VIDA QUE SEGUE

Foi um duro golpe para mim, constatar o estrago causado pela última eleição presidencial nas minhas esperanças de uma retomada revolucionária.

Sou sincero: considero esgotado o papel positivo do PT e urgentemente necessária a afirmação de uma nova vanguarda, que volte a priorizar a luta contra o capitalismo, disposta a implodir a dominação de classe ao invés de apenas atenuar os excessos cometidos pela classe dominante.
Até lá continuaremos patinando sem sairmos do lugar. Então, na minha maneira de ver as coisas, a reeleição de Dilma significou mais quatro anos riscados do calendário da revolução (a menos que os jovens indignados voltem para as ruas e comecem a escrever uma nova História, pois eles são, agora mais do que nunca, a esperança que nos resta). 
E, como enxergo um palmo adiante do nariz, temo que o continuísmo, da forma como foi assegurado (com abuso clamoroso da máquina governamental, da propagação de falácias e da pregação do ódio), seja respondido pela direita com a tentativa de impeachment da presidenta Dilma.

Isto poderá levar a consequências imprevisíveis, com a conjugação das crises política e econômica (pois o que nos espera em 2015 é uma recessão inevitável, que talvez desemboque numa depressão).
Mas, exatamente porque o porvir se augura ameaçador, continuarei cumprindo o papel quem me atribui: o de estimular a reflexão sobre o momento e as perspectivas históricas, propondo visões alternativas às dominantes. Até agora, tem sido uma pregação no deserto: por mais certo que esteja nos meus alertas, não venho conseguindo alterar um milímetro o rumo dos acontecimentos.
Mesmo assim, creio haver motivos para perseverar. Principalmente por existirem tão poucos internautas, e a proporção é menor ainda entre os de esquerda, com convicções e coragem para remarem contra a corrente, desafiando e desnudando as posições oportunistas dos que desistiram de dar um fim à exploração do homem pelo homem.
Vida que segue, portanto. O que muda é a ênfase cada vez menor que este blogue dará à política oficial, às escaramuças dos que querem apenas conquistar, manter ou ampliar seu poder sob o capitalismo. 

Depois dos horrores da última campanha, a política oficial só me causa o mais profundo asco e a mais extrema indignação. Sinto-me como Glauber Rocha, no seu desabafo visceral em Terra em Transe, pela boca do personagem Paulo Martins (Jardel Filho):

Não é mais possível esta festa de medalhas, este feliz aparato de glórias, esta esperança dourada nos planaltos. Não é mais possível esta festa de bandeiras com guerra e Cristo na mesma posição! Assim não é possível, a impotência da fé, a ingenuidade da fé.

Somos infinita, eternamente filhos das trevas, da inquisição e da conversão! E somos infinita e eternamente filhos do medo, da sangria no corpo do nosso irmão!

E não assumimos a nossa violência, não assumimos as nossas idéias, como o ódio dos bárbaros adormecidos que somos. Não assumimos o nosso passado, tolo, raquítico passado, de preguiças e de preces. Uma paisagem, um som sobre almas indolentes. Essas indolentes raças da servidão a Deus e aos senhores. Uma passiva fraqueza típica dos indolentes.

Não é possível acreditar que tudo isso seja verdade! Até quando suportaremos? Até quando, além da fé e da esperança, suportaremos? Até quando, além da paciência, do amor, suportaremos? Até quando além da inconsciência do medo, além da nossa infância e da nossa adolescência suportaremos?

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17 comentários

  1. “uma nova vanguarda, que volte a priorizar a luta contra o capitalismo, disposta a implodir a dominação de classe ao invés de apenas atenuar os excessos cometidos pela classe dominante.”
    Sim, mas sendo a sua opção pela Marina, vc acha que ela era a encarnação deste seu desejo?

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  2. no dia que o primeiro caçador do paleolítico descobriu que ele era melhor na manufatura de flechas, arcos e machado de pedra que caçando com os outros e com isso podia obter o resultado da caça de modo mais abundante e menos arriscado tava inventado o capitalismo que nunca deixou de ser a forma natural de viver em sociedade…o resto é delírio de românticos.

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  3. Carlo Ponti,

    de onde vc tirou a esdrúxula ideia de que eu tivesse optado pela Marina? Jamais o fiz. Recomendei o voto na Luciana Genro no 1º turno e o voto de repúdio no 2º.

    O que eu defendi foi algo bem diferente: que o PT a combatesse de maneira leal, afinal não passava de outra reformista como a Dilma, além de ter o DNA petista.

    Dependendo do que acontecer em 2015, lembre-se: muita coisa ruim poderia ter sido evitada se o PT não se obstinasse em vencer a qualquer preço, passando por cima de muitos princípios e valores.

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  4. Anônimo,

    enquanto as forças produtivas não se haviam desenvolvido suficientemente para possibilitar uma existência digna para cada ser humano, a competição animalesca fazia sentido.

