REYNALDO, MEU PAI.

Meu pai era Reynaldo. Quando brigava com ele, minha mãe fazia blague com seu nome: “rei, nada!”.

Eu tinha alguma admiração por ele, bastante amor e imensa compaixão.
Sua vida foi praticamente destruída aos 11 anos de idade; passou as sete décadas seguintes lamentando o paraíso perdido, sem nunca ser totalmente feliz.
Foi assim: meu avô Baptista, mestre de fiação e tecelagem que veio tentar a sorte no Brasil, trabalhou primeiramente em São Paulo, onde constituiu família. Depois, contrataram-no para comandar uma fábrica no Rio de Janeiro.
Foi o momento mágico da vida do Reynaldo. Gostava imensamente de Baptista, homem forte, altaneiro, mas carinhoso com os filhos, como costumavam ser os italianos. Numa foto amarelada, única que sobrou, ele aparece imponente, com a indumentária que usava em caçadas.
Além disto, havia todas aquelas brincadeiras da molecada de outrora e, principalmente, o campo de futebol ao lado de sua casa. Reynaldo chegava da escola, atirava seu material por cima do muro e caía na pelada. Levava a vida que todo garoto gostaria de ter.
Mas, um operário demitido por Baptista o tocaiou na feira de sábado, baleando-o pelas costas.
Minha avó teve de voltar para São Paulo, onde contaria com a ajuda de parentes. Um deles conseguiu colocar meu pai como empregado no Cotonifício Crespi, fraudando sua idade para burlar a fiscalização. Em 1930, ingressou pela primeira vez no prédio em que trabalharia até 1976.
Durante o Tiro de Guerra  
Conheci essa indústria gigantesca, que ocupava um quarteirão inteiro, enorme, na Mooca. À saída, a multidão era tamanha que lembrava a de um estádio de futebol. A área de trabalho mal iluminada, com muita poeira de algodão flutuando. Local deprimente, sufocante.

Na década de 1960, era praticamente idêntica à mostrada no filme Os companheiros, de Mario Monicelli, sobre uma greve ocorrida em Turim… no final do século 19! Estávamos bem atrasados. [Temo que, sob o verniz modernoso, ainda estejamos.]

