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O QUE O JOHN LENNON TEM A VER COM MAIS UMA CHANCHADA EM CARTAZ NA PRAÇA DOS TRÊS PODERES? SÓ O TÍTULO DO SEU LIVRO…

O livro do mês é Um atrapalho no trabalho (Brasiliense, 1985, 243 p.), título em português da compilação dos melhores contos reunidos nos dois únicos livros de John Lennon: In his own write (1964) e A spaniard In the works (1965).

Não tem nada a ver com a horrorosa escolha da filha do Roberto Jefferson para ministra do Trabalho e a barafunda legal causada pela invasão, por parte da Justiça, da prerrogativa que o Executivo tem de cometer tantos erros crassos quantos a Constituição lhe permitir cometer, só arcando com as consequências num segundo momento.

Censura prévia dos nomes escolhidos para o ministério é outra extravagância introduzida por um Judiciário que, face a um presidente da República fraco, deu de extrapolar suas atribuições, aparentemente esquecido do precedente histórico: homens de leis que quiseram impor à sociedade o culto moralista da razão, da virtude e da regeneração foram os jacobinos de Robespierre, aquele que primeiramente perdeu a cabeça no sentido lato, depois no estrito também.

Não precisamos de guardiães morais da República. Fazem-me lembrar demais as senhoras de Santana e outros(as) voluntários(as) do autoritarismo que, durante a ditadura militar, moviam céus e terras para limitarem os direitos alheios.
Jamais devemos dar corda para esse tipo de gente, até porque, se hoje seu alvo é alguém que desprezamos, o precedente certamente se voltará adiante contra alguém que prezamos.
A rua é sempre de duas mãos e, depois das longas ditaduras que nos foram impostas no século passado, temos de zelar ciosamente pela liberdade que ainda possuímos.
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GLOBO PEDIU ENCONTRO RESERVADO COM TEMER, RECEBEU PUXÃO DE ORELHAS E AMBOS VOLTARAM ÀS BOAS…

Algum dia saberemos exatamente o que as Organizações Globo esperavam obter participando da tosca tramoia para a derrubada do presidente Michael Temer. 

 

Desde o primeiro momento, macaco velho do jornalismo que sou, percebi e escrevi que se tratava de uma ação concertada entre o procurador-geral Rodrigo Janot, o Grupo JBS e a Globo. 

 

Não excluo a possibilidade de envolvimento de ministro(s) do Supremo Tribunal Federal. Acho, contudo, mais plausível que o inexperiente da turma tenha servido de inocente útil e não sido um cúmplice; e que a contemporização de outros com suas decisões juridicamente indefensáveis se explique pelo espírito de corpo e por receio de navegarem contra a corrente da opinião pública.

 

Sete meses depois, muita coisa mudou.

 

A tramoia fracassou, principalmente, porque os donos do PIB avaliaram bem os cenários que adviriam caso ela tivesse êxito e concluíram: ruim com Temer, pior sem ele. Estenderam-lhe, então, a mão forte de que necessitava para dar a volta por cima.

 

As várias forças políticas constataram que o cidadão comum não se empolgava com a perspectiva de um novo processo de impeachment, que paralisaria muita coisa no país durante vários meses  e depois levaria à escolha de um presidente-tampão para governar por um semestre ou pouco mais. Ademais, nomes e mais nomes foram cogitados para a cadeira presidencial, sem que nenhum deles decolasse. Então, os grandes partidos lavaram as mãos, não se empenhando pra valer em defenestrar o Temer.

Nem mesmo os ditos progressistas, que usam e abusam da rejeição à reforma da Previdência como trunfo propagandístico, mas secretamente torcem para Temer torná-la fato consumado, descascando tal abacaxi antes de 1º de janeiro de 2019, quando esperam reassumir a presidência da República. 

 

Pois até as pedras das ruas sabem que, na ponta do lápis, não há como manter a Previdência nos moldes atuais, se continuarmos seguindo as regras do jogo capitalista: as receitas jamais empatarão com as despesas e, mais dia, menos dia, a casa vai cair. 

 

A verdadeira alternativa é a superação do capitalismo e a fixação do atendimento das necessidades humanas como prioridade máxima da sociedade; aí sim o direito dos idosos a um final de vida digno independerá de cálculos mesquinhos. 