    Quando o homem transpôs a barreira da necessidade e passou a ter condições de produzir todo o necessário, o capitalismo se tornou uma aberração: os privilégios de alguns são mantidos à custa da penúria desnecessária e do trabalho excessivo de outros, além de estar destruindo as bases da sobrevivência da espécie humana.

    Ou acabamos com o capitalismo ou ele acaba conosco. É simples assim.

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  5. Desculpe-me eu li um texto seu que em alguma parte defendia a Marina da acusação petista que a Marina era a candidata dos banqueiros por causa de ter o apoio da neca herdeira do Itau e não devo ter captado que sua candidatura preferida era a da Luciana. Contextualizei apenas este texto e ao me subsidiar por ele, tive a falsa impressão que por esta defesa da candidatura da Marina, ela era então a sua opção de voto.

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  6. Carlo,

    a Marina nunca me entusiasmou, até porque sou um revolucionário à antiga, focado na luta de classes, e não um militante ecológico.

    Apenas preguei que ela fosse tratada pelo PT como adversária, e não como inimiga.

    É parte da cultura da minha geração. Encarávamos outras forças de esquerda como contingentes dos quais deveríamos divergir respeitosamente, tentando trazê-los para o nosso lado ou tendo-os como aliados em algumas circunstâncias.

    Já os representantes da burguesia e os defensores da ditadura eram, para nós, inimigos irreconciliáveis.

    Considero que esta postura deveria ter sido mantida. O PT pode governar comprando apoios da ralé fisiológica, mas quem quer fazer a revolução precisa do apoio, total ou parcial/esporádico, das outras forças de esquerda.

    Abs.

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  7. Porra Lungaretti, tu fala em vanguarda revolucionária mas lembra que começou declarando voto em Marina depois mudou para Luciana Genro. Que cabeça confusa é esta senhor vanguarda?

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  8. Tudo que eu escrevi sobre a eleição está arquivado neste blogue. Faça uma pesquisa e veja se existe algum texto no qual eu declare voto na Marina. Em nenhum momento eu o fiz.

    Eu apenas defendi os valores da esquerda consequente de outrora, que tratava cordialmente os adversários do mesmo campo e só hostilizava como inimigos os representantes da burguesia e (naquele tempo) os defensores da ditadura.

    A satanização da Marina por parte do PT foi um dos capítulos mais infames da história da esquerda brasileira.

    Mas, jamais votaria em reformista nenhuma: nem na Marina, nem na Dilma.

    Recomendei voto na Luciana Genro, porque o PSOL se define como um partido anticapitalista.

    E recomendei voto de repúdio no 2º turno porque nenhum dos dois se propunha a acabar com o capitalismo.

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  9. Lunga, olhe o que escreveu neste post SUCESSÃO: RUI MARTINS DECLARA APOIO, EU MANIFESTO PREFERÊNCIA.

    “Marina, sim, tem, pois chegará com aura heroica, uma nova pauta, desafios diferentes e muita disposição. Até onde pretende ir, se honrará suas bandeiras, se vai fazer História ou protagonizar mais decepções, isto pertence ao futuro, e quase todos os prognósticos que lemos não passam de especulações tendenciosas, para favorecerem ou desqualificarem sua candidatura.

    A volta da esperança é do que precisamos para, pelo menos, ficarmos a salvo de retrocessos institucionais enquanto não estão dadas as condições para irmos ao xis das questões -o que, reafirmo, não depende da vontade de presidentes da República, mas sim da luta de cidadãos conscientes e mobilizados.

    É neste sentido, sem fantasias nem ilusões, que prefiro Marina.”

    Quer dizer que não ia votar em Marina, “prefiro Marina”. Fumou mas não tragou?

    http://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2014/08/sucessao-rui-martins-declara-apoio-eu.html

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  10. Caro Lungaretti, não estou de carona em seu blog. Te acompanho a muito tempo e, devo dizer que discordo radicalmente de você, pois, Marina tinha mais era que ser satanizada mesmo, pois, juntar-se a um canalha chamado Silas Malafaia,e obedecer às suas demandas, a Marcos Feliciano, a Neca do Itaú e, por último, pra fechar o seu caixão politicamente, ao candidato da extrema direita, Aécio Neves…Nesse ponto, a campanha de Dilma fez muito bem..

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  11. Leia direito o que escrevi, está bem claro: o companheiro Rui Martins declarou apoio à Marina e eu apenas a considerei a menos pior dos três candidatos com chances de vitória.

    Ou seja, entre Aécio, Dilma e Marina, eu preferia a Marina; mas, como revolucionário, eu jamais apoiaria algum(a) reformista havendo candidaturas anticapitalistas na parada.

    Com ou sem chances de vitória, eu apoio sempre quem se propõe a ir à raiz do problema: o imperativo de darmos um fim à exploração do homem pelo homem.

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  12. Tu é uma piada Lunga. Manifesta preferência e diz que não ia votar em Marina… Leia o que você escreveu e seja mais honesto com seus poucos leitores…

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  13. Não é conversa minha, mas vou pedir licença ao proprietário desta bagaça para dizer o seguinte.