O menino que vivia feliz e despreocupado, jogando bola dia e noite, herdou, de um momento para outro, responsabilidades de homem da casa. Era este o dever de um primogênito, disse-lhe minha avó, ao enterrá-lo numa fábrica medonha.
Adulto, Reynaldo recitava com tristeza a poesia de Casimiro de Abreu: “Ah, que saudades que tenho/ da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais…”
Teve lá seus prazeres e distrações, dançava bem, foi razoável jogador de sinuca, ia no futebol, paquerava na rua da Mooca (o chamado footing, turminhas de homens e turminhas de mulheres passeando pela calçada, até que os mais ousados engatassem um papo, um flerte).
Só se empolgou uma vez na política, com Getúlio Vargas. Chorou no dia de sua morte e guardava um jornal que a noticiou junto com o do fim da 2ª Guerra Mundial e o da conquista da Copa do Mundo de 1958. Era contra os patrões e a dominação estrangeira, mas a antipatia por um dos irmãos impostos, comunista dado a discursar aos brados durante as refeições familiares, afastou-o da esquerda. Deve ter sido difícil a convivência dos três filhos do viúvo com os três da viúva. 
A grande greve de 1917 começou no Crespi
A síndrome de arrimo da família o tornou cauteloso demais para ter êxito na carreira. Não trocava o certo pelo incerto, então continuou no Crespi até que fechasse, em 1964. 
E, como todos os seus colegas, foi tungado. Naquele tempo, os patrões eram os (in)fiéis depositários da aposentadoria dos trabalhadores. Então, a família proprietária aproveitou o golpe militar para pedir falência e, com o sindicato receoso e impotente, coagir os operários a péssimos acordos. Reynaldo resistiu durante bom tempo, mas acabou cedendo ao receber proposta de novo emprego. Conformou-se com uns 45% do que lhe era devido.
E, como móveis e utensílios da velha indústria, foi permanecendo lá, primeiramente a serviço do turco que alugou parte das instalações para montar uma tecelagem menor. Depois, do judeu que utilizou o mesmo espaço como loja de tecidos. 
Enquanto o negócio ainda ia bem, o Crespi submetia os empregados a um revezamento bizarro: numa semana seu turno era das 5h às 13h, na outra das 13h às 21h.
Quando tive de trabalhar alguns meses numa rádio, preparando o noticiário matutino, aquilatei melhor o sacrifício do meu pai, de marchar para o emprego na escuridão da madrugada, quando o corpo pedia mais repouso; afora a dificuldade que ele tinha para adequar-se à mudança do regime de sono, ora uma esticada só, ora dois períodos.
Três patrões, mas sempre o mesmo endereço, durante 46 anos! Eu, que trabalhei nuns vinte lugares diferentes, não consigo nem imaginar o que seja repetir o mesmo trajeto e labutar num ambiente sombrio por mais da metade da vida.
Houve um tempo em que moramos longe do Crespi e ele ia trabalhar de bicicleta. Às vezes era perseguido por cachorros. Às vezes chovia.
Eu era criança e escutava seus relatos com curiosidade, mas não me ocorria lamentar sua sorte, nem me sentiria bem fazendo isso. Agora fico me perguntando se ele esperava de mim elogio ou comiseração. Nunca saberei.
Casou mal, com quem queria mais do que ele poderia oferecer. Sempre comparado-o desfavoravelmente ao pai dela, meu avô Arthur Vannucci, que ergueu uma fabriqueta de móveis graças ao seu indiscutível talento, mas também à sorte: clientes que admiravam-lhe o trabalho cotizaram-se para emprestar o capital inicial de seu próprio negócio. 
Reynaldo trabalhava seis dias por semana e ainda fazia bicos para um parente, recolhendo apostas de corridas de cavalo aos sábados e domingos. Estoicamente, e arriscando-se até a ter problemas com a polícia, embora fosse uma contravenção menor. Ainda assim, era amiúde taxado de “acomodado” por minha mãe.
Lá pelos 35 anos, desistiu dos velhos amigos e passou a se dividir apenas entre a casa e o trabalho.
Já não tinha esperança de alçar voos maiores. Percebia que o ramo têxtil nunca mais recuperaria o antigo esplendor. Pouco valeriam os cursos que concluíra brilhantemente, para passar de operário a contra-mestre (depois mestre), face à decadência do segmento.
Ele, que via os apostadores de fim-de-semana como “otários”, também fez as apostas erradas na corrida da vida.
Gostaria que eu, o filho único, chegasse aonde ele não pôde: engenheiro. Mas, a vida me conduziu noutra direção. E, já com 50 anos e a resignação habitual, enfrentava a Dutra com seu fusquinha para me visitar, preso, na PE da Vila Militar, pegando a estrada de volta no mesmo domingo. Inesperada e triste maneira de reencontrar os cenários da infância, pois morara no vizinho bairro de Deodoro.
Já lá se vão 11 anos de sua morte. Os parentes me dizem que estou cada vez mais parecido com ele, exceto por ter conservado os cabelos que Reynaldo perdeu precocemente, devido à poeira da tecelagem.
O seu enterro foi a única ocasião em toda a vida em que eu deveria dizer algo, porém as palavras não me vieram. Nada que eu pudesse dizer lhe faria justiça. Gente é para brilhar; mas, o que fazer quando a oportunidade de ouro nunca chega?!
Era um bom homem, que não concretizou seu potencial nem obteve o pouco com o qual sonhava. Merecia do destino muito mais do que recebeu.
Pensando nele, redobro meus esforços para que a vida não seja mais essa competição inútil e insana, na qual quase todos perdem e só uns poucos se realizam plenamente.
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