 

Mas, infelizmente, a força hegemônica da esquerda hoje foge da revolução como o diabo da cruz. Então, a reforma selvagem da Providência acabará mesmo nos sendo imposta pelo poder econômico, enquanto os crocodilos de uma esquerda desvirtuada derramarão copiosas lágrimas retóricas.

 

De resto, a delação premiada do Grupo JBS fez água por todos os lados, evidenciando-se, ela própria, como um caso de polícia. Ficou constrangedor para a Globo ter tentado vender peixe tão podre aos videotas.

 

E a subsequente revelação do seu envolvimento com maracutaias do esporte veio ao encontro da velha pérola da sabedoria popular: macaco, olha o teu rabo!

À Globo só restou a opção de, capitulando, salvar do desastre o que desse; menos a dignidade, claro, porque esta era o preço que teria de pagar por sua trapalhada golpista, se não quisesse ser privada do$ benefício$ de um bom relacionamento com o governo federal

Eis, então, que acabam de vir a público os entendimentos sigilosos entre a Globo e Temer para restabelecimento do status quo ante. Tratava-se da caçapa mais cantada da face da Terra. Quem há meio século se coloca sempre ao lado do governo, qualquer que seja ele, parecia ter endoidado ao hostilizar um presidente… de direita! Agora as coisas farão sentido de novo.

 

Segundo a Folha de S. Paulo, Temer comemorou a vitória contando a três aliados o que rolara no “encontro reservado no início de outubro em São Paulo com João Roberto Marinho, do Grupo Globo, para discutir a cobertura de seu governo pelos veículos da empresa, além de pedir apoio para a reforma da Previdência”. Ou seja, fez questão de que algum grande veículo noticiasse a reunião mas, noblesse oblige, fingiu que o vazamento não se deu por vontade dele. Acredite quem quiser.

 

Pelo que a Folha diz que os três patetas disseram, Temer “reclamou da cobertura do caso JBS pelos veículos do grupo, que tinha, segundo o político, o objetivo de derrubá-lo” e bateu pesado no editorial de O Globo de 19 de maio, intitulado (e sugerindo) A renúncia do presidente.

 

Por mais que não gostemos do Temer, lava nossa alma saber que a Vênus platinada desceu do seu pedestal e foi humildemente pedir-lhe desculpas, como qualquer criança que faz traquinagem e recebe um puxão de orelha. O Brizola adoraria saber disto.

QUE NATAL QUEREMOS, O DO TEMPLO E SEUS VENDILHÕES? OU O NATAL CRISTÃO DOS EXPLORADOS, HUMILHADOS E OFENDIDOS?

Nascido numa estrebaria, era filho de José, o carpinteiro

Esqueçam o Papai Noel que a Coca-Cola vestiu com suas cores e a apoteose do consumismo. O que o mundo realmente celebra (ou deveria celebrar) no Natal é a saga de um filho de carpinteiro que trouxe esperança a pescadores e outras pessoas simples de um país subjugado ao maior império da época.

 

Os primeiros cristãos eram triplamente injustiçados:

  • economicamente, porque pobres;
  • socialmente, porque insignificantes;
  • e politicamente, porque tiranizados.

Jesus Cristo nasceu três décadas depois da maior revolta de escravos enfrentada pelo Império Romano em toda a sua existência.

 

As mais de 6 mil cruzes fincadas ao longo da Via Apia foram o desfecho da epopeia de Spartacus, que, à sua maneira rústica, acenou com a única possibilidade então existente de revitalização do império: o fim da escravidão. Roma ganharia novo impulso caso passasse a alicerçar-se sobre o trabalho de homens livres, não sobre a conquista e o chicote.

 

Vencido Spartacus, não havia mais quem encarnasse (ou pudesse encarnar) a promessa de igualdade na Terra.

Kirk Douglas no papel de Spartacus 

Jesus Cristo a transferiu, portanto, para o plano místico: todos os seres humanos seriam iguais aos olhos de Deus, devendo receber a compensação por seus infortúnios num reino para além deste mundo.

 

Este foi o cristianismo das catacumbas: a resistência dos espíritos a uma realidade dilacerante, avivando o ideal da fraternidade entre os homens.

 

Hoje há enormes diferenças e uma grande semelhança com os tempos bíblicos: o império igualmente conseguiu neutralizar as forças que poderiam conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização.

 

A revolução é mais necessária do que nunca, mas inexiste uma classe capaz de assumi-la e concretizá-la, como o fez a burguesia, ao estabelecer o capitalismo; e como se supunha que o proletariado industrial fizesse, edificando o socialismo.

