MEMORIAL DA RESISTÊNCIA PROMOVE FEIRA DE LIVROS SOBRE OS ANOS DE CHUMBO; ESTAREI LÁ.

Neste sábado (04/10), vou autografar meu Náufrago da Utopia na III Feira de Livros do Memorial da Resistência de São Paulo (Largo General Osório, 66 – bairro da Luz). Estarei aguardando os companheiros no estande da Geração Editorial, das 13 às 18 horas.


Como tenho notado que muitos leitores começaram a acompanhar meu trabalho nos últimos anos, sem terem a mínima noção de quem eu seja, vou me permitir retirar do baú aqui uma longa entrevista que concedi ao jornalista Ciro Campelo em 2006. 

Servirá para apresentar-me às novas gerações e reavivar a memória das velhas. 

E dá uma boa ideia da trajetória reconstituída no meu livro, que se trata, basicamente, de uma autobiografia narrada em estilo de ficção, pois quis torná-la mais dinâmica e atrativa para os leitores não focados especialmente na política.
A VERDADEIRA HISTÓRIA 
DE CELSO LUNGARETTI

Por Ciro Campelo

Injustiçado por mais de 34 anos o ex-guerrilheiro Celso Lungaretti, conseguiu provar a sua inocência no final de 2005, com o lançamento do livro Náufrago da Utopia.
A história de Celso se confunde com a história de muitos guerrilheiros injustiçados pela esquerda armada dos anos 60/70. Podemos citar entre eles Paulo de Tarso Venceslau, Wellington Moreira Diniz e Cláudio Torres. O certo é que poucos militantes foram tão injustiçados como ele, que hoje nos concede essa entrevista a fim de esclarecer alguns fatos ainda obscuros por tantos anos e que vieram a tona com o lançamento desse livro.
Celso Lungaretti é paulistano, nascido em 06/10/1950, filho único de Reynaldo Lungaretti (contra-mestre de fiação e tecelagem) e Mafalda Vannucci Lungaretti (dona-de-casa). O seu livro foi lançado pela Geração Editorial, do Luiz Fernando Emediato, em 10/11/2005.
Em mais de 14 páginas de entrevista concedida a mim, ele fala sobre a sua militância no movimento estudantil no ano de 1968, como começou a se interessar pela guerrilha, como foi seu recrutamento na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), fala sobre as falsas acusações feitas por ex-companheiros de militância, e fala sobre sua reabilitação. A entrevista é longa, porém, extremamente esclarecedora. 
Ciro Campelo – Celso, você era bem novo quando começou a militar no movimento estudantil. Com que idade você começou a militar, e o que te levou a ter essa consciência de militar no ME?

Celso Lungaretti: Eu tinha 16 anos e cursava o 2º ano do Científico de Engenharia numa escola da Mooca. Eu era tímido, e não ficava muito à vontade com as garotas do bairro, quase todas fãs da Jovem Guarda e dos Beatles, que eu detestava. O lugar dos meninos conhecerem as meninas eram os bailinhos, e eu era meio travado para dançar. Então, como qualquer adolescente, tinha muita vontade de chegar nas garotas, mas a falta de jeito me tolhia.

Ao mesmo tempo, lia livros de autores sérios como Dostoievski, Kafka, Camus, Sartre e Carlos Heitor Cony. Já começava a ver filmes de arte, como os do Godard e do Glauber Rocha. O Eremias Delizoicov, colega de escola desde criança, apresentou-me um dia à Maria das Graças, que estava na classe dele (começamos juntos, mas ele repetiu dois anos e foi ficando para trás, então estava na 4ª série ginasial). Ela era filha de um militante do PCB que teve de fugir da Bahia para São Paulo; estava querendo formar uma base no nosso colégio, o MMDC.
A partir dessa amizade, minha vida foi mudando. Nas férias do meio de ano, troquei o Científico pelo Clássico. Caí na classe em que era feito o jornal do colégio e, por desinteresse dos responsáveis, acabei logo o assumindo e virando o faz-tudo. Usei o jornal para começar um trabalho político entre os colegas. Aí, nas férias de fim de ano, a Maria propôs formalmente a criação de uma base comigo, o Eremias e dois irmãos do bairro do Belém. Fizemos um curso básico de marxismo e, no começo do ano letivo de 1968, já estávamos organizando o movimento secundarista em toda a zona Leste de São Paulo. 
CC – O ano de 1968 foi decisivo para todos os que entraram na luta, principalmente em dezembro, com a decretação do AI-5. Esse ano mudou a vida de muita gente. Eu sei que você ainda era novo. Mais como você viu o ano de 1968?

CL: Foi um ano que valeu por dez na vida das pessoas que mergulharam fundo nos acontecimentos. Tudo se passava com tal velocidade que não conseguíamos nem captar direito as consequências de cada uma de nossas atitudes. Só quando parei para refletir, na prisão, é que consegui avaliar bem as coisas. Mas, a sensação que ficou é de que éramos empurrados pela História, muito mais reagindo do que agindo.

A Frente Estudantil Secundarista, criada por nós, rachou. A Maria das Graças ficou com o pessoal da Zona Centro, e eu herdei todo o resto do pessoal e da estrutura da Zona Leste, tornando-me o líder do nosso grupo, que permaneceu independente.
Passamos o ano entre passeatas, assembleias, levando corridas dos policiais, agitando. Paramos o MMDC numa noite de sexta-feira, no final de junho, com o Deops chegando a invadir a escola; o saldo foi a transferência compulsória dos quatro líderes, a Maria das Graças, o Eremias, o Diego e eu.
A repressão ficou cada vez mais intensa ao longo do ano, assim como a violência dos grupos paramilitares que agiam impunemente.

O CCC matou um secundarista durante conflitos entre os estudantes direitistas do Mackenzie e os esquerdistas reunidos na Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia.

O Congresso da UNE em Ibiúna foi estourado pela repressão, com os participantes sendo todos presos.

A chamada ‘batalha da rua Maria Antônia”, em 1968.

No final do ano, percebíamos que o tempo do movimento de massas estava chegando ao fim. Antes mesmo do AI-5 ser promulgado, em dezembro, já chegáramos à conclusão de que a única forma de continuarmos lutando era engajando-nos a uma organização armada. O Marcos Vinícius nos colocou em contato com a ALN, o POC, o PCBR e a VPR. Fizemos reuniões separadas com os recrutadores de cada uma delas.

