UM ESPECTRO RONDA O BRASIL: O ESPECTRO DO MARINISMO.

A rapidez com que a candidatura presidencial de Marina Silva deslanchou, além de deixar aparvalhados petistas e tucanos, impôs aos analistas o desafio de decifrarem a nova esfinge da política brasileira, que está devorando todas as suas certezas de antes do fatídico 13 de agosto.
Despretensiosamente, alinhavei trechos dos últimos artigos de colunistas que, no meu entender, abordaram aspectos interessantes da questão. Os meus comentários vêm em vermelho.
Valem pelo que valem: ajudam-nos a refletir sobre um fenômeno novo. Neste sentido, não dei bola para o fato de que dois deles costumeiramente são satanizados em certas tribunas da esquerda. Como se dizia antigamente, até um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes ao dia…
DESENVOLVIMENTISMO x SUSTENTABILIDADE
A expectativa de segundo turno entre duas mulheres, uma ex-gerentona neopetista e uma evangélica ex-petista, ambas bravas e autoritárias, promete boas emoções. Vai sair faísca.
Duas mulheres, duas histórias diferentes. Dilma Rousseff vem da classe média de Minas e entrou pela porta da frente em bons colégios católicos. Marina Silva emergiu da miséria no Acre e chegou pela porta dos fundos: esfregava chãos e lavava banheiros das freiras para ter direito às aulas.
Dilma vem da resistência armada à ditadura, era do PDT e virou presidente pelo PT. Marina nasceu com a bandeira do meio ambiente, cresceu no PT, fez fama nacional no PV, tentou sem sucesso criar a Rede e acabou candidata a derrotar Dilma pelo PSB. Ou seja: Marina, muito mais petista de raiz do que a neófita Dilma, se tornou a maior ameaça à continuidade do PT no Planalto.
Dilma e Marina conviveram no PT e no ministério do primeiro governo Lula. Foi aí que a encrenca começou. As duas encarnaram uma guerra entre “desenvolvimentismo” e “sustentabilidade” e disputaram não só espaço e poder interno, mas as graças do ídolo Lula. Dilma venceu todas, e Marina deixou o governo, o lulismo e o PT. Ganhou vida própria. E assombra os petistas. (Eliane Cantanhêde, em sua coluna de 29/08 na Folha de S. Paulo – clique aqui para ler a íntegra) 
É algo geralmente omitido pelos detratores de Marina, obcecados em desconstruí-la a qualquer preço e com quaisquer métodos: a acriana tem muito mais cara de PT do que a mineira. E ela leva vantagem também em termos de trajetória política, pois se lançou com bandeiras ecológicas (importantíssimas quando a própria sobrevivência da espécie humana está ameaçada pela ganância capitalista) e se mantém fiel a elas até hoje

Dilma, pelo contrário, lutava pela justiça social no tempo da guerrilha e depois se tornou (argh!) desenvolvimentista. Chegou ao cúmulo de apresentar como seu sonho dourado a transformação do Brasil num país de classe média (argh de novo!). Para quem se mantém essencialmente nos marcos do marxismo e do anarquismo, como eu, sua degringola ideológica é chocante: de Che Guevara para Juscelino Kubitschek!

Enquanto for Dilma a candidata do PT, não tenho dúvida nenhuma em afirmar que quem melhor representa a esquerda no embate é Marina. Se os petistas tomarem a única providência que parece oferecer-lhes possibilidade de salvação, tornando Lula candidato, aí a coisa mudará de figura. 
DOIS PARADIGMAS SERÃO QUEBRADOS?
O dado mais relevante da pesquisa Datafolha realizada nos dias 28 e 29 de agosto é a consolidação, neste momento, de Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PSB) como as primeiras colocadas na disputa presidencial. Elas estão empatadas com 34% de intenções de voto cada uma.
Nunca nas eleições diretas para presidente da República pós-ditadura militar, nesta fase da campanha, os dois protagonistas isolados foram de partidos cujas origens estão na esquerda do espectro político.
A eleição é em 5 de outubro. Restam pouco mais de 30 dias para uma reversão do quadro. Se isso não ocorrer, pela primeira vez o Brasil não terá um legítimo representante do centro ou da direita entre os dois finalistas na disputa presidencial. (Fernando Rodrigues, em sua coluna de 30/08 na Folha de S. Paulo – clique aqui para ler a íntegra) 