 

AS AMEAÇAS DE CATÁSTROFES E O FANTASMA DO RETROCESSO

 

O fantasma a ora nos assombrar é o do fim do Império Romano: ou seja, o de que tal impasse nos faça retroceder a um estágio há muito superado em nosso processo evolutivo.

 

O capitalismo hoje produz legiões de excluídos que fazem lembrar os bárbaros que deram fim a Roma; não só os que vivem na periferia do progresso, mas também os miseráveis existentes nos próprios países abastados, vítimas do desemprego crônico.

E as agressões ao meio ambiente, decorrentes da ganância exacerbada, estão atraindo sobre nós a fúria dos elementos, com conseqüências avassaladoras. Décadas de catástrofes serão o preço de nossa incúria.

“Se os prósperos voltarem as costas aos excluídos, estes morrerão como moscas”

 No entanto, como disse o grande jornalista Alberto Dines, “criaturas e nações cometem muitos desatinos, mas na beira do abismo recuam e escolhem viver”.
 

Se a combinação do progresso material com a influência mesmerizante da indústria cultural tornou o capitalismo avançado praticamente imune ao pensamento crítico e à gestação/concretização de projetos alternativos de organização da vida econômica, política e social, tudo muda durante as grandes crises, quando abrem-se brechas para evoluções históricas diferentes.

 

Estamos em plena contagem regressiva, encaminhando-nos para o momento em que as contradições insolúveis do capitalismo acabarão desembocando numa depressão tão terrível como a da década de 1930; e em que nos veremos gravemente ameaçados pela sucessão de emergências e mazelas que decorrerão das alterações climáticas.

O sofrimento e a devastação serão infinitamente maiores se os homens enfrentarem desunidos tais desafios. Caso as nações e os indivíduos prósperos venham a priorizar a si próprios, voltando as costas aos excluídos, estes morrerão como moscas.

“…a solidariedade, ao invés do egoísmo…”

O desprendimento, em lugar da ganância; a cooperação, substituindo a competição; e a solidariedade, ao invés do egoísmo, terão de dar a tônica do comportamento humano nas próximas décadas, se as criaturas e nações escolherem viver.

 

E há sempre a esperança de que os mutirões criados ao sabor dos acontecimentos acabem apontando um novo caminho para os cidadãos, com a constatação de que, caso se mobilizem e organizem tendo o bem comum como prioridade suprema, eles aproveitarão muito melhor as suas próprias potencialidades e os recursos finitos do planeta.

 

Então, para além deste Natal mercantilizado, que se tornou a própria celebração do templo e de seus vendilhões, vislumbra-se a possibilidade de outro. O verdadeiro: o Natal cristão, dos explorados, dos humilhados e ofendidos.

Se frutificarem os esforços dos homens de boa vontade.

A VOLTA DO LULA À PRESIDÊNCIA É MESMO O QUE NOS CONVÉM? OU SERIA O HOMEM ERRADO NA HORA ERRADA?

Por Celso Lungaretti

Demétrio Magnoli, um dos raros articulistas da grande imprensa que ainda merece ser lido pelos que perseguem lampejos de vida inteligente, faz uma análise exemplar do dilema brasileiro atual:

  • tudo leva a crer que Lula mereça mesmo ser condenado pelo conjunto da obra (e que deveria é estar sendo, mais do que ninguém, repudiado pela esquerda, pois jamais houve tamanha promiscuidade de um partido dito progressista com o grande capital como durante seu reinado!);
  • mas, o processo por corrupção que, em termos de timing, poderia alijá-lo do próximo pleito é o mais discutível dos seis a que Lula responde.

Assim como outros jornalistas que não morrem de amores por Lula, Magnoli é contra uma decisão conveniente ao invés de uma decisão juridicamente consistente. De casuísmo em casuísmo, este país está levando a breca.

Não considero que, se Lula puder concorrer, sua vitória seja favas contadas. Muita água ainda vai passar debaixo da ponte até outubro. Basta, p. ex., haver uma melhora econômica significativa (ainda que seja de fôlego curto, fadada a dissipar-se adiante) no 2º semestre de 2018 para os humores do povo mudarem, como tantas vezes já aconteceu no Brasil.

 

Mas, é à esquerda que me dirijo, pois é a ela que pertenço e o que realmente me importa são as aflições e as agruras dos explorados.

