"O ÚLTIMO TANGO EM PARIS": A MANTEIGA ERA O DE MENOS…

Além de perseguir, intimidar, torturar, estuprar, executar, ocultar restos mortais, etc., a ditadura militar impôs aos brasileiros o mais ridículo e hipócrita moralismo de fachada, censurando destrambelhadamente tanto a pornografia mais vulgar quanto autênticas obras-primas como o filme O último tango em Paris (Ultimo tango a Parigi, 1972), que vocês podem ver na janelinha abaixo, com legendas em espanhol.

Este foi um dos que se tornaram verdadeiras lendas. Quem viajava para nações civilizadas tinha a obrigação de assisti-lo, pois na volta todos os amigos e conhecidos lhe cobravam descrições.
Hoje seria encarado como um drama erótico  soft, daqueles que nem sequer justificam uma proibição para menores de 18 anos.
Afora os nus que já não chocavam quase ninguém na década de 1970, o que impactava mesmo era a sodomização (simulada) de Maria Schneider por Marlon Brando, que recorre à manteiga como lubrificante.
Quanto o  Tango  foi finalmente liberado, em 1979, eu estava entre os primeiros a assisti-lo em São Paulo, numa sessão especial para críticos de cinema. Seu organizador não viu mal nenhum em levar o filho de uns 14 anos. Ao final, concordei com ele: nada havia sido mostrado que um moleque dessa faixa etária ignorasse.
Surpreendente mesmo foi a constatação de que o Tango era muito, muitíssimo maior do que a cena da manteira. Um arraso!
Logo após o suicídio da esposa, viúvo procura lar provisório, pois as lembranças o atormentam. Ao visitar um apartamento disponível, cruza com uma jovem que também o está avaliando. Depois de trocarem umas poucas palavras, fazem amor furiosamente.
Paul (Brando) aluga o apê e Jeanne (Schneider) passa a frequentá-lo para transarem e curtirem suas fantasias. Ele lhe impõe a regra de não revelarem seus nomes nem sua história.
Ela, portanto, não tem consciência do quanto a relação entre ambos está sendo determinada pelas dores e tormentos de Paul, inclusive no episódio da sodomia.
Quando, finalmente, ele sai da fossa e resolve iniciar um relacionamento convencional, quebra-se o encanto e Jeanne o repudia; o desfecho é trágico.
Impossível não nos comovermos com o sofrimento de Paul, um homem em parafuso, dilacerado (a performance de Brando é magnífica!); nem deixarmos de admirar a maestria com que o grande diretor italiano Bernardo Bertolucci retratou, em Jeanne, uma juventude frívola, superficial, disposta aos prazeres e até às humilhações sexuais, mas bloqueada para os sentimentos profundos.
E como a trilha musical jazzística de Gato Barbieri casou bem com o filme! Uma das melhores que eu conheço, tão superlativa quanto as do incrível Ennio Morricone.   
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