DOMINGO É DIA DOS CANDIDATOS SE EMOCIONAREM COM AS CRIANCINHAS

Por Apollo Natali, especial p/ 
o blogue Náufrago da utopia

Crianças deste nosso Brasil varonil, a aula de hoje é sobre o que cada candidato prometeu fazer por vocês em 1989, quando ocorreu a primeira eleição presidencial livre no País desde 1960. Isto porque, durante bom tempo, a liberdade deixou de abrir suas asas sobre nós. Quem deixou de votar para presidente porque ainda não completara 18 anos no dia 3 de outubro de 1960, teve de esperar até 15 de novembro de 1989 para o fazer; muitos, portanto, já eram quarentões quando lhes foi finalmente concedido o direito de participarem da escolha do chefe de governo.  

Afora o fato de estarmos completando um quarto de século de democracia plena no Brasil, há outro motivo para eu lhes falar sobre a eleição de 1989: é que, nestas eleições de 2014, não se ouve um pio dos candidatos sobre o que vão fazer pela infância, a alguns dias do pleito, a um passo do Dia da Criança, 12 de outubro; e do Ano Internacional da Criança, 20 de novembro.
Então, resta-nos recordar, apenas como estudo de História, o que os candidatos prometiam então fazer em favor dos nossos infantes. Expressavam-se atabalhoadamente, de improviso, os famintos de poder de 1989. Não se mostravam nem de longe espantados ou indignados com o quadro dilacerante da situação da infância brasileira. Suas falas eram apressadas e as promessas se desviavam da solução dos reais problemas da criançada. Pode até te dar nos nervos, caro leitor, mas não deixe de se inteirar desses reais problemas na análise do Unicef/IBGE.

As propostas sem objetividade daqueles candidatos, relembradas hoje, podem  até provocar algumas gargalhadas. Entre as soluções estapafúrdias apresentadas para socorrer a infância, falaram em: 

  • melhores salários; 
  • frentes de trabalho;
  • rigor com estupradores; 
  • fim do déficit público; 
  • criação de novos hábitos alimentares; 
  • combate ao analfabetismo; 
  • política de atenção aos desfavorecidos; 
  • universalização dos programas sociais;
  • distribuição de cesta básica;
  • criação de um abono familiar seletivo;
  • resgate do crescimento econômico; 
  • esclarecimentos sobre doenças sexuais transmissíveis; 
  • creches e serviços sociais comunitários; 
  • plebiscito para a pena de morte;
  • incentivos ao aleitamento materno; 
  • subsídios para os programas que atingem os pobres;
  • massificação dos esportes;
  • promoção do desenvolvimento do Norte e Nordeste;
  • mudança no estilo de desenvolvimento;
  • municipalização da educação; 
  • construção de salas de aula; 
  • reciclagem dos professores; e 
  • “alguns programas” para menores e gestantes.

Havia 22 candidatos, mas só oito ficaram acima da marca de um centésimo dos votos: Roberto Freire (1,06%), Ulysses Guimarães (4,43%), Guilherme Afif Domingos (4,53%), Paulo Maluf (8,28%), Mário Covas (10,78%), Leonel Brizola (15,45%), Luiz Inácio Lula da Silva (16,08%) e Fernando Collor de Mello (28,52% – aliás, foi ele quem, eleito presidente no 2º turno, expulsou do País Albert Sabin, cientista que era casado com uma brasileira e havia descoberto a vacina contra a poliomielite, o milagre que salva a espécie humana de terríveis aleijões. Motivo? Sabin apontara falhas na vacinação no Brasil…).

Pareciam ter sido pegos de surpresa com a pergunta, aqueles sedentos de poder.  Respondiam de orelhada, mais gemendo por votos do que preocupados com o tema, sobre as medidas práticas que prometiam tomar para melhorar a situação de vocês, pixotinhos e pixotinhas, à parte a dívida externa da época e a hiperinflação.
Na Pátria amada, idolatrada, salve, salve!, dos cerca de 60 milhões de menores contabilizados em 1989, 7 milhões deles estavam nas ruas, em contato com o crime e as drogas. Eu fiz a pergunta para os candidatos, um a um. 
A maioria dizia que a prioridade era promover o desenvolvimento para combater a miséria. Aumentar o bolo para depois dividir, lembram-se daquela maldosa ladainha? A maioria fez coro contra a situação da criança brasileira, demonstrando assim uma suposta indignação politicamente correta, porém meramente filosófica. Aureliano Chaves e Roberto Freire não se manifestaram.