Rendição incondicional ao inimigo

O PT já dava nítidas mostras de esgotamento durante a campanha presidencial de 2014. Nada tinha a propor que trouxesse esperanças ao povo e o impelisse a mobilizar-se para lutar por seus direitos. Apenas satanizava os adversários e até mentia sobre as intenções dos mesmos. Foi com uma pregação eminentemente negativa que conquistou sua vitória de Pirro.
 

Por absoluta falta de ideias, o que fez, no quarto mandato, foi render-se incondicionalmente à pauta econômica do inimigo: entregou o comando da economia a um neoliberal. E nem com um tranco desses o carro pegou…

 

Era a degringola econômica o motor do impeachment. E Dilma não tinha, em 2016, uma mísera proposta a apresentar ao povo, no sentido de tirar a economia brasileira da marcha para o abismo. Nada! 

 

Foi este o principal motivo do seu defenestramento por meio de um piparote parlamentar, tendo a narrativa do golpe servido apenas para que os culpados por inação no auge da crise e pelo abandono do povo sofrido à própria sorte se eximissem de suas enormes responsabilidades.

 

Ora, se tudo der certo para os derrotados de 2016 e eles voltarem o poder unicamente graças ao carisma do Lula como pai dos pobres e ao voto anti-Temer, o que acontecerá? Apenas a tentativa de restabelecer a conciliação de classes num momento muito mais radicalizado da crise capitalista. Lula não é, nem nunca foi, um revolucionário; e a fase histórica do reformismo está definitivamente encerrada no Brasil.

“Lula não é, nem nunca foi, um revolucionário”

Haveria, portanto, o empenho em anular tudo o que Temer fez, sem terem o que colocar no lugar, pois sob o capitalismo e a democracia burguesa o cobertor nunca mais será suficiente para nos cobrir do pescoço aos pés.

A única opção possível é a superação do capitalismo e a reorganização da sociedade tendo como prioridade o bem comum e não o lucro. Mas é exatamente aonde o PT não quer chegar e é justamente para cumprir esta missão histórica que o Lula não serviria nem a pau, Juvenal!

 

Que os companheiros ainda movidos por ideais (e não interesses) ponham a mão na consciência e se indaguem: vale a pena insistir em estratégias e posturas anacrônicas, tão somente para vencer uma eleição que não nos levará à posse do poder efetivo nem nos vai dar meios para sustentar a posição conquistada nas urnas caso o poder econômico decida novamente encerrar o jogo e levar a bola para casa? Ou é hora de reposicionarmos a esquerda e organizarmos o povo para conquistas muito maiores?

 

O Brasil está prenhe de uma revolução. Mas, ela só acontecerá se dermos os passos certos em sua direção. E não é com Lula que faremos tal caminhada.

MINHA AUTOBIOGRAFIA PRECOCE

Celso Lungaretti

Nada de assanharem-se, desafetos e inimigos, pois não estou com o pé na cova e sou de família longeva! Mas, até porque minha militância já ultrapassou meio século, faz sentido que eu às vezes lance um olhar para trás, fazendo um balanço do que consegui ao longo do caminho percorrido e avaliando aonde ele me conduziu.

 

Nesta 5ª feira, 14, nem de longe pensava em postar algo nesta linha, mas às vezes o noticiário é tão chocho que encontro dificuldade para encontrar um assunto que valha a pena abordar, mantendo a promessa que fiz ao lançar este blog, de oferecer pelo menos um texto novo a cada dia. 

 

Então, vou me socorrer da resposta que dei no Facebook ao velho companheiro Sílvio Poggi Nunes; sem querer, ela acabou sendo, em miniatura, algo como a Autobiografia precoce de Eugenio Evtuchenko, um dos livros mais determinantes na minha formação política.

Sílvio Poggi Nunes

A esquerda (não comunista), enquanto gastava energia mas ganhava dinheiro e carguinhos públicos em coisas esdrúxulas, se afastava dos operários; e a direita quieta, observando; e os operários desacreditados e desiludidos, além de esquecidos pela esquerda, foram para a direita, não essa que está na rede social, que não apita nada, mas a direita já organizada, entocada, esperando o momento certo. 

Aí a esquerda não mais encontrará operários, porque estarão na direita, onde encontraram segurança e promessa de abrigo. 