Não excluo a possibilidade de que a decisão ainda venha a ser entre esquerda e direita, como previ no dia do acidente com o jatinho de Eduardo Campos. O meu prognóstico se baseou exatamente no fato de que tem sido esta a tônica desde a redemocratização.

Caso o PT insista em perder com Dilma, sua candidatura ainda pode descer ladeira abaixo com velocidade suficiente para Aécio Neves a ultrapassar na reta de chegada.

Mas, a aposta mais sensata, neste momento, é mesmo na quebra deste paradigma, e também de outro: nunca o 2º turno foi disputado por duas mulheres.
GERENTONAS x ESTADISTAS
No Brasil, os eleitores procuram administradores, gerentes, quando se trata de disputas municipais e estaduais. Nas eleições presidenciais, contudo, buscam a personificação de uma utopia possível. FHC e Lula chegaram ao Planalto nas asas de grandes ambições. Hoje, é Marina quem aparece como a representação de uma ruptura profunda.
A utopia associada a FHC pode ser sintetizada pelas ideias de estabilização e modernização. Desde o segundo mandato tucano, porém, o PSDB abandonou a trilha das reformas e, sob o fogo da crítica petista, borrou o horizonte utópico com as cores cinzentas da “capacidade gerencial”… 
A utopia associada a Lula pode ser sintetizada pelas ideias de igualdade e justiça social. Inflado pelos ventos de popa da economia mundial, o potencial utópico do lulopetismo durou um mandato mais que o dos tucanos, mas encerrou-se no quadriênio de Dilma Rousseff. As suas reformas sociais praticamente esgotaram-se nas políticas de crédito e transferência de renda que ajudaram a estimular o boom de consumo popular. 
Hoje, num sentido fundamental, o PT converteu-se na nova Arena: o partido cuja força emana do controle da máquina pública. O mapa das intenções de voto na candidata-presidente evidencia a regressão política do partido que traçou seu caminho para o poder entre os eleitores de alta e média escolaridade dos grandes centros urbanos. 

Marina aparece como representação da terceira utopia, tão nitidamente expressa nas Jornadas de Junho de 2013…  (Demétrio Magnoli, em sua coluna de 30/08 na Folha de S. Paulo – clique aqui para ler a íntegra)

Eu já havia escrito algo bem próximo: que o PT está repetindo a trajetória do PMDB e do PSDB, partidos que começaram à esquerda e foram se descaracterizando cada vez mais, o primeiro se tornando uma agremiação meramente fisiológica e o segundo, o mais conspícuo representante da direita brasileira.

O PT ainda não chegou lá, claro, mas é para onde se encaminha, com o cada vez mais acentuado abandono das bandeiras revolucionárias, trocadas por um reformismo tão tímido que nem Eduard Bernstein aplaudiria. 

E, por já não ter quase nada a oferecer ao eleitorado dos grandes centros urbanos, seu celeiro de votos serão, cada vez mais, os pequenos e médios municípios, e principalmente os das regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Enquanto isto, sua influência tende a continuar diminuindo no Sudeste (responsável por 55,4% do PIB) e Sul (16,2%). Mas, suponho, não a ponto de se tornar um partido dos grotões, como o PDS (sucessor da Arena) nos seus estertores…


Outro ponto em que concordo inteiramente com Magnoli: as jornadas de junho de 2013 foram um divisor de águas, com os manifestantes de rua retomando o protagonismo político depois de uma década de pasmaceira, durante a qual os movimentos sociais  não só superestimaram a importância do poder político (cada vez mais avassalado ao poder econômico), como a própria disposição do PT em tentar concretizar as transformações profundas de que o Brasil desesperadamente carece.