Comecei 1968 como um menino que nunca havia feito nada de realmente importante. Acabei o ano como adulto, responsável pelo destino de meus sete melhores amigos e companheiros, pronto para passar a um estágio superior da luta: o vencer ou morrer dos guerrilheiros. 
CC – Porque vocês escolheram a VPR?
CL: Éramos oito jovens dispostos a ingressar como militantes plenos numa organização armada, além de contarmos com alguns aliados e simpatizantes que, a critério dessa organização, poderiam ou não ser aproveitados.
Das aproximadamente cem pessoas que organizamos em nossos grupos de discussão e atuação no movimento secundarista, menos de 10 tinham esse perfil de aliados e simpatizantes. E só nós oito estávamos dispostos a dedicarmo-nos integralmente à revolução: assumir os riscos da militância e, se necessário, abandonar a vida legal.

Os restantes deixamos organizados sob a liderança dos nossos pupilos mais promissores. Distanciamo-nos deles todos, pois representavam um grave risco de segurança para nós.

Nós oito fizemos reuniões com militantes de quatro organizações.
O POC (Partido Operário Comunista) nos pareceu apenas uma organização de universitários, sem potencial para cumprir as tarefas armadas da revolução.
Avaliamos o PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) e a ALN (Ação Libertadora Nacional), porém optamos pela VPR.
A VPR oferecia tudo que procurávamos. Era o resultado da junção de duas forças. Ex-militares brizolistas que, com certeza, saberiam nos instruir e comandar. E antigos quadros da Polop (Política Operária), responsáveis por um programa que, no papel, soava muito bem. O Antonio Roberto Espinoza e o José Ibrahim, ao manterem contato conosco, esqueceram de dizer que esses dois componentes viviam em brigas constantes: “militaristas” e “massistas” disputavam a supremacia dentro da VPR.
De quebra, a VPR contava com os líderes da greve de Osasco, o que também era motivo de admiração para nós. Decidimos entrar. Mas, o pessoal do movimento secundarista da Zona Sul, sem que soubéssemos, já nos antecedera. Em fevereiro de 1969, alguns deles participaram de um assalto a banco ou casa de armas. Nas quedas da VPR, o Marcos Vinícios foi arrastado. E, como ele conhecia a identidade real do Eremias, Diego, Edmauro e a minha, tivemos de cair os quatro, precipitadamente, na clandestinidade.
Passamos duas semanas de grandes privações, até a chegada do ponto seguinte com o Espinoza, que nos socorreu.

“…quando a VPR aceitou receber-nos como 
militantes plenos, bateu aquela euforia de time do Amapá 
que finalmente consegue jogar no Maracanã…”
Passeata no centro de São Paulo

CC – E como foi para você cair tão novo na clandestinidade?

CL: Os sentimentos eram mais ou menos os mesmos para todos nós. Havíamos passado um ano sendo tratados como inferiores pelos universitários, que evitavam nos esnobar ostensivamente, mas não conseguiam esconder de todo sua presunção.
Então, quando a VPR aceitou receber-nos como militantes plenos, bateu aquela euforia de time do Amapá que finalmente consegue jogar no Maracanã. Um deslumbramento. Seis meses antes, distribuindo panfletos em escola. Agora, travando conhecimento com alguns dos principais revolucionários brasileiros. Que jovem não subiria às nuvens?
Misturado à euforia, o temor de não estarmos à altura das experiências que iríamos viver. Se um de nós falhasse numa passeata, podia fazer com que o companheiro caísse e levasse alguns cascudos da repressão. Agora, entretanto, se um de nós falhasse numa ação armada, o companheiro morreria ou sofreria torturas terríveis. Tínhamos essa noção de que, de repente, a responsabilidade nas nossas costas se tornara imensa.
E, por mais que tivéssemos aquela postura adolescente de achar que as coisas ruins não aconteceriam conosco, no fundo, no fundo, sabíamos que cada dia poderia ser o último. Talvez nem tanto num primeiro momento. Mas, a partir das quedas e mortes de companheiros que conhecíamos, era inevitável o pensamento: até quando durarei?

Ao longo de 1969, a luta foi se tornando tão desfavorável para os revolucionários que os militantes dificilmente ultrapassavam uns seis meses de clandestinidade. Então, eu me lembro de ter fixado a meta de sobreviver pelo menos um ano, o que naquelas condições, já equivalia a ser um veterano.

Cuidado com o que você deseja, pode se tornar realidade. Foi exatamente depois de militar um ano na VPR que o DOI-Codi me prendeu. Quando eu já me via como um veterano.
CC – Você ficou “queimado” muito rápido. Com muito pouco tempo de militância você já estava com o rosto estampado em cartazes de terroristas procurados. Como você ficou queimado tão rápido, e como foi pra você ser um procurado da justiça?
CL: Foi, evidentemente, um companheiro que me conhecia, caiu e abriu minha identidade. Mas, deixa pra lá.
Só fiquei sabendo que a repressão já me conhecia quando foram lançados os cartazes de procurados. Num deles eu aparecia.
Eu e o Moisés estávamos morando num apartamento da Barra Funda. Fomos os primeiros a locá-lo, cheirava a tinta. Nosso acerto com o locador era verbal, não havia nem contrato em nosso nome. A situação ideal para qualquer clandestino. Lamentamos muito perder um local tão bom.

Logo cedinho, vimos nos jornais do dia a imensa matéria sobre os cartazes. Corremos a fazer as malas, deixando um monte de utensílios e livros para trás. Depois o Moisés mandou uma carta para o português, com algum dinheiro e autorizando-o a vender nossos pertences. Explicou que éramos revolucionários perseguidos pela ditadura.

Mais tarde fiquei sabendo que a repressão esteve na casa dos meus pais, de madrugada. Depois de virarem tudo de cabeça pra baixo sem encontrar pista nenhuma, disseram pro meu pai recomendar-me que me entregasse, caso contrário acabaria morrendo. Com eles, eu estaria seguro. Meu pai respondeu, na lata: “E foi pra garantir a segurança dele que vocês vieram aqui com toda essa artilharia?”. Ameaçaram levar o velho preso, mas acabaram deixando barato.
Estar sendo procurado me criou muitos problemas. Desde mudar a aparência, para ficar bem diferente da foto que eles haviam apanhado no Colégio MMDC, até ter eventualmente de ficar abrigado com outros companheiros, o que implicava ser transportado de cabeça baixa para entrar e sair do aparelho sem reconhecer o local, dependendo sempre dos horários de quem me abrigava, etc…
Cheguei a jantar num restaurante bem ao lado do cartaz com a minha foto. Ninguém deu a mínima. O cidadão comum nunca imagina que uma pessoa respeitável possa estar sendo procurada pela polícia.
Então, nós, os chamados imortais da Oban, caprichávamos em manter a aparência mais inofensiva possível. Verdadeiros anjos, com um 38 na pasta capanga.
Lamarca, ainda no Exército: aulas de tiro para bancárias. 

CC – Faça um breve histórico de sua militância na VPR.