    Nêgo vem até aqui, não põe a cara, não diz o nome – escreve o que bem entende sem se preocupar em assinar -, e fica acusando o dono do blogue disso e daquilo, na posição de um censor, porque Celso disse qualquer coisa de “comprometedora” um dia desses.

    Mas, até que isso aí é bom. Faz a gente se lembrar de que essa geraçãozinha de internet nem faz ideia da quantidade de feijão que ainda há de comer, e é sempre bom nos inteirarmos do real estado das coisas. Eita, juventude!

    É duro ver um cara, um jovenzinho segundo a faixa etária ou segundo a idade mental, empregando um vocabulário tão estúpido como “fumou mas não tragou”, achando que está dicutindo política (e não tou nem aí sobre se ele pretenderá ou não se aprofundar no papo fosco dele), defendendo de maneira tão ridícula o seu lado de lá da realidade.

    A “esquerda” de hoje, a sua maioria conforme aquilo que vejo, é isso aí. Um rebanho como outro qualquer, educado por meio de cartilhas, empenhado em dizer idiotices pela internet.

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  14. Os meus poucos leitores me leem exatamente porque encontram neste blogue enfoques diferentes da vala comum em que se transformou a web, cada vez mais dominada pelo fanatismo beligerante e pelo simplismo estarrecedor.

    Repetindo pela enésima vez: como revolucionário à antiga, focado na luta de classes, vejo como simpatia os militantes ecológicos, mas jamais seria um.

    Não acredito em sustentabilidade de nenhuma espécie sob o capitalismo. Pelas minhas convicções, ou vamos ao xis da questão, ou a degradação ambiental aumentará até um ponto de não retorno.

    Então, embora considerando salutar o que se enfiasse uma cunha na polarização entre petistas e tucanos, que hoje apenas nos coloca entre dois males, não poderia jamais apoiar a candidatura da Marina ou votar nela.

    Pelo mesmo motivo que não apoio nem voto na Dilma: meu objetivo é a derrubada do capitalismo, não aumentar a quantidade de migalhas que os explorados recebem sob o capitalismo.

    Desde os 19 anos, quando o assunto é reforma ou revolução, alinho-me incondicionalmente com a segunda. Estou velho demais para mudar.

    Enfim, se você entendeu, ótimo; se não, eu perderia tempo tentando explicar, porque jamais quererá entender.

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  15. Edson,

    ninguém, absolutamente ninguém, merece ser satanizado. O fanatismo religioso é uma triste lembrança de um passado tenebroso. Tudo de que não precisamos é assumir postura semelhante na política.

    A Marina, candidata por um partido menor, contemporizou com as exigências do Malafaia. Foi errado? Foi. A política oficial é isto mesmo, o próprio reino da ambiguidade. É mais um motivo para lutarmos com todas as nossas forças por uma revolução.

    Mas, vale lembrar que a Dilma, mesmo já estando no poder, envergonhou-nos a todos em troca de um punhado de votos dos zumbis mesmerizados pelos falsos pastores. Ter-se sujeitado a fazer o papel de arroz de festa na inauguração do Templo de Salomão foi terrível, ver as fotos quase me fez vomitar. No que, afinal, Edir Macedo se diferencia do Malafaia e do Feliciano? Apenas na escala: incide nas mesmíssimas práticas (exploração da fé, lavagem cerebral, curandeirismo, estelionato, lavagem de dinheiro, etc.), só que em escala muitíssimo maior.

    Sobre seguir orientações de evangélicos, quero lembrar, ainda, que a Dilma cometeu a INFÂMIA de aceitar o ultimato da bancada evangélica no Congresso: ou excluiria da Comissão da Verdade os veteranos da resistência armada à ditadura, ou eles atrapalhariam a aprovação do projeto.

    Cedendo a tal chantagem, ela deu um tapa na cara de todos nós, que arriscamos a vida numa luta desigual e acabamos ou mortos, ou estropiados. Pois nos igualou aos algozes. Eles é que sempre alegaram que os dois lados teriam cometido excessos. Deixando ambos igualmente fora da CNV, ela, na prática, alinhou-se com a posição deles.

    Fui o primeiro a PROVAR que a Neca Setubal não passava de uma herdeira ociosa procurando algo para fazer na vida, não tendo absolutamente nada a ver com a orientação política e as atividades do Grupo Itaú. Aliás, da mesmíssima forma, ela apoiou em 2012 a candidatura do petista Fernando Haddad a prefeito de São Paulo. Naquele tempo era santa, depois virou puta? Quem mente descaradamente numa campanha política é porque já não tem nada de positivo para mostrar ao eleitorado.

    Finalmente, Aécio Neves jamais foi candidato da extrema-direita. De onde você tirou esta besteira? Muito mais à direita estão o Maluf e o Collor, que agora viraram amigos do Lula desde criancinhas.

    Enfim, se você se deixa enganar por essas tendenciosidades e mentiras dos blogueiros amestrados do PT, pelo menos tem uma atenuante: a grande maioria dos alemães acreditavam no que era martelado pela máquina de propaganda do Goebbels durante o nazismo.

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