Perguntei quais as políticas sociais básicas que cada um implantaria em seu governo para reverter a situação – admitida como estarrecedora – da criança em nosso país. O que queria saber é se os problemas da infância faziam parte das preocupações dos presidenciáveis e o que de concreto propunham para atacar o problema.

A candidatura de Sílvio Santos foi impugnada pelo TSE.

Vejam, menininhos e menininhas do Oyapoque ao Chui, que os candidatos foram interrogados num momento estratégico, pois estávamos a poucos dias do Dia da Criança, perto da eleição presidencial, do trigésimo aniversário da declaração universal dos direitos da criança  e do décimo aniversário do Ano Internacional da Criança, 20 de novembro. Mostraram-se alheios à importância dessas datas.

Por conta deles, os candidatos dividiram suas respostas em três partes, fazendo, na primeira, coro contra a miséria; na segunda, a argumentação de que qualquer solução deve ser precedida do desenvolvimento econômico (quer dizer, o País só vai se preocupar com seus belos filhotes depois que a economia melhorar); e, por último, relacionaram suas sopas de medidas doidivanas para salvar a infância.

O CORO RETÓRICO

Ronaldo Caiado, um dos nanicos (obteria tão somente 0,68% dos votos), disse: “A situação da criança no Brasil estarrece a opinião pública, humilha a nossa gente e envergonha a nossa história”. Fernando Collor de Mello: “A criança é a maior vítima da crise brasileira. A miséria da criança é a perpetuação do ciclo da própria miséria que precisamos romper”. 
Ulysses: crianças = silvícolas (?!)


Luis Inácio Lula da Silva: “Não é possível separar a situação dramática das crianças brasileiras do quadro social caótico dos seus pais, os trabalhadores brasileiros”. Ulysses Guimarães: “O lado mais perverso da situação são os meninos de rua, os silvícolas da moderna e distorcida vida urbana brasileira. Suas estratégias de sobrevivência percorrem do lícito ao ilícito e os conduzem, em sua maioria, ao posterior recrutamento pelos quadrilhas organizadas”.

Affonso Camargo (0,52%): “O quadro de inanição, de carência vitamínica e de mortalidade infantil no Brasil é dantesco”. Leonel Brizola: “Se é verdade o dito de que a criança é o futuro do Brasil, nosso futuro está aí, rolando pelas ruas, abandonadas, submergindo num quadro horrorizante de miséria e degradação. É um espetáculo deprimente”.
Mário Covas, Guilherme Afif Domingos, Paulo Maluf, Aureliano Chaves (0,83%) e Roberto Freire não fizeram coro nenhum.
O CRESCIMENTO DO BOLO
Agora vamos ver, bebezinhos e bebezinhas, o que cada um deles dizia sobre a necessidade de desenvolvimento, até que pudessem ouvir o choro de vocês.
Ronaldo Caiado: “A solução dos problemas das crianças passa necessariamente pela melhora da qualidade dos salários, uma primeira etapa”.

Fernando Collor de Mello: “Desde logo cabe resgatar o crescimento econômico, única maneira de transformar as potencialidades brasileiras em riqueza efetiva”.

Caiado: qualidade (?) dos salários.

Guilherme Afif Domingos: “Atacar as causas do esfacelamento das famílias de baixa renda e do abandono do menor será possível promovendo o desenvolvimento do norte e nordeste através das revoluções verde e urbana, que promoverão o desenvolvimento da agricultura e da mineração e ao mesmo tempo das cidades de pequeno e médio porte que vivem das agro-indústrias e minerações. Assim será possível fixar os brasileiros em suas cidades onde eles têm nome, sobrenome e família e não obrigá-los mais a migrar para os grandes centros em busca de oportunidades de sobrevivência e onde acabam encontrando uma situação de miséria, que é o principal fator de desagregação familiar”.

