MÁRIO SÉRGIO CONTI: “A TOUPEIRA DA REVOLUÇÃO DESCEU AO INFERNO” QUANDO CUBA PASSOU A APOIAR-SE NA URSS.

Dentre os muitos artigos publicados desde o anúncio da morte de Fidel Castro,  destaco os principais trechos de LOUVADO SEJA O MERCADO (o título é irônico), do bom Mário Sérgio Conti, que traduz admiravelmente os sentimentos da minha geração, a de 1968: o entusiasmo inicial com a mais romântica das revoluções, seguido pelo desencanto depois que, morto Che Guevara, Cuba abdicou de sua independência política em troca da proteção militar e ajuda econômica da URSS, aceitando tornar-se apenas outro dos peões soviéticos no tabuleiro da guerra fria:

. O improviso e a teatralidade latina do Líder Máximo eram uma revolução retórica dentro da revolução real. A União Soviética se mantivera fiel a suas origens livrescas, racionalistas e filosofantes. Cuba contrapunha juventude e aventura à escolástica decrépita do socialismo à la Stalin. A revolução ficou pop.

 

[O filósofo, jornalista, escritor e professor francês Regis] Debray diz que Castro tinha ‘mentalidade narrativa, localista e anedótica’. Não se ocupava de teoria, fugia do debate de ideias e não ouvia os adversários. Lia muito, mas só sobre história, pois era ‘obcecado com os historiadores do futuro e com sua imagem póstuma’.

 

Com Che Guevara, “a revolução ficou pop”.

O homem do Livro era Che, que lera Conrad, Lorca e Cervantes na adolescência. Era médico e estudara economia; buscava embasar a política na ciência. Espírito aberto, chamou a Cuba o trotskista Mandel e o maoísta Bettelheim, além de Sartre e de Beauvoir. Discutiu com eles os rumos do socialismo.

 

Concluiu que, para salvá-lo da burocratização, era preciso internacionalizá-lo. Escorou-se no Debray de Revolução Dentro da Revolução, teorização da experiência cubana que apostava em focos guerrilheiros rurais e escanteava os trabalhadores urbanos. Toda uma geração de revolucionários latino-americanos foi derrotada junto com Che.

 

Castro passou a apoiar mais e mais, e a se apoiar, na URSS, que morreu antes dele. Ironicamente, o seu internacionalismo, de vertente estatal e geopolítica [Ou seja, não o internacionalismo revolucionário dos marxistas, mas sim o internacionalismo anticolonial de libertadores como Bolivar], vingou: Angola, Namíbia e a África do Sul não teriam se libertado, nem o apartheid seria vencido, sem a intervenção cubana. Mandela repetiu até morrer que Castro era um grande herói africano. 

Já Fidel a levou de volta ao decrépito realismo socialista

A toupeira da revolução desceu ao inferno. O socialismo sumiu de vista. A política se tornou o ofício preferencial de patifes. A oralidade rebelde foi suplantada pelo marketing do conformismo. A juventude pop virou item de consumo. 
Submeteram-se todos ao verdadeiro Líder Máximo desse mundo maravilhoso, o mercado.

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