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5 comentários

  1. Caro Celso, tudo bem? Rapaz, não concordo com você quando considera Marina uma representante da esquerda. Em qual momento isso se dá? quando defende câmbio flutuante, BACEN independente, metas de inflação, corte em gasto público? Por que até agora ela não exigiu uma auditoria na dívida interna? e sobre reforma agrária ? ela poderia também explicar a liberação do plantio da soja transgênica durante o período em que ele esteve no MMA.
    Só uma pergunta, por último: por que você não apoia a Luciana Genro, que pertence ao PSOL, partido pelo qual vocÊ concorreu a uma vaga ao cargo de vereador em 2012 ?
    Abraços.

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  2. Companheiro,

    quem está apoiando a Marina é o Rui Martins. Eu apenas manifestei a minha PREFERÊNCIA por ela, dentre os três que têm chance de vencer a eleição.

    Votarei num dos quatro candidatos de forças declaradamente anticapitalistas: a Luciana Genro, o Mauro Iasi, o Rui Pimenta e o Zé Maria. E recomendarei aos companheiros que, no 1º turno, escolham um desses quatro.

    Quanto ao 2º turno, no quadro atual, votarei na candidatura que ainda pode ser útil para as causas da esquerda: a Marina.

    A Dilma já desperdiçou todas as oportunidades que teve: sua política econômica é meramente neoliberal, fugiu da raia sempre que desafiada pelos milicos em questões relacionadas às vítimas da ditadura, etc. Além de ser, como ela mesma admite, uma mísera gerentona, num momento em que precisamos, isto sim, de estadistas.

    Em termos de política econômica, não consigo imaginar a Marina conseguindo ser mais submissa ao grande capital do que a Dilma.

    O Banco Central independente, p. ex., de que nos importa, afinal, como homens de esquerda? Existimos para acabar com o capitalismo e também com os governos, segundo Marx. Nossa meta é uma humanidade livre dessas pragas.

    Então, pouco se nos dá que o Bacen seja subserviente ao governo (um governo que absolutamente nada tem de revolucionário, como o atual) ou ao poder econômico. Estamos contra ambos.

    Não leve a sério essa propagandaiada alarmista e tendenciosa dos blogues petistas. Estão querendo vender gato (reformismo) por lebre (revolucionarismo).

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  3. Celso, obrigado pela atenção. Só espero que Marina, se eleita for, tenha mais coragem de enfrentar o grande capital do que enfrentar o pastar Malafaia.
    Vamos aguardar. Abraços.

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  4. Há 40 anos leio e escuto todos falarem mal do Maluf. Foi processado, condenado e até preso.
    A grande imprensa sempre pega um pra Cristo. Portanto, é demais “deixar pra lá” e achar que é somente coisa de “detratores de Marina, obcecados em desconstruí-la”.
    E o termo “gerentona” é coisa de Jornalistas da grande imprensa: Elio Gaspari, Diogo Mainard.
    E o “religiosismo” que sempre prejudicou o povo, está aí presente em dona Osmarina e para desgraça do povo brasileiro traz junto Malafaia (pilaamordedeus).

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  5. Ei, strunfim.

    Marina não tem absolutamente nada a ver com Malafaia, muito ao contrário. Quanto a certos temas, como aborto, ela tem uma posição até bem corajosa: que sejam decididos em plebiscito, com campanha em rádio e TV por um longo tempo, para que assuntos desse tipo sejam apresentados para além da superfície, com os dois lados falando e ouvindo entre si e para a sociedade inteira.

    Já a candidatura da Dilma recebeu um dia desses 10 milhões de reais das mãos de Edir Macedo. Disso aí, que que cê acha?

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