UMA HIPÓTESE DIFERENTE SOBRE O TRIPLEX DA DISCÓRDIA

Toque do editor

Se você, caro leitor, chegou a este blogue e a este post, é provável que tenha sido em busca de um enfoque alternativo à mesmice dominante na web – seja por a muitos faltarem conhecimentos e imaginação para irem além do óbvio, seja porque outros tantos não ousam expor-se à ira dos grupos de pressão atuantes. 

Uma das principais características do náufrago tem sido a de sempre marchar na contramão da intolerância e do sectarismo, estimulando o exercício do pensamento crítico. 

Pelo menos aqui, as pautas não são determinadas por nenhum rolo compressor virtual. Todos os temas são discutidos livremente e todos os autores que escrevam textos interessantes são admitidos, desde que não defendam abominações como a pedofilia, o terrorismo islâmico ou o capitalismo.

Em meio à montoeira de análises previsíveis sobre o interrogatório do ex-presidente Luiz Inácio Lula de Silva, a grande maioria com viés (pró-réu ou pró-juiz) facilmente identificável por quem é do ramo, encontrei esta pérola do Marcelo Coelho, divergindo diametralmente de quantos consideram obrigatórias as digitais do acusado na arma do crime para que este possa ser condenado.

Modestamente, admito que ainda não tenho uma opinião formada sobre o entendimento que ele propõe. Precisarei pensar bem sobre isto.

Mas, também para os leitores tal reflexão será, no meu entender, benéfica, daí eu estar publicando o artigo, com a ressalva de que ele não expressa necessariamente a posição do blogue. (Celso Lungaretti)

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NÃO É NECESSÁRIO SER PARANOICO PARA DUVIDAR DA VERSÃO DO LULA

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Um artigo de Marcelo Coelho

Lula pode ser condenado por crime de corrupção? Vejamos o que diz o Código Penal. Corrupção passiva, segundo o artigo 317, é  “solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem”.

 

A definição, como se vê, é ampla. O político ou funcionário público não precisa dar nada em troca do que recebeu. Não ajudar uma empreiteira em licitações, aprovar lei favorável a um setor econômico, conceder financiamentos especiais a esta ou aquela empresa. Basta solicitar uma propina, mesmo que não cumpra sua parte no trato, para ser corrupto.

 

Em seu depoimento ao juiz Sergio Moro, o ex-presidente foi literal em suas negativas a respeito do apartamento no Guarujá, que foi visitar em companhia de Léo Pinheiro, presidente da OAS.

 

“Não solicitei, não recebi, não paguei e não tenho nenhum triplex”, disse Lula.

 

Todo réu, em última análise, tem apenas duas opções a seu dispor: ou confessa ou o nega o crime de que é acusado. Mesmo diante de provas contundentes, é sempre possível dar explicações elaboradíssimas, e no fim cabe ao juiz acreditar ou não, fazer a avaliação subjetiva do que é plausível e do que não é.

 

Um marido entra em casa e vê a mulher, nua, no quarto com o vizinho. Adultério!, conclui. Há um largo folclore, contudo, em torno das desculpas invocadas pelo casal pego em flagrante. “Sou sonâmbulo”, diz o vizinho, “e entrei aqui pensando que fosse minha cama.” “Ainda bem que você chegou”, diz a mulher, “este canalha tentava me violentar.”

Lula se explicando durante o interrogatório da última 4ª feira

Podem persistir ao máximo nas explicações, e dizer ainda que, se o marido não está acreditando, é porque sofre de mentalidade preconceituosa, ou simplesmente tem um espírito vingativo, paranoico e persecutório.

 

Lula pode perfeitamente sustentar que não solicitou nem recebeu de presente o apartamento na Praia das Astúrias; não há gravação, troca de e-mails ou testemunhas de qualquer conversa nesse sentido entre ele e Léo Pinheiro.

 

Há, todavia, um terceiro ponto no que diz a lei. Considera-se corrupção não apenas solicitar ou receber propina, mas também “aceitar promessa de tal vantagem”.

 

Eis que o presidente de uma das maiores construtoras do país convida Lula a visitar um apartamento no Guarujá. Ele vai, acompanhado de sua mulher, Marisa Letícia.

 

Pelo que declarou Lula ao juiz Moro, Léo Pinheiro comportou-se como um “vendedor”. Era apenas uma proposta de negócio, não o oferecimento de um presente.

Entra aqui a questão do plausível e do implausível. Se estamos simplesmente diante da venda de um apartamento, aliás modesto, no Guarujá, qual o interesse do empresário – às voltas com contratos milionários e obras gigantescas – em fechar o negócio?

 

Lula diz ter encontrado inúmeros defeitos no apartamento; o imóvel não lhe convinha. A narrativa pode ser perfeitamente verdadeira. Valeria para descrever a conversa com um corretor de imóveis comum. Numa conversa com o presidente da OAS, poderia refletir, contudo, o desejo de receber um presente melhor.

 

Se Lula estivesse negando qualquer oferta de favorecimento, teria sido melhor nem mesmo haver visitado o apartamento. Um político incorrupto recusaria imediatamente o passeio. Seria por ingenuidade que Lula aceitou uma visita ao apartamento, achando que se tratava de uma proposta comercial de Léo Pinheiro?

 

Quem quiser que acredite; não é necessário ser um perseguidor paranoico, entretanto, para duvidar dessa versão.

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