Celso Lungaretti, gosto de ti admiro a tua coragem e lealdade, sofrestes na carne a violência e a bestialidade das botas mal lustradas, e a tentativa de desmoralização de uma esquerda desinformada, paranoica, desleal, má caráter, que te pegou de bode expiatório. SAI DESSA, OU BAIXA A POEIRA.

 

Celso Lungaretti

Sílvio, quando sobrevivi a uma luta que tragou tantos companheiros valorosos, senti que precisava dar um sentido a isso. É o que tenho feito desde então. 

Penso que alguns legados já estão definidos:

  • minha contribuição para a salvação dos quatro de Salvador e de Cesare Battisti;
  • o exemplo que deixo, de que um revolucionário injustiçado por seus companheiros não deve fazer acordos podres mas sim lutar para trazer a verdade à tona, nem que isto demore quase 35 anos e implique suportar estigmatização durante todo esse tempo;
  • a de que revolucionário deve obedecer sempre à sua consciência, sem compactuar com erros desastrosos e práticas vergonhosas, mesmo que tenha de lutar sozinho contra tais distorções (devemos geralmente acompanhar nossa tribo, mas há momentos em que a única forma de mantermos a integridade e a coerência é termos a coragem de seguir adiante como lobos solitários!).

Hoje, com 67 anos, não tenho alternativa se não trilhar até o fim os rumos que tracei para minha militância. Sei que, quase sempre, fui apenas uma voz que clamava no deserto, alertando a esquerda de que ela se encaminhava para desfechos desastrosos sem conseguir alterar a marcha inexorável dos acontecimentos. 

Mas, foi o máximo que eu pude fazer. Ainda assim, restou-me um sabor amargo na boca por, p. ex., assistir à terrível derrota de 2016 depois de todos os alertas que lancei desde a campanha eleitoral de 2014:

  • de que Dilma não estava à altura da crise econômica que enfrentaria caso se reelegesse;
  • de que governo de esquerda com ministro da Fazenda de direita (como o Joaquim Levy) acaba paralisado por esta contradição e se desconstruindo;
  • de que o afastamento da Dilma se tornou irreversível quando a Câmara Federal autorizou o início do processo de impeachment e não adiantava percorrer todas as etapas fixadas na Constituição até o mais amargo fim, sendo preferível a renúncia imediata e o imediato lançamento de uma luta por diretas-já, uma bandeira que seria capaz de unir toda a esquerda;
  • que ao invés de tentarmos derrubar Temer era mil vezes mais importante reagruparmos nossas fileiras sob perspectivas estratégicas e táticas bem diferentes, abandonando as ilusões democratico-burguesas e reconduzindo a esquerda aos trilhos revolucionários.

Hoje qualquer um pode constatar, se não que minhas propostas alternativas resultariam, pelo menos que os caminhos adotados pela esquerda não levaram a lugar nenhum, assim como a lugar nenhum levará a insistência em reconduzir Lula de novo à presidência da República, pois, ainda que sejam superados todos os obstáculos legais, a crise atual do capitalismo inviabiliza a conciliação de classes e condena ao fracasso inevitável aqueles que a expressam, como o Lula.

Então, persistirei até o fim da vida tentando contribuir para a gestação de uma nova esquerda, em substituição à que perdeu o rumo e a moral, jogou nossas bandeiras no chão e desistiu de lutar por uma transformação em profundidade da sociedade brasileira.

Se o possível já não basta para os explorados que temos a missão de representar, só nos resta redescobrirmos a ousadia dos jovens contestadores de 1968: “Sejamos realistas, exijamos o impossível!”.

ÚLTIMAS DECISÕES DO JUIZ DE CORUMBÁ CONTRA BATTISTI SÃO ESDRÚXULAS… NO MÍNIMO! HAVERÁ ALGO MAIS NO PACOTE?

O escritor italiano Cesare Battisti, residente legal no Brasil, acaba de se tornar réu da Justiça Federal de Corumbá (MS) por conta de uma suposta evasão de divisas que teria sido – mas não foi! – cometida quando tentava, com dois amigos, deixar o Brasil em outubro.

 

Digo esdrúxula por alguns motivos, como estes dois: 

— ter ficado muito evidente que a viagem de Battisti e seus dois amigos vinha sendo há muito monitorada pela Polícia, que inclusive revistou o carro na estrada e permitiu que seguissem viagem; 

— por ser uma quantia ínfima que estaria sendo evadida, meros R$ 25 mil (aproximadamente), além de haver suspeita de armação, pois Battisti alega que se tratava da quantia que os três possuíam em conjunto, tendo as notas sido reunidas e o valor total atribuído somente a ele (vale lembrar que, como cada um poderia sair legalmente do País com R$ 10 mil, os três juntos tinham o direito de ir com R$ 25 mil para onde bem entendessem). 

