NOBEL PARA DYLAN? FOI SÓ UMA “ADMINISTRAÇÃO JUDICIOSA DA MARCA”…

O pitaco do editor

Grande desafio para um jornalista é escrever sob pressão, quando a edição está fechando e todos esperam que, de um jeito ou de outro, ele produza qualquer coisa aceitável para preencher um dos últimos espaços ainda abertos na diagramação.

 

Da primeira vez que me atiraram tal responsabilidade nas costas, novato, projetei mal o esqueleto da notícia e o editor, percebendo que o prazo inevitavelmente estouraria, passou a incumbência a um colega mais experiente. Fiquei arrasado, levei uns 10 minutos para conseguir me levantar e ir embora. Como o corvo de Poe, só conseguia pensar em duas palavras: nunca mais!

 

Dito e feito. No resto da minha longa carreira, sempre consegui me virar nessas ocasiões. Atuando como administrador de crises, p. ex., fui o autor da nota com que o WTC de São Paulo fixou sua posição sobre o ataque às torres gêmeas, escrevendo umas 50 linhas irrepreensíveis em apenas 20 minutos, enquanto toda a diretoria da instituição esperava na sala ao lado para dar seu OK. A nota, aprovada sem ressalvas, foi reproduzida na imprensa escrita ou citada na eletrônica pelo menos um milhar de vezes.

 

Virou hábito. Durante o Caso Battisti, p. ex., era sempre eu quem respondia em primeiro lugar a cada situação ou evolução importante, expedindo artigos para Deus e todo mundo em, no máximo, duas horas. Assim, a posição e o enfoque do comitê de solidariedade saíam na frente e influenciavam o de muitos articulistas da blogosfera, conforme desejado.

Passei a preferir um texto escrito no calor dos acontecimentos, mal a notícia chega, do que um elaborado no dia seguinte, depois de muita reflexão e de ler o que os colegas da grande mídia escreveram, aqui e no exterior. Pode ser um pouco de soberba, mas me sinto mais jornalista atuando nas mesmas condições dos que estão na ativa. 
 

Minha carreira profissional terminou cedo demais, por preconceitos relativos tanto a idade quanto (principalmente) a posições politico-ideológicas, e isto é duro para qualquer um engolir. Nem que seja apenas para mim mesmo, sinto-me bem demonstrando que, 14 anos depois que me fizeram pendurar as chuteiras, ainda poderia estar jogando na divisão principal. 

 

Foi com este espírito que redigi, nesta 5ª feira (13), o post Bob Dylan é Prêmio Nobel de Literatura. Que tal também o Messi, pela poesia dos seus gols?. Entrou no ar às 11 da matina, menos de uma hora depois de o UOL ter mancheteado o fato.

 

Está longe de ter sido o melhor que criei de bate-pronto, mas não poderia ser de outra maneira: nunca dei muita importância a quem ganha ou deixa de ganhar o Nobel, Oscar, Prêmio Esso de Jornalismo e outros que tais. Então, fiz o texto zombeteiro que acabaria fazendo de qualquer jeito, em uma hora ou dez. Se João Gilberto ensinou o Caetano Veloso a ser desafinado, O Pasquim me ensinou a nunca levar a sério o que não merece ser levado a sério (ou seja, quase tudo no inferno pamonha do capitalismo)…

 

Lendo a coluna de hoje (14) do Hélio Schwartsman, constatei que o schoolar brilhante foi, basicamente, na mesma direção do que eu. Isto é gratificante, até, por evidenciar que, apesar do sisudo patrulhamento cricri e do massacre dos humoristas do Charlie Hebdo, a irreverência de 1968 está viva.

 

Leiam e opinem.

TRADIÇÃO E POPULISMO NO NOBEL.

O Prêmio Nobel de Literatura foi para um… músico. Conceitualmente, não chega a ser um problema. Homero, o pai da literatura, pode ou não ter existido como pessoa física, mas não há muita dúvida de que o trabalho a ele atribuído fixa a tradição dos aoidoí, os menestréis que cantavam em versos.

 

Neste caso, porém, o comitê Nobel precisa explicar por que só tomou a decisão de devolver a tradição lírica à literatura agora, com mais de cem anos de atraso.

 

Outra dificuldade da Academia Sueca será lidar com as incômodas listas de ignorados, que agora ficam potencialmente bem vastas. Com efeito, o rol de escritores esquecidos pela Academia impressiona mais do que muitos dos autores que foram laureados. O primeiro time reúne nomes como Tólstoi, Tchekhov, Zola, Mark Twain, Proust, Rilke, Brecht, Joyce, Borges. O segundo traz gente como Sully Prudhomme, Rudolf Eucken, Verner von Heidenstam, Frans Sillanpää.

 

A partir de agora, podemos perguntar também por que Dylan e não Leonard Cohen, ou Paul Simon?

Antevisão de como vai sentir-se aceitando o Nobel?

Minha impressão é a de que os comitês que decidem o Nobel, a exemplo do ocorre no mundo inteiro, não resistem a um pouco de populismo. Não é nada muito descarado, mas algo que pode ser descrito como administração judiciosa da marca Nobel.
 

Qualquer nome que seja escolhido inevitavelmente recebe críticas, que o comitê acaba incorporando. Durante muito tempo, as acusações mais frequentes eram de machismo e eurocentrismo. Não demorou para que aparecessem entre os laureados em literatura mais mulheres e alguns nomes africanos e asiáticos.

 

Outras vezes, a Academia foi criticada por escolher autores obscuros que escrevem em línguas impenetráveis. Aí, o antídoto é premiar gente como Dylan, que encanta multidões e compõe em inglês. Assim, na média, o comitê acaba acertando.

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