CL: Nosso grupo de oito revolucionários, já havia se decidido pelo ingresso na VPR, porém essa escolha foi feita às vésperas do congresso da Organização.
Então, a VPR considerou que não poderia receber-nos nessa fase intermediária e propôs que indicássemos um representante para participar desse congresso, que foi realizado em abril de 1969 numa casa de praia de Mongaguá, litoral sul paulista. Fui o escolhido pelo grupo.
Curiosamente, faria mais sentido eu ir como observador, mas a VPR não pensou nisso. Participei como delegado, tendo tanto direito de voto quanto os outros (se bem me lembro, uns 10 ou 12).

Saímos de lá com a linha política definida (aliás, as propostas que meu grupo formulou para a discussão acabaram prevalecendo no capítulo de cenário internacional, cuja redação final foi minha) e um novo comando nacional eleito. No final dos trabalhos, meu grupo foi formalmente aceito na organização.

“…todos nós estávamos escalados para participar
de um duplo assalto de bancos na rua Piratininga, pois a O.
precisava urgentemente de fundos…”
De volta, todos nós estávamos escalados para participar de um duplo assalto de bancos na rua Piratininga (entre o Brás e a Mooca), pois a O. precisava urgentemente de fundos.
Na véspera, quando deveria me integrar ao grupo de ação e discutir detalhes, o Antonio Roberto Espinoza me deu uma contra-ordem: eu havia sido designado para integrar o Comando Estadual da VPR em São Paulo, como responsável pelo setor de Inteligência, que me caberia criar. E, portanto, não deveria participar do assalto.
João Domingues: morto na tortura.

Os acasos da vida: durante essa ação, o Lamarca foi obrigado a matar um guarda de trânsito que irrefletidamente se colocou na porta de um dos bancos, com a arma engatilhada, esperando algum companheiro sair. Se eu estivesse lá, pegaria depois pena de prisão muito maior. Mas, naquele momento, ninguém pensava nisso. Acreditávamos que venceríamos. Quem julgaria o inimigo derrotado seríamos nós…

Fui erguendo um setor de Inteligência com aliados e informantes. Fazia, principalmente, análises sobre os bastidores do poder, a luta interna entre a linha dura militar e os partidários de uma gradual redemocratização. Era importante para nós sabermos para que lado iria o regime e qual a posição que prevaleceria em cada momento.
Vez por outra, tínhamos que lidar com alguma informação de interesse operacional mais direto. E começamos também a providenciar documentos falsos.
Mas, travava-se de uma Inteligência bem embrionária. Minha contribuição maior era como integrante do comando estadual, ao lado do Samuel Iavelberg (movimento de massas), João Domingues da Silva (grupos armados) e José Raimundo da Costa, o Moisés (contato com outras organizações e com grupos revolucionários do interior paulista).
Em meados de 1969, os comandos da VPR e do Colina decidiram fundir as organizações, formando a VAR-Palmares. Esta decisão, no entanto, deveria ser homologada pela militância, num congresso futuro.
De imediato, a nova Organização foi resolver o problema sempre premente: finanças. Com grande proporção de militantes clandestinos, que não podiam obter por si próprios recursos para seu sustento, precisava de muito dinheiro.
O roubo do cofre do Adhemar, executado com excelente planejamento e extrema perícia, nos livrou de preocupações por um bom tempo. Livres do sufoco, poderíamos nos dedicar aos verdadeiros objetivos.
“Moisés”: preso e depois executado.

O João Domingues foi ferido, preso e morto pela repressão, que o torturou antes de estar restabelecido dos ferimentos e provocou uma hemorragia. Com isto, a VPR de SP virou um pandemônio, pois ele centralizava muitas informações. Aparelhos e depósitos de armas cuja localização só ele conhecia, evaporaram. Outros aparelhos se tornaram perigosos e tiveram de ser abandonados. Militantes se amontoavam nos restantes.

Em meio a esse caos, eu, o Moisés e o Samuel decidimos que não havia como organizar uma conferência em SP para indicar os representantes ao congresso nacional da VAR.
A luta entre “militaristas” e “massistas” recrudescera. A fusão com o Colina deu novo alento aos massistas da VPR, que haviam ficado em minoria. Recebendo reforços, voltaram a ter influência marcante na tomada de decisões, principalmente porque detinham uma posição chave.
Quatro comandantes nacionais cuidavam da luta principal, tratando de organizar a guerrilha no campo. E dois faziam a ligação com as cidades. Ora, esses dois (o Antonio Roberto Espinoza e o Carlos Franklin da Paixão Araújo) estavam mais próximos da posição massista, emperrando os encaminhamentos no campo e favorecendo o crescimento da organização nas cidades.
O Moisés e eu decidimos lutar para que a fusão fosse desfeita e a VPR voltasse à sua identidade original. Quando um militante sem muito prestígio na Organização, que acabava de voltar do exterior, lançou teses inovadoras sobre a luta armada, vimos que se tratava do complemento ideal para nossa proposta de recriação da VPR.
Com o pacote teórico do Jamil (Ladislau Dowbor) e a proposta de desfazer a fusão, fomos à luta. Indicamo-nos representantes de SP ao congresso porque avaliamos ser impossível realizar conferência estadual quando nossa segurança estava tão precária. No entanto, o Samuel reagiu. Ele concordou que cabia ao comando paulista avocar essa decisão, escolhendo os dois delegados. Mas queria que fosse um de cada posição: eu, ou o Moisés, do lado militarista; e ele, como massista.
“Jamil” hoje é professor de economia na PUC/SP.

Ao ser preterido, queixou-se ao Espinoza e ao Paixão Araújo, que denunciaram aos quatro outros comandantes o que disseram ser um golpe. Resultado: nossa delegação foi cassada e nossos inimigos organizaram às pressas uma precária conferência paulista, em que eu e o Moisés saímos vencidos. O Samuel, que havia vacilado entre um lado e outro, também acabou na berlinda, muito criticado.

No entanto, por conhecermos o local do congresso nacional (Teresópolis, RJ), eu e o Moisés fomos obrigados a voltar e servir de seguranças até o final dos trabalhos. Sem que eu soubesse (ele era cheio de segredos), o Moisés acertou com o Bacuri que, caso nossa permanência na VPR se tornasse insustentável, nós dois iríamos para a Rede (Resistência Democrática)…
As posições militaristas foram derrotadas em toda a linha, sem que o Lamarca se preocupasse muito em defendê-las. Acreditava que, detendo as rédeas do comando, ele encaminharia a organização na direção certa, pouco importando as definições que estivessem no papel.
O último item foi a definição do novo comando. Quando o Lamarca percebeu que não teria o poder real, ficando como uma espécie de figura de proa, decidiu virar a mesa. Comandou um racha que seguiu, exatamente, a linha que o Moisés e eu propúnhamos: voltarmos a ser VPR, assumindo as posições teóricas do Jamil.
Fomos sete os que rachamos em Teresópolis, em outubro/1969: Lamarca, Darcy Rodrigues, o marinheiro Cláudio de Souza Ribeiro (“Matos”), o Nóbrega, o Mário Japa, o Moisés e eu. O casal Juarez e Maria do Carmo Brito ficou de pensar melhor e decidir depois. A VAR manteve dois terços dos quadros da Organização.