Há mais, contudo. Procurei nas leis do país o crime de tentativa abortada de evasão de divisas e não o encontrei em lugar nenhum. O que existe é isto aqui, na Lei nº 7.492, de 16/06/1986:

Art. 22. Efetuar operação de câmbio não autorizada, com o fim de promover evasão de divisas do País:

Pena – Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa. 

Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, a qualquer título, promove, sem autorização legal, a saída de moeda ou divisa para o exterior, ou nele mantiver depósitos não declarados à repartição federal competente.

Salta aos olhos que o crime em questão ocorre quando de sua consumação (“efetuar operação”, “promover evasão”, “promove a saída de de moeda ou divisa”, “mantém depósitos não declarados”)  e não quando, por qualquer motivo, não se concretiza; e que se refere práticas graves, envolvendo valores expressivos, não ao que pode ter sido mera trapalhada do(s) autor(es) e/ou má fé das autoridades. 

 

Em português claro: a denúncia do Ministério Público e a decisão do juiz de Corumbá são evidente forçação de barra.

 

Vale lembrar que o Tribunal Regional Federal da 3ª Região, ao conceder habeas corpus a Battisti para livrá-lo de uma estapafúrdia prisão preventiva que o juiz de 1ª instância lhe impôs, ponderou exatamente que a acusação não se referia a um crime grave e que o único erro de Battisti teria sido o de não declarar os valores à Receita Federal. 

Que se saiba, pena de dois a seis anos de reclusão para presumíveis sonegadores de ninharias só existe (se é que existe) em nações totalitárias.

 

Até para um leigo fica evidente que isso não vai dar em nada, e que o único risco que corre Battisti é o de ser vítima de alguma tentativa de sequestro ou assassinato nos constantes deslocamentos que terá de realizar até Corumbá.

Começando pela pirracenta imposição de uma tornozeleira eletrônica que, a crer-se na justificativa do juiz, só poderia ser-lhe afixada a mais de mil quilômetros de onde reside, sem que o meritíssimo comprovasse sequer que Battisti tem condições financeiras para bancar tal viagem.

 

Espero que tudo isso não passe de demonstração de antipatia gratuita por parte de autoridades que não deveriam se deixar levar pela bílis ao tomarem suas decisões, pois algo além disto seria inconcebível e inaceitável!

EXÉRCITO VAI COLOCAR O GENERAL TRAVESSO DE CASTIGO

Depois de o general Antônio Hamilton Mourão afrontar novamente a hierarquia militar, voltando a emitir juízos políticos sobre o presidente da República (que é o comandante supremo das Forças Armadas) e a fazer apologia de quarteladas, escrevi: 

Se nem agora Mourão for punido pelos seus superiores, é melhor mudarem o nome do glorioso Exército Nacional para Casa da Mãe Joana Armada

Bem, o Exército preferiu manter a denominação atual: já resolveu que aplicará pela segunda vez no general Mourão o corretivo de exonerá-lo do cargo ocupado e designá-lo para outro, na esperança de que finalmente aprenda que em boca fechada não entra mosca.

 

Em 2015, ele perdeu o Comando Militar do Sul e foi encostado numa função burocrática em Brasília; agora, irá para outra. Não muda muita coisa, mas representa uma reprovação explícita a Mourão e às pregações golpistas na caserna.

DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA: GOLDFINGER PALOCCI E BRANCALEONE MOURÃO.

A nova edição da revista (?) veja traz uma matéria-de-capa que me fez lembrar uma velha frase do folclore futebolístico, atribuída ao técnico Otto Glória: “Quando ganho, chamam-me de bestial; quando perco, dizem que sou uma besta”. 

Pois é, Antonio Goldfinger Palocci estaria prometendo ao Ministério Público que, se este lhe conceder os privilégios de delator premiado, sustentará que o ex-ditador líbio Muammar Gaddafi forneceu ao PT US$ 1 milhão para financiar a campanha presidencial de Lula em 2002.

 

Não há por que descrermos da intenção de Palocci: já fez tudo que podia para queimar o filme de Lula no que se refere às ligações perigosas com a Odebrecht. Por que não se dispor a uma alcaguetagem mais bombástica ainda, em troca de que finalmente lhe abram a porta da gaiola?

