LUNGARETTI: “BEM MAIS VIRIL E ALTANEIRO ERA O HINO DA INDEPENDÊNCIA!”

Hinos nacionais têm importância relativa para quem quer construir uma realidade diferente, e não apenas representações simbólicas diferentes da mesma e inaceitável realidade.

Ainda assim, em cada 7 de setembro aumenta a minha inveja dos franceses, que têm um hino eletrizante, enquanto somos obrigados a nos contentar com uma marcha originalmente composta para banda, embalando versos rococós que mais da metade dos brasileiros não consegue decorar e cujo significado, provavelmente, nem um décimo compreende.
Marselhesa foi criada em 1792 por um oficial do exército francês e músico autodidata, como encorajamento os soldados que partiam para combater as tropas austríacas. Inicialmente se chamou Canto de guerra para o exército do Reno. Adotada pelas tropas revolucionárias e pelo povo, espalhou-se por todo o país e foi oficializada como hino nacional em 1795.

Imagens fortíssimas: os cidadãos sendo chamados à luta para combater ferozes soldados estrangeiros que vinham degolar seus filhos e suas esposas, os combatentes exortando a própria Liberdade a ombrear-se com aqueles que a defendiam…
E o refrão de arrepiar:

“Às armas, cidadãos,
formai vossos batalhões!
Marchemos, marchemos!
Que um sangue impuro
encharque o nosso solo!”

Enquanto isso, por aqui o sol da liberdade teria brilhado como consequência do brado retumbante de um príncipe estrangeiro que resolveu mudar sua devoção sabe-se lá se por motivos nobres ou por mero pragmatismo político; afinal, uma das cartas que o levaram a soltar o grito do Ipiranga foi a da esposa, Maria Leopoldina, advertindo-o de que “o pomo está maduro, colhe-o já, senão apodrece”.

Aliás, o chamado Hino da Independência é bem mais viril e altaneiro, não tanto pela música que D. Pedro I teria composto algumas horas depois do grito, mas em razão dos versos de Evaristo da Veiga, professor que simpatizava com os poetas da Inconfidência Mineira.
Não há nada, no Hino Nacional inteiro, com impacto remotamente equiparável ao deste refrão:

“Brava gente brasileira,
longe vá, temor servil;
ou ficar a Pátria livre,
ou morrer pelo Brasil!
Ou ficar a Pátria livre,
ou morrer pelo Brasil!”

Traduzem o calor e as paixões do momento: Evaristo os compôs antes mesmo do grito, em agosto de 1822. Uma de suas mutações acabou se casando com a moldura sonora de D. Pedro I.

Já a letra de Osório Duque Estrada só foi acoplada ao Hino Nacional em 1909, depois de vencer um concurso realizado três anos antes. Do membro nº 2 da Academia Brasileira de Letras só poderia mesmo esperar-se algo tão artificial, rebuscado e flácido.
Ideia maluca: o Geraldo Vandré de outrora seria o nome ideal para compor um Hino Nacional que realmente fizesse jus ao povo brasileiro. Uma síntese de “Disparada”, “Caminhando” e “Paixão Segundo Cristino”.
Não sei se o Vandré atual daria conta do recado. Provavelmente, não. Agora ele só faz hinos para a FAB.

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