“não suportando estar no isolamento do campo 
enquanto meus companheiros morriam na cidade, pedi 
uma designação urbana…”
Massafumi: estigmatizado, ensandecido, cometeu suicídio.

Aí, estressado pela luta política e cansado de tantas discussões e tão pouca ação, decidi não comparecer ao pequeno congresso em que se definiram as bases da VPR rediviva. Logo estava no campo, integrando a equipe precursora para a montagem de uma escola de guerrilha na região de Registro, ao lado de Lamarca, Fujimori, Massafumi e o velho Lavecchia.

Passei quase dois meses lá. A área tinha vários inconvenientes e foi abandonada. O Massafumi aproveitou para pedir o desligamento da VPR. E eu, não suportando estar no isolamento do campo enquanto meus companheiros morriam na cidade (o Eremias Delizoicov, amigo meu desde a infância e por quem me sentia responsável, acabava de ser assassinado com 35 tiros), pedi uma designação urbana.
Assim, eu e o Massafumi voltamos para SP, enquanto os outros três seguiram para a nova área de treinamento guerrilheiro. Pelos papos, dava a impressão de que se localizaria a grande distância, provavelmente no Paraná.
Incumbido de criar um setor de Inteligência no RJ, lá atuei de janeiro a abril de 1970, quando fui preso pelo DOI-Codi.
CC – Celso, como a área de registro que você conhecia foi desativada, como o Lamarca acusou você de ter delatado a área de nº 2?
Até napalm foi utilizado no cerco do Vale do Ribeira

CL: Ciro, vou relatar os fatos a partir de uma visão retrospectiva, incorporando aquilo de que só tomei conhecimento depois.

Quando eu e o Massafumi nos despedimos do Lamarca, na área de treinamento guerrilheiro que fora vetada por inadequação aos nossos propósitos, ele nos disse que, embora aquele sítio não tivesse mais utilidade para a VPR, não deveria ser aberto para a repressão.
E fui preso pelo DOI-Codi no dia 16 de abril de 1970, uma 5ª feira, às 6h45.
Sabendo que os aparelhos que o militante preso conhecia estavam sendo abandonados pelos companheiros, os pontos desmarcados, etc., a repressão desenvolveu um método de torturas violentíssimas nas primeiras horas. Para os dois lados, era uma corrida contra o tempo. No final da tarde, muito abalado pelas torturas e mobilizando minhas últimas forças para não dar à repressão o fio da meada (companheiros que, presos, poderiam delatar outros companheiros, levando às quedas em cascata que tanto temíamos), abri a área abandonada.
Entregar o que não tinha mais utilidade ou o que a repressão já sabia era a forma de fingirmos estar colaborando, enquanto preservávamos o que realmente importava. Mas, claro, esse era sempre um jogo arriscado.
A repressão do RJ não deu muita importância a essa informação, tanto que a repassou à Oban de SP só no dia seguinte. Então, na 6ª feira a Oban enviou duas patrulhas a Registro, para fazerem averiguações no local. Ambas voltaram no sábado (18) com a informação de que a área estava mesmo desativada.

Até então, o Lamarca não ordenara a evacuação da área ativa, que, na verdade, distava apenas 16 quilômetros da área abandonada. Mas o fez a partir do momento em que tomou conhecimento das novas prisões efetuadas pela repressão naquele sábado (ele tinha um ou mais espiões no próprio aparelho repressivo, provavelmente ex-colegas de farda, informando-o de tudo que acontecia).

Lungaretti, após 2 meses preso…

Naquele sábado, segundo consta de um relatório de operações secreto do II Exército, a repressão tomou conhecimento da localização da área ativa, a partir de “outras informações” decorrentes das novas prisões.

O cerco da área 2 começou a ser montado. Aliados da VPR que moravam na região foram presos na semana seguinte.

No início de junho de 1970, o Lamarca me atribuía a culpa pela queda da área de treinamento (sem nunca fazer referência à existência das duas áreas, uma ativa e a outra abandonada) e a VPR me deixava de fora da lista de presos trocados pelo embaixador alemão.

CC – Então você foi usado como um simples bode expiatório, talvez para não revelar que um companheiro mais importante tenha revelado a área, é isso mesmo?
CL: Quem reconstituir a seqüência de quedas da VPR em abril, quando a Organização foi quase aniquilada tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, verificará que nada de significativo pode me ser atribuído (tanto que a VPR nunca me acusou disso).
O Lamarca não havia considerado que minha prisão colocava a área ativa em risco, mas a abandonou quando outros militantes caíram, o que comprova que ele sabia muito bem onde morava o perigo. Então, a decisão de me erigir em bode expiatório pela queda da área ativa, inclusive me deixando em poder da repressão quando deveria ser incluído na lista de troca se obedecidos os critérios vigentes na VPR, não tem uma explicação fácil.
O Ivan Seixas lembrou o ambiente de grande tensão em que eram tomadas as decisões, em meio a quedas, mortes e informações desencontradas. Mas, só o Lamarca poderia dar a última palavra num assunto tão importante, contrariando um compromisso que a VPR assumira comigo (enquanto eu sofria o diabo para cumprir da melhor maneira possível os compromissos que assumira com a VPR); e ele (Lamarca), mais do que ninguém, sabia a verdade.
…e após 8, ao depor na Auditoria da Marinha…

Haveria vários inconvenientes para a imagem da VPR e da guerrilha se fosse amplamente conhecido o nome da pessoa que realmente abriu a área ativa, e eu, jovem secundarista de uma família sem passado revolucionário nem prestígio social, era sacrificável; foi o que aconteceu.

Homem que nunca deixou de ter mentalidade militar, talvez o Lamarca tenha decidido me punir por haver desrespeitado sua voz de comando. Ao me alertar de que não deveria abrir a área 1, ele levou em conta que a área 2 fora conseguida com os préstimos da mesma pessoa, um ex-prefeito de Jacupiranga. Realmente, ao abrir a área 1 eu coloquei, sem saber, a área 2 em risco. Mas, para minha sorte, os militares não chegaram a ela por esse caminho.

“…houve uma espécie de pacto para que sempre fosse 
apresentada a versão ‘conveniente’ a historiadores e jornalistas. 
Até que a verdade acabou falando mais alto…”

O Lamarca, ao implantar dessa forma a área 2, umbilicalmente ligada à área abandonada pela figura do ex-prefeito Manelão, passara por cima das mais sagradas regras de segurança da VPR. Em liberdade na Argélia, eu poderia apontar à VPR os erros cometidos pelo Lamarca. Talvez ele tenha decidido que era mais conveniente me deixar onde eu não pudesse apresentar minha versão dos acontecimentos.