 

Noves fora, se Palocci conseguir uma mísera prova convincente de que tal doação existiu mesmo, estará criado um fato político bestial, que pode justificar inclusive a cassação do registro do PT.

 

Se ficar tudo no blablablá, Palocci sairá do episódio mais desgastado ainda, por ter desempenhado o papel de uma besta quadrada ou por haver acreditado que de bestas poderia fazer todos nós.

 *  *  *

Até quando, oh general Antonio Hamilton Mourão, abusarás da nossa paciência? Nem Catilina, apesar da exasperação que causava em Cícero, conseguia encher tanto o saco dos seus contemporâneos…

 

Às vésperas de trocar a farda pelo pijama, o que fará no próximo dia 31 de março (escolheu a data a dedo!), o Mourão da vez novamente se deu a incontinências verbais que configuram clara insubmissão contra o presidente da República, sendo este também o comandante supremo das Forças Armadas; e emitiu opiniões inaceitáveis quando partidas de qualquer militar na ativa.

O pregador de uma nova temporada de atrocidades…

Se nem agora Mourão for punido pelos seus superiores, é melhor mudarem o nome do glorioso Exército Nacional para Casa da Mãe Joana Armada.
 

Sobre Temer, o incrível general Brancaleone disse:

Nosso atual presidente vai aos trancos e barrancos, buscando se equilibrar, e, mediante o balcão de negócios, chegar ao final de seu mandato.

E disparou também contra Lula, afirmando que, como “sobrevivente ao mensalão, ele achou que podia tudo”; como consequência, “as comportas foram abertas do lado da incompetência, da má gestão e da corrupção”.

 

Além, é claro, de novamente rasgar seda para a ditadura de 1964/85, pregando uma nova quartelada.

…e quem o convidou para a hora da saudade das trevas

De resto, para que não restasse nenhuma dúvida a respeito das abominações que defende, ele deitou sua falação no Clube do Exército, em Brasília, ao qual compareceu como convidado… do movimento ultradireitista Terrorismo Nunca Mais!!! Em comparação com os fanáticos ultradireitas do Ternuma, até Átila, Vlad Dracul e Gengis Khan eram cavalheiros sofisticados e comedidos…
 

São dois perdidos numa noite suja. Um que se desgarrou de sua turma e chafurda na mais absoluta abjeção; e o outro que se desgarrou do seu tempo na vã tentativa de fazer as rodas da História girarem para trás, pois seu ambiente mental é o de um passado medonho e repulsivo que hoje só tem lugar na lixeira da História.

HÁ UM CHEIRO DE 1989 NO AR. TEMOS DE EVITAR QUE BOLSONARO REPITA COLLOR!

Presidente saído de um caldeirão? Não colou…

As escaramuças da eleição presidencial de 2018 já estão em curso. A disputa é pela posição de candidato da centro-direita, o provável vencedor.

 

Sei que esta afirmação chocará os sebastianistas das redes sociais, que sonham com a volta de Lula. Paciência. Não escrevo artigos para torcer por um ou outro candidato, mas sim para mostrar aos meus leitores o que está por trás daquilo que a grande imprensa induz seus públicos a tomarem como verdadeiro.

 

P. ex., quando vejo pesquisas de opinião que apontam favoritismo do Lula, logo me pergunto por que estão sendo feitas e divulgadas agora. Pois, pela experiência de outros carnavais, sei que as pesquisas são trombeteadas quando convém e ocultadas quando convém. Neste momento, interessa aos donos do PIB e da mídia erguerem o espantalho do Lula. Por quê?

 

Talvez para que se defina logo quem será o anti-Lula, pois essa gente não gosta de correr riscos. De preferência, prefere saber logo em qual cavalo apostará.

 

Evidentemente, a sensação de alarmismo que se tenta insuflar tem mais a ver com manobras em curso do que com verdadeira apreensão com relação a uma possível vitória de Lula, até porque os poderosos sabem que dele só têm a esperar que acenda uma vela para os exploradores e outra para os explorados, como sempre fez. Quem ainda hoje associa sua imagem à dos Sarneys e Renans da vida não leva jeito de se haver tornado um perigoso radical…   

Esperança do Bolsonaro é impor-se como o anti-Lula

Ademais, muita água passará por baixo da ponte até outubro e o balão Lula poderá ser esvaziado de várias maneiras. Eis algumas:

  1. a melhora da situação econômica (prevê-se crescimento do PIB no próximo ano, algo em torno de 4%) é sempre favorável aos candidatos do sistema, pois o povo passa a temer que os candidatos contrários ou aparentemente contrários ao sistema tragam de volta a recessão);
  2. na reta final do 1º turno a mídia pode mudar a tendência do eleitorado com um esforço concentrado contra Lula, reavivando a lembrança de todas as maracutaias denunciadas nos últimos anos;
  3. e, claro, ele pode ser tirado da disputa pela via judicial.

