tenta proibir ou estigmatizar obras de arte, ou batalha para que sejam censorialmente modificadas em função de tais ninharias, tem índole inquisitorial. Embora não o admita nem para si mesmo, é herdeiro de Torquemada.
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