A VPR ainda cometeu duas outras terríveis injustiças, ao acusar também o Massafumi de responsabilidade na queda da área, quando ele nada teve a ver com essa história e ao não incluir na lista de troca do embaixador alemão o heroico Wellington Moreira Diniz, que havia resistido aos torturadores não as 24 horas que a Organização exigia, mas pelo menos 72 horas, antes de entregar um insignificante aliado (ligado, entretanto, ao principal fornecedor de simpatizantes para preencher nossas necessidades infra-estruturais).

…no mesmo dia e processo da foto célebre da Dilma.

A minha impressão é que a decisão de me tornar bode expiatório foi tomada pelo Lamarca. Depois, quanto mais o tempo passava, mais os envolvidos com as quedas em cascata de abril de 1970 foram percebendo a conveniência de que eu passasse à História como o grande vilão daquele período, de forma que não ocorresse a ninguém perguntar como, afinal, foram presos e mortos tantos quadros importantes em tão pouco tempo. 

Com a minha reabilitação, muitas outras biografias poderiam sair manchadas. Então, houve uma espécie de pacto para que sempre fosse apresentada a versão conveniente a historiadores e jornalistas. Até que a verdade acabou falando mais alto.
CC – Celso, e como você conseguiu que a “verdade falasse mais alto”, e você pôde provar realmente a sua inocência?
CL: Em seu livro Combate nas Trevas, lançado em 1979, o Jacob Gorender estranhou que a VPR tivesse me mantido no trabalho de inteligência no Rio de Janeiro, embora “soubesse” a localização da área de treinamento, quando o certo teria sido me mandar para o exterior. Realmente, as regras de segurança rezavam que o local da área não podia ser conhecido por nenhum militante urbano, mas apenas pelos que estivessem associados à sua implantação, como o Mário Japa (preso por uma infelicidade, ao vir cumprir qualquer tarefa em SP).

Com sua experiência de ex-combatente, o Gorender já em 1979 chegou perto da verdade.

Eu e o Massafumi, teoricamente, não representávamos perigo para a área 2, já que tínhamos estado somente na área 1. Mas o Lamarca, claro, sabia que as coisas não eram tão simples assim. Em vez de encontrar uma verdadeira solução para o problema, preferiu o caminho fácil de ordenar a mim e ao Massafumi que não abríssemos a área 1 e deixou de informar à Organização que sabíamos o suficiente para constituirmos uma ameaça à área 2. Ou seja, ele considerava que sua autoridade de comandante lhe permitia desconsiderar as regras de segurança, e, pior ainda, não comunicar aos demais companheiros que o fizera.
Em 1994, o Marcelo Paiva me acusou, nas páginas da Folha de S. Paulo, de delator da área de treinamento do Lamarca. Exigi espaço para resposta e, pela primeira vez, pude apresentar o meu lado da história. Foi a primeira referência à existência das duas áreas, até então ignorada pelo público, pela imprensa e pelo resto da esquerda.

O Marcelo recuou da acusação de que eu entregara a área ativa e contra-atacou com uma versão alternativa: a de que, abrindo a área 1, eu provocara a prisão de aliados que conheciam a localização da área 2. Com isto, eu passaria de delator pleno a delator involuntário. Mas, a cronologia dos acontecimentos, conforme eu descobri e provei em novembro de 2004, foi bem diferente.

Marcelo Paiva e Lungaretti travaram longa polêmica em 1994

Colocando meu nome num site de busca para acompanhar a repercussão da minha luta por anistia, encontrei, em outubro de 2004, o relatório de operações do II Exército que comprovava minha inocência em relação às acusações que me faziam e a veracidade de tudo que eu dissera a esse respeito na minha polêmica com o Marcelo Paiva.

Contatei vários jornalistas e historiadores que tinham afinidade com o tema, mas só o Jacob Gorender se dispôs a examinar minhas provas, confrontando-as com outros documentos secretos da repressão que ele disse possuir. Duas semanas depois, ele me telefonou para informar sua conclusão: eu estava certo, não tinha mesmo responsabilidade nenhuma pela queda da área 2, mas, apenas, pela descoberta da área 1, que, objetivamente, não teve maiores conseqüências.
A publicação da carta do Gorender na Folha de S. Paulo foi decisiva para que eu passasse a ser visto de outra maneira pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e para eu receber cada vez mais apoio de ONGs, parlamentares, estudantes e pessoas não-dogmáticas de esquerda.
Quem conhece meus textos e pronunciamentos a esse respeito, sabe que jamais revelei publicamente o nome da pessoa que entregou a área e dos companheiros que foram coniventes com essa mentira. Questão de princípios.
Mas, como revolucionários, eles é que deveriam ter tomado a iniciativa de fazer autocríticas, inclusive das entrevistas tendenciosas que deram e de algum livro mentiroso que algum deles haja escrito. Mesmo porque os historiadores chegarão à verdade, da mesma forma como eu cheguei.
Presos políticos trocados pelo embaixador alemão

Na verdade, seu comportamento diante dos torturadores foi compreensível e justificável. O ser humano jamais deveria ser levado ao sofrimento extremo e é terrivelmente injusto recriminar alguém por não haver conseguido portar-se como super-homem.

Pior, muito pior, foi o que fizeram depois: livres, calmamente decidiram deixar que outro militante carregasse suas culpas por 34 anos. Isto sim foi uma falha de caráter inadmissível em revolucionários.
“…uma organização não é 
desbaratada daquela forma se vários 
militantes não fraquejarem…”


CC – Celso, então você sabe realmente quem foi que entregou a área dois?

CL: É claro que sei! Desde 1970 eu considerava possível que tal pessoa fosse responsável. No entanto, quando eu tomei conhecimento daquele relatório secreto militar, todas as peças do quebra-cabeça se juntaram na minha mente. E, afora ser uma questão de princípios não acusar alguém para inocentar-me, avaliei que a melhor resposta a dar àquela pessoa que me deixou sofrer injustamente por 34 anos era mesmo não denunciá-la publicamente.
Se ela tivesse dignidade, procuraria a imprensa para admitir sua culpa. Não o fazendo, acrescentou mais uma mancha em sua biografia. Jamais serei eu a dizer seu nome, mas, com as luzes que eu trouxe para a compreensão desse episódio, os historiadores podem facilmente chegar à conclusão correta.

CC – Você saberia dizer também quem foi o militante responsável pelas ‘quedas em cascata’?