Luis Inácio Lula da Silva: “Desenvolver um novo modelo econômico baseado não mais na miséria e marginalização das maiorias, mas sim na incorporação dos trabalhadores e dos recursos naturais ao desenvolvimento econômico do país”.
Ulysses Guimarães: “Mudar o estilo de desenvolvimento é também interromper esta cadeia perversa e priorizar a atenção à criança pobre”. 
Paulo Maluf, Affonso Camargo, Leonel Brizola e Mário Covas não fizeram a apologia do crescimento do bolo. Aureliano Chaves e  Roberto Freire continuaram mudos.
COMO ELES PROMETIAM SALVAR VOCÊS
Maluf (com Médici) pregava rigor e pena de morte 

Agora saibam, crianças, o que cada candidato apresentava como medida prática para salvar vocês assim que assumissem. Ainda pela ordem com que responderam, as providências prometidas foram as seguintes:

Ronaldo Caiado: “O governo, assim desafogado com o Projeto Celeiro, fonte geradora de empregos e de receita tributária, aliviando o desemprego e o déficit público, poderá se dedicar então com todos os seus esforços às suas legítimas vocações de proteção à infância, de educação, de saúde e saneamento, habitação popular e segurança. E os pais de hoje e os de amanhã poderão realizar a dádiva de Deus que é criar uma criança”. Quer dizer, salvar a infância de verdade, só mais para a frente…

Fernando Collor de Mello: “Além da manutenção e melhoria da qualidade dos atuais programas de assistência à maternidade e à criança, e a garantia de remuneração adequada, profissionalização e qualificação dos recursos humanos voltados à atenção do menor, será implantada uma política de atenção aos desfavorecidos, configurada com financiamento de acordo com o orçamento de seguridade previsto na Constituição, com destaque para os recursos fiscais e transferências internas aos recursos de contribuições. Na área da educação, esclarecimentos sobre drogas, doenças sexualmente transmissíveis e direitos do menor trabalhador”. Quer dizer, salvar a infância de verdade, só mais para a frente…

Lula propunha a criação de outro organismo burocrático
Guilherme Afif Domingos: “Para atacar a crise nos primeiros meses, um plano de emergência priorizando o atendimento à infância carente através do fornecimento, por parte do governo, de cesta básica de alimentos e remédios, do amparo à criança e da abertura de frentes de trabalho. Através da merenda escolar desde a pré-escola, a criação de novos hábitos alimentares de acordo com a nossa produção, introduzindo, por exemplo, a soja, rica em proteínas. Para o menor carente, regulamentação da atividade de modo a que ele possa ser menor aprendiz, sob responsabilidade de uma entidade sem fins lucrativos que cuida de sua educação básica”. Quer dizer, salvar a infância de verdade, só mais para a frente…
Luis Inácio Lula da Silva: “Será dada atenção à necessidade de prover as famílias dos trabalhadores de equipamentos de apoio indispensáveis, com creches e serviços sociais comunitários. Para o menor abandonado, criação de um organismo voltado para a defesa das crianças e dos adolescentes, vinculado à presidência da República, que assuma e encaminhe o conjunto das políticas nessa área e criação de instituições que trabalhem com os vários aspectos da vida dessas crianças: trabalho, educação, atendimento psicológico. Além disso, permanente fiscalização do trabalho da criança e do adolescente nas empresas e nas ruas visando eliminar os riscos e a exploração a que são comumente submetidos no desempenho de suas atividades”. Quer dizer, salvar a infância de verdade, só mais para a frente…
Brizola: samba de um Ciep só.


Paulo Maluf: “Grande incremento do saneamento básico, cuidado à gestante nos postos de saúde, fornecimento de suplementação alimentar às mães e aos bebês, implantação da merenda 365 dias por ano, com direito de o aluno levar seus irmãozinhos à escola para comer, criação de creches, construção de escolas, massificação da prática de esportes, defesa do agravamento das penas contra estupros e sequestros, ainda mais quando as vítimas forem crianças, e convocação de plebiscito a respeito da pena de morte para estupros e seqüestros seguidos de assassinato, guerra sem trégua aos traficantes de drogas”. Quer dizer, salvar a infância de verdade, só mais para a frente…

