SÁBADO, NA BIENAL, UM LANÇAMENTO IMPERDÍVEL: A VIA CRUCIS PESSOAL E FAMILIAR DO ALIADO QUE A VPR SUBMETEU A TRIBUNAL REVOLUCIONÁRIO.

Um episódio dramático e pouco conhecido da resistência à ditadura militar é resgatado no livro Acorda, amor, que Adriana Tanese Nogueira –psicanalista e criadora/coordenadora da ONG Amigos do Parto– estará lançando neste sábado (30), das 12 às 14 horas, no estande F698 da Bienal Internacional do Livro.

Adriana é filha de Antonio Nogueira da Silva Filho, aliado da Vanguarda Popular Revolucionária que foi submetido a um tribunal revolucionário sob acusações vagas. A via crucis pessoal e familiar está exposta, com rigor histórico e narrativa empolgante, no livro que Adriana foi criando, capítulo por capítulo, num site que lançou especialmente para esta empreitada, tendo depois o material sido reunido nos dois volumes de Acorda, amor (Editora Biblioteca 24 horas, 2014, vol. 1 com 338 pag. e vendido por R$ 63,12, vol. 2 com 402 pag. e preço de R$ 72,08). Na ocasião, a autora também estará autografando o livro infantil O flamingo e os pombos, que escreveu junto com sua filha.

Eis seu depoimento sobre como nasceu o projeto: 

Um dia saiu um artigo sobre mim num jornal local [ela mora e trabalha nos EUA]. No final de minha apresentação, após citar as minhas diversas atividades, o jornalista deu algumas referências biográficas. Quando li o artigo meu coração descompassou. Foi citada uma frase que eu mesma escrevi: ‘Filha de mãe italiana imigrante e de pai brasileiro revolucionário’, acrescentada pela informação que meu pai pertencia ao grupo de Carlos Lamarca.

 Gelei. Sim, eu tinha dito isso, mas uma coisa é você comentar uma coisa dessas com alguém, outra é você ler suas palavras numa folha de jornal. Senti-me exposta. Fiquei com medo. Mas dissimulei comigo mesma. Estava acostumada a deixar passar, disfarçar, conviver com a história colocando-a de lado.

Ao longo daquele dia, pensamentos soltos atravessaram minha mente. Aquela era uma referência histórica, algo conhecido que explicitamente revelava a atividade política de meu pai no passado. No passado.

Mas será que era passado? Não na minha alma. O medo, que por tanto tempo dominou nossas vidas e que estava aparentemente esquecido e sonolento num canto, acordou. Apesar de ter tentado ‘não pensar’ o dia todo e ‘racionalizar’, passei a noite assustadíssima. Não consegui dormir e tive um pesadelo.

Eu vou contar essa história porque não quero viver sob o constrangimento da vergonha. Uma história que me provoca pesadelos quarenta anos depois é uma história que precisa ser contada. Quero regurgitar o que vivemos, devolver ao mundo o que ao mundo pertence. Não vou deixar essa experiência trancada dentro do peito, no cárcere da dúvida e do ridículo. Não vou ser cúmplice do sistema que demonizou os que contra ele resistiram, apesar do absurdo desequilíbrio de forças.

Vou contar essa história para levantar uma bandeira contra a avalanche massificadora da crença que sustenta que bom é quem sabe ‘se dar bem’. Bom é o individualista, o puxassaquista, o que encontrou um nicho em meio ao lixo cultural e moral no qual vivemos e venceu a vida por entorpecimento do cérebro e do coração. Não quero e não vou apoiar a crença que bom é o marqueteiro, o espertalhão, o flibusteiro. A isso se reduziu boa parte do ideal social do país. Não o meu. Nem hoje nem amanhã.

O Brasil está ainda tomado pela mentalidade promovida e fortalecida pela ditadura. Nela, os valores estão todos invertidos. Os que assumiram a resistência a um regime opressor são ‘terroristas’, os que massacraram corpos, amputaram braços e torturaram jovens e adultos, mulheres e homens são anistiados. E a impunidade reina soberana.

Vou abrir minha voz e cantar minha verdade. Não quero manter escondida uma parte de mim, minhas raízes, aquele meu começo que produziu tantas consequências importantes. Tantas coisas das quais tenho orgulho. Não vou respirar da núvem tóxica do esquecimento coletivo, tão infantil quanto míope. Não há nada do que se envergonhar, a não ser da crueldade cometida.

Para mim, que trabalho com humanização, não tem como deixar de trazer à luz as origens do meu interesse vital em humanizar o mundo. Não quero mais esconder quem sou, quem somos e por que somos o que somos. Porque é assim que tivemos que viver por todo esse tempo.

Imperdível. Terei prazer em receber os companheiros e amigos ao lado da Adriana, com quem travei conhecimento quando ela recolhia informações sobre a VPR, e a quem aprendi a admirar intensamente.
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3 comentários

  1. “Adriana é filha de Antonio Nogueira da Silva Filho, aliado da Vanguarda Popular Revolucionária que foi submetido a um tribunal revolucionário sob acusações vagas.”.
    Parece ser um padrão… Tem gente demais alegando esse tipo de coisas…

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  2. Companheiro, eu quis apenas dar uma noção do que se trata, sem contar todo o episódio nem revelar o desfecho.

    Pareceu ter havido uma “convergência” entre vagas suspeitas e o temor do que aquele aliado poderia eventualmente revelar, comprometendo um trabalho importante.

    Ou seja, ficávamos todos meio paranoicos em função de que havia mesmo espiões entre nós e, às vezes, nós os procurávamos no lugar errado. Ou temíamos que qualquer um que se distanciasse de nós fosse revelar nossos segredos.

    O Antônio era apenas uma VULNERABILIDADE, alguém que sabia demais.

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  3. Pois é…
    A semente da discórdia estava presente…
    Se entre companheiros (sic) havia esse comportamento, atingido o poder, a tentação de “proteger” um companheiro se torna (até por remorso de atos passados), o comportamento do grupo continua igual… ou não?
    Antes era defesa do grupo como um todo, e agora?

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