CL: Quanto às quedas em cascata, não tiveram, obviamente, um único responsável. Uma organização não é desbaratada daquela forma se vários militantes não fraquejarem. A minha tese é a de que, por eu haver ficado malvisto externamente, alguns companheiros que tinham pesos na consciência perceberam que a existência de um vilão maior tiraria da alça de mira os vilões menores. Então, passaram a favorecer essa versão, de duas formas: referindo-se sempre a mim como culpado pela queda da área e jamais reconhecendo o papel importante que eu tivera até então na Organização.
Nas entrevistas que deram ao Jacob Gorender, chegaram ao cúmulo de me tirar da lista dos sete militantes que recriaram a VPR no congresso de Teresópolis, colocando outro companheiro no meu lugar!
Essas mesmas pessoas também deram referências as mais negativas sobre mim à Judith Patarra, quando ela escreveu o livro Iara. Também lá, eu caio de pára-quedas para desempenhar um mau papel, sem que nada fosse citado da minha militância anterior. E não é qualquer um que inicia um racha numa organização da importância da VPR aos 18 anos!
Logo que saiu o Combate nas Trevas, eu escrevi e telefonei ao Gorender para contestar a lista dos sete que ele publicara. Nunca deixei de me orgulhar da trajetória que tivera como militante até aquele fatídico abril de 1970. Então, ficava indignado com essa prática stalinista de reescrever o passado para roubar a glória de quem já não estava nas boas graças dos dirigentes supremos.

CC – Celso estamos em 2006, e você começou a militar em 1968. Passaram-se 38 anos. Você poderia nos falar, nesses 38 anos qual foi o pior momento que você viveu?

CL: Meu pior momento, obviamente, foi ter participado daquela farsa de arrependimento. Eu tinha todas as desculpas: fiquei incomunicável por mais de dois meses e sob torturas; encontrava-me tão debilitado que, do meu peso anterior de 85 quilos, perdera uns 25 desde a prisão; estava arrasado por causa das mortes do Eremias Delizoicov e do Roberto Macarini; a VPR cometera uma terrível injustiça comigo, não me colocando na lista de troca do embaixador alemão, o que teve o efeito colateral de encarniçar a repressão contra mim, fazendo-me passar por uma fase de torturas de intensidade idêntica à inicial e provocando a ruptura do meu tímpano; e, como resultado de tudo isso, minha capacidade de resistência chegou ao fim.
Como um zumbi, fui até a televisão e falei o que queriam que falasse. Cheguei até a pensar que nada daquilo acontecera, fora só um pesadelo. E levei alguns meses para voltar a me sentir totalmente normal, em termos de sanidade mental. Mas, quando recompus as forças, amaldiçoei-me por ter deixado que me reduzissem à prostração.
CC – Você pode nos contar com detalhes como foi que eles te fizeram ir até a televisão e posar de “terrorista arrependido”?

CL: Quando o embaixador alemão foi sequestrado, até a repressão acreditou que eu entraria na lista de troca. Apressadamente, eles colheram meu depoimento para o encerramento do inquérito (tratava-se do procedimento adotado no caso dos que viajavam). Haver ficado no Brasil foi péssimo.

Depois que o sequestro terminou eu passei a ser espancado até quando não tinham nada para perguntar. Mas, aproveitei bem uma chance que surgiu.
O coronel que presidia um inquérito de outra organização veio ao DOI-Codi me perguntar qualquer insignificância. E um major torturador, passando pelo local, não se conteve e me deu um soco na nuca, que me atirou longe. O coronel ficou indignado com o que considerou um desrespeito à sua patente superior. Ambos trocaram ofensas. Quando o coronel voltou, eu lhe disse que, se continuasse no DOI-Codi, acabaria morrendo.
Funcionou. O homem deveria ser influente, pois, na manhã seguinte, fui transferido para a PE da Vila Militar, cuja equipe deveria apenas encerrar o inquérito policial-militar, sistematizando as informações obtidas na fase das torturas.
No entanto, tratava-se de rapinantes que haviam sido privados do privilégio de capturar militantes revolucionários. Sem o que tomavam de nós e as recompensas dos empresários fascistas, estavam em dificuldades financeiras, pois haviam se desacostumado a viver apenas com o soldo.
Antigos torturados visitando a PE da Vila Militar em 2014

Alguém, provavelmente o tenente Ailton Joaquim, teve a brilhante ideia de arrancar informações novas dos presos da VPR (eu e alguns aliados que também foram deixados para trás), como forma de provar ao Exército que a PE da Vila Militar deveria ser readmitida no esquema de capturas e torturas.

Eu já estava lá há cinco dias, só de cueca, numa solitária imunda (e bem fria à noite), quando o ten. Ailton percebeu que não iria me dobrar com intimidações. Ordenou torturas. Levei choques e porradas. No caminho de volta à solitária, o descomunal cabo Polvorelli me deu um tapa na cabeça, estourando o tímpano de meu ouvido direito.

“…da sala vinham os gritos da ‘Enéia’ ao levar choques, 
ruídos de pancadas, a trilha sonora medonha da crueldade 
do ser humano contra o ser humano…”

O tenente deu-me papel e mandou que escrevesse sobre minha militância. No dia seguinte, uma quarta-feira, havia festividades no quartel. Ele apareceu em uniforme de gala, jogou as folhas na minha cara e disse que não havia nada de novo nelas. Eu respondi que não tinha mesmo nada para dizer que eles já não soubessem. Então, ele falou que eu entraria no pau de novo. Eu fiz uma pergunta desastrada: “O que eu posso fazer para convencê-lo de que não tenho mesmo nada para contar?”. De bate-pronto, o tenente respondeu: “Faça como o Massafumi”. E foi embora.
Nas tardes de quartas-feiras os recrutas eram dispensados, ficavam só os sentinelas. Aproveitando o meio-expediente, o tenente mandou torturarem uma companheira, de codinome Enéia. Sentado a uma mesa, bem ao lado da sala onde Enéia era torturada, recebi uma folha de papel almaço e caneta. O tenente disse para colocar no papel algo que o convencesse de que eu não voltaria a militar na guerrilha. “Se eu não ficar convencido, hoje você volta para o pau-de-arara!”.

Torturadores entravam e saíam da sala a todo momento; de passagem, davam-me socos e faziam ameaças: “Você é o próximo!”. E da sala vinham os gritos da Enéia ao levar choques, ruídos de pancadas, a trilha sonora medonha da crueldade do ser humano contra o ser humano.

