APOLLO NATALI: “A FLOR E O PASSARINHO”.

Tem uma florzinha roxinha meio azulada grudada no chão do meu portão. Chove e ela está toda encolhidinha. Assim que o sol der uma espiadela no pedaço, ela vai se espreguiçar, sorrir, se abrir.

É rasteira mas é só se achegar a um pedacinho de parede e ela se estica toda, e vai se agarrando, e vai subindo. No chão e na parede mãos invisíveis espalham tinta de cores mil e está pronta a pintura da flor que faz trepidar o coração. Ela olha para mim, olhinhos brilhantes, a menina feliz. Só falta falar.

Mas ela fala! Está me dizendo agora mesmo que eu posso sentir Deus só de olhar para ela. Encoste em mim a palma da tua mão, numa concha, faz carinho, diz ela, gargalhando gostosamente, você vai se arrepiar com a mensagem que vem lá do céu através de mim.

Eis senão quando, caminhando sobre a flor chega um pardal, atravessa o portão e alcança a porta da frente. Percorre a sala, sobe a escada encurvada rumo aos quartos de cima, olha, espia, volta saltitando, engraçadinho, pelos degraus.

Que confiança é essa, menina? Sim, porque é uma passarinha mãezinha que recolhe migalhas de pão no chão e deposita no bico do filhote. Sim, porque ela trouxe o filho para comer e passear pela minha casa.

A pequenina menina e seu filhote aparecem por lá de manhã e à tarde. Quando vão embora nem olham para trás. Nem dizem até logo. Sem se despedir, me deixam o peito apertado.

Mas eles voltam no dia seguinte, eu os espero, a minha casa está aberta para eles todas as manhãs e todas as tardes.

A flor que se fecha com a chuva, se abre com o sol, e gargalha com sua boquinha lindamente roxinha-azulada-princesinha, me diz, triste, que ela não vai estar lá por toda a vida.

Suspira e profetiza que um dia qualquer aquela pintura de Deus abandona o portão, a parede velha, a flor, e vai embora para sempre.  O pardal mãezinha também me avisa que a vida dos pássaros é breve e logo ela e seu filhinho não vão voltar mais.

Florzinha, pardalzinho, ouçam, eu também entro e saio da minha casa todo santo dia, e vai chegar um momento em que vou entrar e não vou voltar mais. A mando de um poder maior, chega também para mim o tempo de ir embora. Saio carregado por quatro mãos agarradas àquelas alças douradas, sagradas, que sustentam corpos sem vida.

Mas não vai terminar nunca a festa de cores e de vida intensa na companhia desses meus amiguinhos.

Quando eles voltarem amanhã e tornarem a encher de alegria meu velho coração, vou correndo fazer um pedido aos dois. Para que supliquem ao poder maior deixar encontrar-me com eles no outro lado da vida, em algum portão, alguma parede velha aconchegando uma flor roxinha-azulada-princesinha, alguma escada encurvada para mamãe passarinho subir… (por Apollo Natali)

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