DEPOIS DA POEIRA COLORIDA NOS OLHOS DOS ELEITORES VIRÁ O OLHO DO FURACÃO

Josias de Souza, experiente jornalista que tem seu blogue hospedado no UOL, fez uma análise acurada da eleição presidencial (vide íntegra aqui), cujos trechos principais eu reproduzo abaixo:
A 12 dias do encontro com as urnas, o eleitor brasileiro permanece no escuro em relação ao essencial. Admita-se que há duas crises sobre a mesa: a econômica e a ética. Quanto à primeira, os candidatos revelam-se capazes de quase tudo, menos de esmiuçar seus planos. Quanto à segunda, sabe-se que nem o petróleo é mais nosso. Um delator esclareceu que já não existem coisas nossas… 
À medida que o PIB cai e a inflação sobe, os receituários econômicos dos candidatos vão se tornando mais aguados, seus discursos mais evasivos. Todos sabem o que terá de ser feito. Nesta segunda-feira, o ex-presidente do BC Armínio Fraga, guru econômico de Aécio Neves, disse que a economia brasileira foi acometida de infecção generalizada.
“É uma septicemia, não é uma verruga que você precisa tirar. É grave mesmo”, disse Armínio. Com maior ou menor ênfase, a gravidade do quadro é admitida também atrás das cortinas nos comitês de Marina Silva e até no de Dilma Rousseff.
Considerando-se que ninguém combate septicemia com aspirina, vêm aí providências mais duras. Por exemplo: corte pesado de despesas, realinhamento dos preços da luz e da gasolina, reformulação do seguro-desemprego, reforma da Previdência e um imenso etcetera. Os presidenciáveis não falam sério com o eleitor porque a política virou apenas um ramo da publicidade.
A sopa dos pobres na depressão da década de 1930
Mandou bem, mas não disse nada de inusitado. Há meses eu venho alertando que, seja quem for o(a) vitorioso(a), o ano de 2015 será de tratamento de choque na economia, com grande possibilidade de os remédios amargos continuarem sendo ministrados em 2016. 

Mesmo tendo detestado cada minuto que trabalhei em editorias de economia, aprendi o suficiente para saber que, segundo a ortodoxia capitalista, da qual nenhum dos três candidatos com chance de êxito mostra a mínima intenção de discrepar, a recessão é inevitável e a depressão, bem provável. 

Isto já foi admitido inclusive pelo Guido Mantega, o ministro da Fazenda que derreteu após ter sido considerado rançoso pelos empresários. E até o Luís Nassif, apoiador de Dilma, reconhece que “no próximo ano, seja quem for o presidente eleito, haverá uma freada de arrumação na área econômica. A política econômica e suas vertentes monetária e cambial padecem de uma falta de rumo a toda prova… Não dá para continuar assim”. Só discordo do eufemismo, a coisa se prenuncia mais como trombada

Eu gostaria, claro, que Dilma ou Marina (Aécio, nem pensar!) ousassem trilhar outros caminhos. Mas, não existe sequer um nível de organização dos explorados suficiente para dar sustentação a uma ruptura, mesmo que parcial, com o receituário neoliberal. 

É o que dá a esquerda palaciana ver os trabalhadores apenas como os votantes que garantirão sua perpetuação no poder; quando precisa de algo além disto, não encontra, porque deixou de fazer a lição de casa lá atrás. [Mesmo caso do PCB em 1964: confiou que as Forças Armadas (!) defenderiam a Constituição e, na hora do golpe, não contava com um dispositivo militar próprio para encetar a mínima resistência.]


Também tenho batido na tecla de que a “política virou apenas um ramo da publicidade” -principalmente ao responder a comentaristas crédulos e obtusos, que caem na esparrela de quererem discutir a sério programas de governo que não são sérios. Se soubessem a forma como os políticos se referem a tais papeluchos na intimidade! Dou pistas: Mirafiori, Neve, Personal, Primavera, Scott, Sublime…

O de Marina Silva não cumpriu bem a função de apenas fazer afagos ao máximo de fatias do eleitorado, pois deixou brechas para contestações -a maioria, tendenciosas- dos adversários.

Dilma Rousseff não lançou até agora o seu porque ainda não decidiu a quem descontentará: se às centrais sindicais que querem a redução da jornada de trabalho, o fim do fator previdenciário e a regulamentação da terceirização, ou aos grandes capitalistas que não querem nada disso; se aos inconformados com a impunidade dos torturadores, que querem a revisão da Lei da Anistia, ou aos altos oficiais que blefam descaradamente, fingindo terem o apoio das tropas para viradas de mesa.