O que acabei escrevendo foi uma mensagem aos jovens, de que não valia a pena entrarem na guerrilha naquele momento, pois a luta estava perdida e eles acabariam sofrendo em vão.
Jamais escreveria aquela carta por decisão própria, mas não menti. Sabia que as pessoas experientes já não tinham ilusões, mas os mais novos eram bem capazes de pegar em armas sem perceber que marchavam para o matadouro.
O tenente leu a carta e disse que, daquele momento em diante, eu ficaria tranqüilo. Deram-me uma cela, com cama, manta e chuveiro. Tirei a sujeira e o sangue pisado do corpo, sentindo o bem-estar de quem volta à civilização, depois de passar vários dias sendo tratado como um animal. Mergulhei em sono profundo.
Numa madrugada, acordaram-me e disseram que me vestisse, pois me levariam para ser executado. Na viatura, depois de fazerem muito jogo de nervos, explicaram: estava sendo conduzido a uma TV [a Globo, no Jardim Botânico] e deveria falar a mesma coisa que escrevera na carta, caso contrário entraria no pau até morrer e depois jogariam meu cadáver debaixo da ponte.
Já sem forças para resistir, acabei fazendo o que pediram: de forma sonambúlica, com a fala arrastada, respondi as perguntas, voltei para a cela e dormi. Quando acordei, não sabia nem se aquilo tinha ocorrido mesmo ou fora um pesadelo.
Comissão de Anistia: 35 anos depois, a vitória moral.

CC – Como foi o seu convívio com a sociedade quando você saiu da prisão?

CL: Virei tabu. Todos falavam de mim pelas costas. Quando entrei na ECA/USP, houve até reunião para decidirem como me receberiam. Cheguei a ser aprovado em testes para repórteres e, mesmo assim, não me chamaram depois. Acabei tendo de iniciar minha carreira em assessorias de imprensa (comunicação empresarial), levando quase 15 anos para chegar à grande imprensa.
O Massafumi, submetido à mesma pressão, enlouqueceu e se matou. O que me fez perseverar foi a convicção íntima de que sofrera uma grande injustiça e poderia esclarecer tudo algum dia.
Desde a meninice eu enfrentava situações em que todos ficavam contra mim; aprendera a sobreviver a isso e, com o tempo, reagir à altura. Isso fez a diferença. Nunca me vi pelos olhos dos outros, como o Massafumi. A discriminação só reforçava minha determinação de provar que todos estavam errados.
CC – Mesmo tendo sofrido toda essa injustiça, e tendo sido acusado por tantos anos por algo que não fez. Qual foi o melhor momento que você viveu em todos esses anos?
 Adiante, Lungaretti lutaria 4 anos pela liberdade de Battisti.

CL: O melhor momento foi esse mágico final de 2004. Primeiramente, o relator do meu processo na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Márcio Gontijo (ex-presidente da seção brasileira da Anistia Internacional), reconheceu que eu havia sido “duplamente atingido” pelo arbítrio ditatorial, já que sofrera torturas, uma lesão definitiva e um período de prisão, como muitos outros também haviam sofrido, acrescidos de danos morais gravíssimos por haver sido forçado a uma exposição negativa que me marcou durante décadas. Logo em seguida, descobri o relatório secreto militar que comprovou minha inocência no episódio de Registro.

Estava desempregado há 11 meses, passando privações e ciente de que a virada na minha vida não iria materializar-se imediatamente. Mas, naquele momento, tive a certeza de que a partida estava ganha. Dali em diante, seria só questão de tempo.
CC – Celso, hoje você ainda tem contato ou é amigo de algum militante da VPR ou de outra organização?
CL: Dos velhos companheiros, a Maria das Graças, que agora é socióloga respeitada com o nome de Maria Palácios; o Diego e o Gílson. Também troco e-mails com o Mané. E já me correspondi com o José Ibrahim, o Mário Japa e o Antônio Roberto Spinoza.

Também houve aproximações com pessoas que não conheci no passado, mas se tornaram simpáticas a mim. Mas, não seria elegante citá-las, sem a devida autorização.

CC – Hoje, com todos os fatos verdadeiros expostos, e a sua inocência realmente comprovada. O que você tem a dizer sobre tudo o que viveu nesse período?
CL: Soa como uma heresia materialista dizer algo assim, mas, às vezes, parece haver algum desígnio obscuro naquilo por que passei. Tive um imenso azar em 1970, quando tudo concorreu para que eu fosse injustamente colocado na berlinda. E a minha vida inteira me preparou para a luta travada em 2004/2005, quando recuperei o que haviam me tomado.
A sensação que tenho hoje é de alívio. Nos piores momentos, temi que a verdade só fosse restabelecida após minha morte. Hoje, tenho certeza de que meus descendentes não se envergonharão de mim. E ainda me resta tempo para dar minha contribuição ao processo revolucionário brasileiro. Tentarei não desperdiçá-lo.
Anúncios

5 comentários

  1. Haveria muita coisa que eu gostaria de dizer ao ler novamente esta história tão vergonhosa, Celso: tanta, que é melhor eu ficar quieto. Não posso mentir, nada pode haver de mais repugnante que condenar injustamente um jovem em nome da “boa” reputação de quem quer que seja. Vejo em todo este relato uma dose franca de coragem, e um mar imenso de covardia, hipocrisia e sede de poder.

    Para o próximo sábado tenho um compromisso profissional que me tomará a tarde toda e a noite, por este motivo não comparecerei à feira. Nos vemos em outra oportunidade.

    Curtir

  2. E há mais isto: de todos os figurões de esquerda que até hoje conheci, muito poucos seriam realmente INCAPAZES de deitar e dormir sabendo-se beneficiários da desgraça imposta injustamente a alguém, principalmente a um rapaz de vinte anos.

    Não estou disposto a escrever tudo o que me vem à cabeça, mas agora mesmo, em meio à esquerda dita “revolucionária” de modo tão ridículo, vejo as pessoas se posicionando segundo o que lhes parece conveniente.

    Por exemplo, eu sou do partido “revolucionário” X, e não vou utilizar nem mesmo a imprensa do partido para denunciar o massacre sofrido por um grupo de sem-teto sob a Polícia Militar do ditador de São Paulo, porque o grupo de sem-teto em questão é ligado ao partido “revolucionário” Y: “revolucionário”, ou “reformista”, sei lá, ninguém sabe.

    Também não direi uma vírgula sobre a assassinato de um camelô pela mesma Polícia, tiro na cabeça à luz do dia e transmitido ao vivo, e nem sobre a impunidade do assassino, porque não tenho “base” entre os camelôs: portanto, pouco se me dá o que acontece com eles. Também não vou encampar a pauta pela desmilitarização da polícia, proposta pelo partido H. Só vou abraçar a linha do meu grupinho, por mais insignificante que o meu partidinho realmente seja, e receberei de muito boa vontade o dinheiro do Fundo Partidário, ainda que eu tenha vindo ao mundo para acabar com o estado burguês.

    Existe muita hipocrisia na esquerda.

    Curtir

  3. Não faltará ocasião, Eduardo.

    Quanto à escolha feita pela VPR, hoje eu até consigo compreendê-la, embora não possa, claro, concordar com ela.