Ulysses Guimarães: “Criação de abono familiar seletivo para as crianças de famílias carentes, ampliação da merenda escolar e do programa nacional do leite. Melhora do atendimento às gestantes, nutrizes e crianças. Melhoria do desempenho da rede de creches e pré-escolas. Para atender os meninos de rua, a superação do caráter experimental do programa Recriança que aponta sugestões de grande potencial para o retorno à escola dos meninos de rua. Recuperação e construção de salas de aula, elevação do padrão de escolaridade, melhoria salarial e reciclagem de professores”. Quer dizer, salvar a infância de verdade, só mais para a frente…
Affonso Camargo: “Alimentação garantida e acompanhamento pré-natal adequado à mãe gestante [ainda hoje maternidades públicas de referência em São Paulo não têm condições de fazer partos de gêmeos…] uma boa rede de postos de saúde voltados exclusivamente para a puericultura, incentivo a programas de aleitamento materno, construção de escolas com fornecimento de alimentos e assistência médico-ambulatorial, construção de escolas rurais por todo o país”. Quer dizer, salvar a infância de verdade, só mais para a frente…
Mário Covas prometia alfabetização. E o resto?

Leonel Brizola: “Espalhar pelo país centros comunitários, seja construindo prédios modestos, seja obtendo instalações, num esforço comum com estados e municípios. Ali iremos desenvolver programas de assistência à criança a partir do ventre da mãe, até os seis anos, através de orientação médica, cuidados com a higiene e suplementação alimentar. A partir dos seis anos, as crianças irão para os Cieps, Centros Integrados de Educação Pública, que vamos semear por todo este país. No Ciep, a criança chega de manhã cedo, tem a primeira refeição do dia e assiste às aulas. Almoça, tem a segunda professora para auxiliá-la nos seus estudos. Além disso, pratica esportes e tem assistência médica e dentária. Após o jantar, vai para casa, de banho tomado, para o carinho dos pais. Esta é uma idéia concreta, prática”. Quer dizer, salvar a infância de verdade, só mais para a frente…

Mário Covas: Nosso governo buscará garantir a todos o acesso às diferentes políticas sociais. Os estados e municípios participarão ativamente da elaboração e implementação das políticas sociais a nível nacional que deverão refletir suas necessidades e peculiaridades. Serão mantidos a curto e médio prazos alguns programas para menores e gestantes. A Educação será descentralizada e municipalizada, cuja gestão terá a participação dos pais, alunos e setores interessados, O professor será valorizado através de melhores salários, investimentos maciços na sua formação e reciclagem e haverá ampla mobilização de todos os setores da sociedade no combate ao analfabetismo. Quer dizer, salvar a infância de verdade, só mais para a frente…
Collor ia “atender os desfavorecidos”. Ia…

Aureliano Chaves e Roberto Freire: nada a declarar.

                   
E AGORA, MELHOROU?
Se na primeira eleição direta presidencial do Brasil redemocratizado os candidatos quase nada tinham a declarar sobre a criança, salvo as platitudes e generalidades com que alguns tentaram disfarçar o descaso com o tema (a costumeira embromation…), era de esperar-se que, na sétima, eles já tivessem acordado para o dever de priorizarem as novas gerações, que são a nossa esperança de um Brasil melhor.

Que nada! A criança foi praticamente esquecida nos programas de governo de quem se deu ao trabalho de os apresentar, diretrizes básicas exigidas pela Justiça Eleitoral, etc. Quanto muito… platitudes e generalidades, de novo! Tipo “correta implementação do Estatuto da Criança e do Adolescente”, como se todo e qualquer estatuto não devesse ser corretamente implementado. Parece que cumprir obrigação agora virou mérito…

Utilizando criança, qualquer político sai bem na foto.

Então, brasileirinhos e brasileirinhas, se, no próximo domingo, candidatos à Presidência e aspirantes a governadores aparecerem aos beijos e abraços com crianças como vocês, posando para as câmeras de TV e para os cliques dos fotógrafos, dando declarações dramáticas e emocionadas aos jornalistas, não acreditem em nada disso. É tudo de mentirinha. No fundo, no fundo, o que eles estão pensando é: “Vou enganar esses bobos, na casca do ovo”.

No exato instante em que a votação terminar no dia 26 de outubro, a carruagem voltará a ser abóbora; e vocês vão ser novamente esquecidos, até a próxima temporada da caça ao voto.

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