Aécio Neves, o candidato ideologicamente mais afinado com o grande capital (diferentemente de Dilma, que submete-se ao poder econômico por interesse político e não por convicção), também não pode abrir o jogo, porque se revelar honestamente o tipo de política econômica que vai implementar, sua votação cairá para menos de 10%…

É patético que se faça tanta exegese do nada, atribuindo tamanha importância ao que não tem nenhuma: a peça publicitária imperfeita da Marina e as peças publicitárias que Dilma e Aécio continuam devendo, porque a indefinição lhes convém.

No final de outubro vão acabar os embustes e manipulações, com o vento soprando para longe a poeira colorida que a propaganda política espalhou. Ainda haverá, claro, a trégua natalina, mas em janeiro o povo começará a defrontar-se com a dura realidade. E ai vai ficar sabendo qual o preço a pagar pela escolha que fez.
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4 comentários

  1. Nadja,

    dos três candidatos com chance de vitória, eu considero que o Aécio significa o retrocesso: a Dilma, a continuidade da pasmaceira atual; e a Marina, uma incógnita, mas representando os ares de mudança que são bem-vindos neste instante. No 2º turno, votarei nela.

    No 1º turno, acredito que devamos votar no melhor, independentemente de não ter chance de vitória. Respeito igualmente a Luciana Genro, o Mauro Iasi, O Rui Pimenta e o Zé Maria, mas minhas lutas me aproximaram mais da primeira, que é a minha escolhida.

    Eu nunca obteria votos suficientes para me eleger presidente, governador nem prefeito, ponto final. Mas, quanto à capacidade e amplitude de visão para o desempenho das funções governamentais, os bons dirigentes revolucionários da minha geração nada ficaríamos a dever aos três favoritos, muito pelo contrário.

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  2. Típico terrorismo midiático pré-eleitoral. Dizer para alguém com uma dorzinha que ela precisa de uma injeção de morfina é bem diferente do que dizer que ela precisa de uma aspirina! A crise é estrutural nos países desenvolvidos e não vai arrefecer enquanto eles não abandonarem o receituário neoliberal. A grande diferença é que estes países não têm infraestrutura a fazer. Não poderiam recorrer a guerra para “destruir capital” e relançara a economia pois isto significaria a sua extinção. No Brasil, com tudo por fazer, é um absurdo falar em recessão prolongada. Com Dilma teremos um “2003” muito suavizado pois hoje não há o estoque de desempregados que FHC deixou para o PT. Com Aécio ou Marina, uma “terapia de choque” neoliberal (relembrando Naomi Klein…)para que as pessoas, mais preocupadas em conseguir a próxima refeição como pedintes, camelôs ou mesmo roubando, não tenham tempo de lutar contra o total desmonte da CLT e de todas as políticas sociais e inclusivas da era petistas como o sistema ENEM/SISU/PROUNI para os jovens e o Bolsa-Família.

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  3. A CLT nunca esteve ameaçada de piorar, até porque isto seria impossível. A leitura que os petistas fizeram das intenções da Marina é tão falsa quanto uma nota de 3 reais. Leia os artigos de quem conhece o assunto, ao invés da propaganda enganosa eleitoreira.

    Quanto à recessão em que já estamos e tende a piorar muito, ela servirá para restabelecer a competitividade dos produtos e serviços brasileiros. Como eu disse, segundo o receituário neoliberal, que o PT tem seguido caninamente na economia, a farra acabou e chegou o tempo das vacas magras.

    Dá para pensarmos numa alternativa à ortodoxia capitalista. Dá. Mas, seriam necessárias duas coisas que o PT não tem: vontade política de confrontar o grande capital e povo organizado para bancar o desafio.

    Então, não me venha com essas besteirinhas que a propaganda do partido impinge. A situação é grave mesmo e a barra vai pesar mesmo.

    Daí meu receio de que entrarmos nesse período difícil com uma presidenta tão desgastada e medíocre como a Dilma poderá produzir abalos institucionais.

    Talvez até a Marina venha a ser igualmente medíocre, mas seria uma cara nova propondo coisas novas. O povo precisa de esperanças, caso contrário poderá se desesperar na hora errada.

    A verdade nua e crua é que, se travarmos um confronto com a direita nas condições atuais, perderemos e o Brasil mergulhará em nova ditadura.

    Então, precisamos de tempo para formar uma nova vanguarda revolucionária, pois a anterior está praticamente esfarelada.

    E é esse tempo que poderá nos faltar, se a campanha do ódio e do medo do PT conseguir evitar de novo a alternância de poder, dando aos aventureiros de direita um forte argumento para suas pregações golpistas.

    Isto é discutir política de verdade, não essa sopa de slogans demagógicas que muitos trazem para cá.

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