HÁ ALGO DE PODRE NO REINO DA LAVA-JATO

Desde o tempo da Operação Satiagraha (2004), uma mera briga de gangsters empresariais disputando encarniçadamente um mercado muito promissor (sem nenhum motivo real para a esquerda alinhar-se com um ou outro lado), eu sustento que a corrupção é intrínseca ao capitalismo e que o combate à corrupção é uma bandeira de direita.

 

Mas, a roubalheira se tornou tão desmedida e descarada no Brasil que eu acabei vendo com alguma simpatia a Operação Lava-Jato. Apesar de sua faina me parecer equivalente a enxugar gelo (com o tempo, as mazelas sempre acabam voltando, pois o enriquecei! capitalista as alimenta), parecia-me haver, pelo menos, honestidade de propósitos por parte de Sérgio Moro e dos promotores.

 

Nesta semana, contudo, a ação concertada com O Globo me deixou com a pulga atrás da orelha, por ser evidente a forçação de barra para a produção de um fato político de extrema gravidade: a derrubada de um presidente da República e a escolha de outro por via indireta. Se for para trocarmos de governante a cada ano, é melhor partirmos logo para o parlamentarismo, em que isto se dá com mais naturalidade; no nosso presidencialismo a mudança é muito traumática.

 

Last but not least, há enorme chance de o beneficiário vir a ser um tucano; e não por acaso, pois os últimos acontecimentos têm aquele jeitão inconfundível de jogo de cartas marcadas e de armação ilimitada.

Ora, há uma enorme diferença entre uma agremiação fisiológica como o PMDB, que procura estar sempre presente nos governos de outros partidos em posição de destaque, vendendo-lhes caro seus préstimos, e o PSDB, que tem um projeto de poder (neoliberal) e quadros competentes para tocá-lo adiante. 

 

Michel Temer dificilmente faria/fará seu sucessor, mas um tucano eleito para cumprir mandato tampão de um ano e alguns meses não deixará escapar tal oportunidade de preparar o caminho para a vitória em 2018, que pode desdobrar-se em vários outros mandatos (em São Paulo, p. ex., está em curso o sexto consecutivo).

 

Afora a possibilidade de que qualquer erro de cálculo venha a alavancar a escalada de algum dos outsiders nefastos que espelham-se em Donald Trump.

 

Advogados, promotores e juízes que se agrupam para desenvolver, explicita ou implicitamente, uma atuação política, tendem a querer erradicar os males da sociedade por meio de sentenças inspiradas na Razão e na Justiça que eles acreditam personificar. Ou seja, são propensos ao autoritarismo, Robespierres em miniatura.

Pesadelo jacobino: a revolução devorando seus filhos.

 Mas, brasileiro cordial que sou, não quero saber de guilhotinas por aqui. Nem de um tipo de militância jurídica que mais parece ser uma continuação da política por outros meios.
 

Daí estar reproduzindo uma notícia da competente colega Mônica Bergamo que veio bem ao encontro das minhas avaliações e preocupações.

O advogado Antonio Claudio Mariz de Oliveira, que defende Michel Temer na área criminal, afirma que a gravação da conversa entre o empresário Joesley Batista, da JBS, e o presidente da República ‘parece que foi coisa preparada’. 

Segundo Mariz, (…), o empresário foi ao Palácio do Jaburu, onde se encontrou com o presidente e gravou a conversa, ‘para provocar [o presidente] e fazer uma delação premiada’. 

Por esse raciocínio, Batista teria tentado induzir o diálogo com Temer, usando depois a gravação como moeda de troca para que o Ministério Público Federal aceitasse fazer um acordo de colaboração com os donos da JBS. 

Joesley Batista: delação premiada ou negócio da China?

‘Ele lançou uma infâmia sobre o presidente e foi embora do país’, afirma. 

Joesley teve permissão das autoridades para viajar a Nova York. 

‘Quem está examinando essa delação com cuidado chega à conclusão de que os benefícios [que Joesley obteve com a delação] são inusitados e inusuais. Dificilmente um delator porta passaporte. Eles não apenas mantiveram o documento como estão mudando o domicílio fiscal [para os EUA]. Causaram prejuízos institucionais e morais ao Brasil mas tiveram ganhos, comprando dólar na baixa e comprando ações da própria empresa por preços mais baixos’, afirma Mariz. 

A JBS comprou dólar na véspera do vazamento dos áudios da delação premiada da empresa. No dia seguinte, o preço da moeda explodiu no Brasil. A Comissão de Valores Mobiliários está investigando a operação. 

‘Eles receberam salvo-conduto por todos os crimes e delitos que cometeram. Tiveram como pena a devolução de uma parte irrisório do dinheiro [que dizem ter gastado em propina], tudo isso com o beneplácito das autoridades’, diz o advogado

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