UM FILME MARCANTE, QUE NOS LEVA A REFLETIRMOS SOBRE O UTILITARISMO.

Eis um filme que tem muito a ver com o deprimente momento pelo qual passamos no Brasil: Mississippi em chamas (1988). Mostra o assassinato de três ativistas dos direitos civis dos negros por parte da Ku Klux Klan, em 1964, numa pequena cidade do Mississippi, seguindo-se as investigações a cargo do FBI.

A política do governo estadunidense era a legada por John Kennedy, de fazer respeitar os direitos civis custasse o que custasse. Então, o desaparecimento dos três ativistas leva à cidade uma verdadeira tropa de ocupação do FBI, comandada por um agente idealista (Willem Dafoe), que segue fielmente a cartilha da legalidade. Um de seus auxiliares (Gene Hackman), antigo xerife de cidade sulista como aquela, tem uma visão pragmática e cínica da missão.

Com quase todos os moradores brancos participando da KKK, sendo solidários a ela ou temendo ficar na sua mira, o trabalho não avança. Até que o agente idealista, frustrado pelos fracassos e pelas sucessivas demonstrações de força dos encapuzados, dá carta branca para o auxiliar amoral conseguir resultados por meio de abusos policiais. Assim, é cometendo crimes menores que o FBI consegue desvendar o crime maior e entregar os culpados à Justiça.

A ótica do diretor Alan Parker (O expresso da meia-noite, Pink Floyd – The Wall, Coração satânico) é totalmente utilitária: ele vilifica as autoridades locais, pertencentes ou mancomunadas com a KKK, tornando simpáticos os policiais arbitrários e fazendo com que pareça justificado o uso de métodos não ortodoxos para arrancar a verdade dos envolvidos no assassinato. O espectador acaba vendo o auxiliar amoral como aquele que sabe das coisas, enquanto seu chefe legalista não passa de um ingênuo.

O filme é impactante, prende a atenção, evoca um momento histórico importante e tem Gene Hackman em grande forma. Merece ser visto.

Mas, a tese utilitária tem de ser rechaçada firmemente, em todas as circunstâncias! Porque quem age como criminoso se torna também criminoso, o fim nobre nunca permanece o mesmo depois de se utilizarem meios espúrios para o atingir. E a experiência histórica nos ensina que, depois da primeira violação de conduta, abrem-se as porteiras para muitas e muitas outras, com a exceção logo se tornando regra. É uma viagem sem volta.

Esta discussão vem a calhar quando o PT abdica de quaisquer escrúpulos na busca de vitória eleitoral, tendo tomado a iniciativa de deturpar e apequenar a batalha política, tornando-a uma campanha de satanização, de medo, do ódio, de uso indiscriminado da mentira e do apelo para irrelevâncias que beiram os fuxicos de comadres. 

Poderá até resultar, mas o partido sairá da eleição muito menor do que entrou; de depositário das esperanças populares se terá tornado um beneficiário da credulidade dos despolitizados, dos coitadezas que se deixam enganar pelos métodos nazistas/stalinistas de manipulação das massas. 

Vitórias de Pirro preparam o terreno para derrotas acachapantes (e eu temo que as consequências acabarão recaindo sobre todos nós, não apenas sobre os dirigentes do PT responsáveis pela descida ao esgoto). 

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8 comentários

  1. Está bem, não vou insistir.
    Mas lembre-se que o caminho para a utopia tem de ser trilhado sobre o terreno real…
    É precisamente disso que se trata no momento.
    Os candidatos não são nulidades.
    Defendem programas.
    É preciso avançar.
    No caso brasileiro, só com Dilma.
    Cordiais saudações do
    Juvenal

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  2. Defendem programas? Bom, a Dilma não apresentou nenhum e o do Aécio é de direita.

    O pior é que, no fundo, no fundo, trata-se do MESMO programa: a exploração do homem pelo homem permanece intocada e o grande capital dita a política econômica. Ninguém ousa contrariá-lo no ATACADO. Seja quem for que finja ser presidente, só lhe permitirão gerenciar o varejo. É o que o PT faz há 12 anos: aumenta um tiquinho a quantidade de migalhas da mesa dos poderosos que são atiradas aos pobres. Deveria é lutar para que os pobres sentassem-se à mesa e pudessem comer quanto quisessem. Foi para isto que o criamos.

    Estou um pouco velho para ficar escolhendo o MENOS PIOR. Não estando colocada uma opção revolucionária, a eleição será totalmente inútil, como todas as anteriores. Estamos há muito tempo patinando sem sairmos do lugar.

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  3. Dilma não apresentou programa?
    A meu ver, as cartas sobre a mesa dizem tudo.
    Vamos ficar apenas com o fato de várias dezenas de milhões de brasileiros, com as migalhas, já não passam fome.

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  4. Engano seu. Os escravos passavam fome, sim. Sua vida era determinada pelo cálculo econômico. Vamos ficar com a produção açucareira: se o preço do açúcar subia, o escravo era obrigado a trabalhar mais, até a exaustão e a morte (mesmo que custasse muito). Em um de seus livros, Celso Furtado calcula que o tempo de vida médio do escravo era de 7 anos no Brasil.
    Mas a fome e a desnutrição foram crônicas no país durante 500 anos.
    Por fim, vamos lembrar que a libertação da classe trabalhadora será obra dela mesma.

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  5. Estava falando de amos minimamente inteligentes, não de cavalgaduras.

    Quanto à libertação da classe trabalhadora, não acontecerá enquanto farsantes a iludirem, desmobilizando-a e colocando-a a reboque de seus propósitos de perpetuação no poder.

    Quem usa a militância como forma de se dar bem na vida nunca fará revolução nenhuma.

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