    Como assumi a postura de não identificar a pessoa que realmente 'entregou' a área ativa de Registro, os leitores não têm como aquilatar quão danosa seria a revelação da verdade para uma Organização que tentava dramaticamente sobreviver a uma correlação de forças muito desfavorável.

    Foi uma decisão pragmática, a de tentar evitar uma perda de prestígio recorrendo a uma falsidade.

    Mas, não funcionou. A luta foi perdida da mesma forma e a VPR foi aniquilada da mesma forma. Sobrou uma injustiça infrutífera e um injustiçado transbordando de mágoa e revolta.

    Quando consegui dar a volta por cima, 35 anos depois, pude finalmente lançar um olhar mais equilibrado sobre tudo que ocorrera.

    Inclusive, avaliei que o sacrifício supremo do Lamarca teve importância muito maior do que os erros que cometeu aqui e ali. Quando a vítima de um desses erros é um jovem de 19 anos que tem sua vida praticamente destruída, ele lhe parece, claro, incomensurável. Já um cinquentão consegue levar em conta também os motivos de quem o cometeu.

    Mas, se eu sobrevivi o suficiente para ter outros horizontes na vida, o mesmo não se deu com o Massafumi, também acusado de delator da área guerrilheira num manifesto da VPR, Por essas e outras, ele mergulhou num inferno tão dantesco que o suicídio acabou sendo a única opção para ele reencontrar a paz.

    Durante algum tempo, fiquei indeciso. Eu poderia até relevar o sofrimento que me haviam infligido, mas o Massafumi não estava mais vivo para fazer o mesmo. E tivera morte horrorosa.

    Às vezes as situações concretas nos ajudam a decidir, quando não conseguimos chegar a uma conclusão racional. Assim, a campanha imunda que a direita e seus veículos moveram contra a memória e a família do Lamarca em 2007 me indignou tanto que, como nenhum antigo companheiro de armas saiu em sua defesa, eu, de estalo, a assumi, confrontando a “veja”, “O Estado de S. Paulo” e a “Folha de S. Paulo”.

    Depois, percebi que afinal me libertara do peso de um passado que já não valia a pena carregar. Há coisas melhores para fazermos no presente.

    Curtir

  4. Pois é, Celso, é mesmo fácil compreender como passam-se as coisas. Mas se houvesse da parte dos outros envolvidos, mais próximos de Lamarca e mais adiantados em idade, e portanto mais responsáveis, a noção de que as coisas aconteceram como tinham de acontecer em nome da revolução (sei, sei), então caberia a eles dizer toda a verdade já nos anos 1980. Quanto ao Massafumi, aposto os meus dentes em que esses caras nunca tenham perdido muito da sua tranquilidade pensando a respeito dele.

    Um dia desses, um figarão de um partidinho de esquerda aí morreu. Eu o conheci, e não lamentei a sua morte, por uma questão de reciprocidade. Entre os anos 1990 e o começo dos 2000, naquela crise tremenda do segundo governo FHC, eu era desse partido e fui com os companheiros fazer uma ocupação com o pessoal do MST nas terras abandonadas, improdutivas e devolutas da Sabesp. Nós éramos muito respeitados pela base do MST, porque éramos de luta e por nenhum outro motivo. Estava nessa ocupação a Irmã Alberta, aquele brotinho de oitenta e poucos anos, linda jovenzinha do Brasil, com toda a alegria que alguém pode ter às três e meia da manhã em meio a uma luta de camponeses.

    Pois muito bem, esse fulano que bateu as botas recentemente era candidato do meu ex-partido a governador. Ele chegou de carro à ocupação às 11h, e só dirigiu a palavra a outro dirigente do partido, um puxa-saco de marca maior. A base foi recebê-lo, dando-lhe bom dia e etc, e ele não dignou-se a responder, nem olhou na cara de ninguém. Limitou-se a dar ordens ao capa-preta a quem “seguíamos” àquele dia, fez um discurso extremamente medíocre para os sem-terra, porque arranjaram-lhe um microfone, disse mais algumas coisas a sós com o nosso chefinho, montou em seu carro zero quilômetro, e se mandou. Depois, esse zé ruela que dirigia o partido em nível local disse-nos que a nossa amizade com o MST só deveria nos servir, àquela época, para “construirmos o partido”, embora ele tivesse dito coisa muito diferente ao pessoal da ocupação, durante toda a madrugada e por todo o dia. MEU CHAPA, COMO EU ME SENTI OTÁRIO!

    Resta alguma dúvida de que dirigentes desse tipo estariam mais que dispostos a arrebentar com a vida de um militante de base, sempre em nome da “revolução”?

    Não tou falando de política, tou falando de hombridade.

    Curtir

  5. EJÉRCITO DEL PUEBLO PARAGUAYO

    COMUNICADO A LA OPINIÓN PÚBLICA

    Obreros, campesinos, estudiantes, indígenas, mujeres y hombres paraguayos, Compatriotas oprimidos y explotados,

    El narcogobierno de Horacio Cartes, al igual que los anteriores, es un gobierno títere, servil y antipatriótico, que está al servicio de los ricos y del imperialismo yanqui. En el Paraguay vivimos en la democracia de los ricos, en la que el pueblo tiene todo el derecho de vivir miserablemente, de morirse de hambre, y la obligación de respetar la sacrosanta propiedad privada de los ricos.

    La clase obrera, la clase campesina, los estudiantes, los indígenas, todos como clase pobre, debemos unirnos e impulsar la lucha de liberación de nuestro pueblo, que es la lucha que ha emprendido el brazo armado de los pobres, el Ejército del Pueblo Paraguayo.

    Los políticos paraguayos, al igual que los oligarcas, son una minoría insignificante de ricachones, miserables y explotadores, que viven enriqueciéndose a costa del trabajo y empobrecimiento de obreros y campesinos.

    Compatriotas, unámonos a esta gran causa revolucionaria. Luchemos al lado de las fuerzas revolucionarias y patrióticas, que es el Ejército del Pueblo Paraguayo, que lucha por el interés de los oprimidos y explotados. Ustedes saben que para hacer justicia cuentan con los brazos de los combatientes del Ejército del Pueblo Paraguayo.

    La tierra hay que darla a quien la necesite y quiera trabajarla, por la vía que nos deje la oligarquía. Vamos a ver cuáles.

    Un afectuoso saludo a nuestro querido y sufrido pueblo paraguayo.

    Un fraternal saludo, nuestro respeto y aprecio de siempre a nuestros camaradas prisioneros políticos de la oligarquía paraguaya.

    Los hijos del gran mariscal Francisco Solano López vamos marchando a paso seguro. La gran revolución paraguaya se vislumbra en el horizonte.

    Viva el gran mariscal de acero
    Viva el comandante Simón
    Viva el comandante Aníbal
    Viva el comandante Gilberto Setrini
    Viva el camarada Germán Aguayo

    Juramos vencer, rendirnos jamás

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s