APÓS A DERROCADA DO VELHO POPULISMO, É HORA DE NOS VOLTARMOS PARA OS NOVOS ESPAÇOS SOCIAIS DE LUTA ANTICAPITALISTA.

É das mais oportunas e interessantes a análise dos desafios atuais da esquerda brasileira, que o filósofo italiano Antonio Negri produziu após visitar recentemente nosso país a convite da Fundação Rosa Luxemburgo, que acaba de disponibilizá-la em PDF (acesse-a aqui). 

Para quem não se lembra do quanto se falou sobre isto durante o Caso Battisti, Negri foi um dos intelectuais de esquerda mais injustiçados durante a caça às bruxas subsequente ao atentado contra Aldo Moro, quando o estado de Direito coexistiu na Itália com práticas escrachadamente ditatoriais por parte do Judiciário e do aparelho repressivo. A perseguição foi tão ostensiva que ele passou quatro anos e meio em prisão… preventiva!

O artigo Para onde vai o PT? também pode ser lido, na íntegra, no jornal eletrônico Congresso em Foco (clique aqui). Ele aponta, p. ex., como um dos erros mais graves do partido o de ter reprimido “as lutas modelos Occupy de 2013-2014 a ponto de desvirtuar o seu significado e permitir que a direita tivesse hegemonia sobre elas”. 

Eu, que as apoiei incondicionalmente no momento dos acontecimentos, só posso concordar em gênero, número e grau. Quando via os manifestantes contra a Dilma ocuparem a av. Paulista de ponta a ponta durante a acumulação de forças para o impeachment, eu amaldiçoava o PT por sua miopia e legalismo, ao alienar aqueles que, noutras circunstâncias, poderiam ter ficado ao seu lado.
Como o texto do Negri é muito longo para este espaço, recomendo sua leitura nos links acima e reproduzo o trecho que, para mim, é sempre o mais importante: aquele em que se discute o que fazer?. A luta continua e a principal lição a ser tirada do catastrófico 2016 é que seu foco têm de ser as ruas, não a Praça dos Três Poderes.

Eis, portanto, as cinco “linhas de recomposição e de programa para reconstruir uma força antagonista” que Negri alinhavou a partir de “encontros com os companheiros dos movimentos, atentos à atual fase da crise”:  

1. A denúncia da violência da polícia, do Estado. Uma violência que não se dirige somente contra a população negra, mas contra qualquer iniciativa social – violência institucional, numa situação em que a exceção é norma. É tocante a normalidade de uma violência escravagista e colonialista, mantida e desenvolvida nas e pelas instituições do Estado. Neste ponto, a atenção unânime concentra-se no desenvolvimento de estratégias de resistência que permitam evitar as condições de excepcionalidade sofridas.

Emerge aqui uma característica do debate autônomo brasileiro no qual, dentro das qualificações de formas de luta e de programa, a demanda pela construção de uma política do desejo se torna central. Entendem-se assim ações políticas em que prevalecem componentes do desejo, formas de agregação nas quais os pontos motores são os aspectos criativos do fazer política. Pacifismo contra a polícia? Certamente não, mas criações alegres de formas de resistência contra a violência e a brutalidade cega do poder. Compreende-se aqui por que Félix Guattari seja ainda tão citado no Brasil.

2. Há lutas em curso, sobretudo nas escolas secundárias. Lutas que envolveram grande parte dessas instituições em São Paulo e que também passaram para o estado do Paraná. São lutas pelo financiamento público da escola e pela autonomia no ensino. Lutas longas, ocupações que duram meses, conduzidas pelos garotos e garotas e apoiadas pelas famílias. A essas lutas pelas escolas unem-se, com bastante frequência, lutas de estilo argentino, parte dos movimentos feministas, juntos contra a violência sexual e contra a violência sobre a reprodução (reivindicações: garantia de renda, trabalho doméstico remunerado, etc.).

Em toda a América Latina, seguem, após a derrota dos governos progressistas, sobretudo lutas nas escolas e lutas conduzidas pelas mulheres. Trata-se de novas frentes sociais – centrais à luta de classe. O conhecimento e a reprodução constituem, de fato, nós essenciais que o capital deve dominar –, formas diretas da emergência de um tecido biopolítico sobre o qual se dá o confronto de classe. É ali que se abrem novos espaços sociais de luta anticapitalista.

3. E depois a luta das populações negras, antes de tudo contra a chacina dos inocentes, ou seja, a carnificina contínua dos jovens às bordas das favelas. Mas a questão racial não emerge somente em relação ao genocídio da juventude negra – a questão racial se dá em todas as partes da sociedade brasileira, constitui a exceção sobre a qual se funda a constituição material do país. Também a questão da pobreza é completamente ligada à dimensão racial-escravagista da sociedade brasileira.

Não dá para cogitar que o Brasil entre plenamente na democracia sem que a questão racial seja resolvida. As lutas dos negros e negras constituem, portanto, a verdadeira sublevação da sociedade brasileira. Discuti com jovens companheiros e velhos ativistas negros esta sua conclusão: sem a direção de uma força militante negra, será impossível construir qualquer forma de organização autônoma no Brasil, assim como qualquer tipo de reviravolta política de libertação.

4. As principais forças que hoje se movem no terreno social em São Paulo, particularmente o movimento contra a tarifa dos transportes urbanos e o movimento dos sem-teto, conduzem a discussão sobre um terreno instantaneamente político. Esses movimentos, protagonistas das lutas de 2013-2014, o primeiro por ter iniciado, o segundo por ter somado a força de dezenas de milhares de famílias sem-teto, são também os que têm uma consistência numérica (quadros de organização) e um respaldo importante da massa.

São forças que produzem programa político na metrópole e que, de uma nova forma, constituem contrapoderes sociais no âmbito metropolitano. Na discussão com esses companheiros, o tema do comum é central, tornando-se imediatamente evidente – assim como é – pelas lutas contra as tarifas do transporte e também pela moradia. O comum pode ser traduzido – dizem esses companheiros – em objetivos imediatamente viáveis. Além disso, o debate destacou a importância da greve social como forma de luta que pode unificar as forças que se agitam no contexto metropolitano. Resta o fato de que as grandes manifestações de massa (e pacíficas) são ainda consideradas uma arma fundamental.

5. O que fazer? A conclusão de muitos desses companheiros de movimento está baseada no fato de que o PT tornou-se uma esquerda branca, pálida em relação à questão racial e mole ao confrontar políticas neoliberais. O partido perdeu a relação com a sociedade e não poderá mais ser uma locomotiva para o desenvolvimento político. Há, então, que se encontrar forças políticas e construir uma nova organização social e política partindo dos movimentos. A autonomia dos movimentos é agora fundamental para se começar uma nova temporada política.
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