A terceira possibilidade já poderia ter ocorrido. Por que a protelação? Talvez estejam esperando para ver se precisarão mesmo recorrer a algo tão drástico. Pegaria mal e provocaria reações, embora não apocalípticas como os petistas supõem. De qualquer forma, creio tratar-se de um cartucho que eles não queiram queimar sem extrema necessidade. 

 

O quadro atual me lembra muito a campanha sucessória de 1989. Assim como está sendo feito agora, havia ações concertadas da grande imprensa (entrevistas simultâneas nas várias mídias, pesquisas favoráveis, matérias de capa nas revistas semanais, etc.) para levantarem candidaturas mais apetecíveis para o sistema: tentaram com Aureliano Chaves, com Mário Covas, com Guilherme Afif Domingos, mas nenhum deles colou, assim como acaba de não colar a levantada de bola para o Luciano Huck.

O pesadelo que mais nos aflige: uma repetição da História.

Fernando Collor não era o candidato preferido pelo sistema, pelos mesmos motivos que Jair Bolsonaro não o é: grandes empresários são conservadores e temem radicalismos, mesmo os de direita, porque causam instabilidade no mercado e atrapalham sua faina principal, a de ganharem mais e mais dinheiro.

 

No entanto, quando todo o mais não resultou, o sistema engoliu o Collor e passou a trabalhar com força total em seu favor. 

[Mesmo assim, ainda foi tentada uma jogada alternativa de última hora com Sílvio Santos, mas sua candidatura foi impugnada pela Justiça Eleitoral porque o PMB não fizera convenções eleitorais em pelo menos nove estados.] 

 

E os poderosos tiveram de engolir o Collor; de tão indigesto, acabaram  sendo depois obrigados a cuspi-lo…

 

Temo muito uma repetição da História, ou seja, que a desmoralização do sistema e dos candidatos que a ele servem habitualmente dê ensejo à eleição de um outsider: um pretenso salvador da Pátria, que também não passa de uma criatura do sistema, mas não é visto pelo povo como tal.

Tudo de que não precisamos: um discípulo dele na Presidência.

E Bolsonaro, o herdeiro espiritual do Brilhante Ustra, é muito pior do que Collor! 

 

Ademais, sabe-se lá como reagiria o Trump se o Brasil elegesse um sub-Trump (fico me lembrando de quando os EUA eram amigos desde criancinhas da ditadura brasileira, “para onde se inclinar o Brasil se inclinará toda a América Latina”, etc.).

 

E o que deveria fazer a esquerda, para afastar tal pesadelo? A receita eu dou, mas sem a mínima esperança de que os atores políticos decidam com realismo e desprendimento desta vez (já deixaram de fazê-lo tantas e tantas vezes!):

  • desistirem da candidatura do Lula, não só porque o sistema tem como neutralizá-la, mas também porque o cenário mudou radicalmente desde a década passada e já não existe lugar para a conciliação de classes e o reformismo (um terceiro mandato do Lula seria tão desastroso quanto o segundo da Dilma);
  • lançarem uma candidatura única da esquerda (de preferência escolhendo uma nova liderança, um nome não identificado com os erros do passado, como o Guilherme Boulos), que não mais se propusesse a gerenciar o capitalismo para os capitalistas, mas sim a lutar contra o capitalismo, a única postura cabível neste momento em que a crise capitalista se agrava no mundo inteiro; e
  • havendo 2º turno, apoiarem o adversário do Bolsonaro, seja quem for (pior é impossível!).

MINO CARTA SE VÊ COMO DEUS REVELANDO A VERDADE SAGRADA. E O RESTO DO MUNDO O VÊ COMO NAPOLEÃO DE HOSPÍCIO.

Incorrigível, Mino Carta volta a engrossar o lobby italo-brasileiro na caça a Cesare Battisti, em besteirol  publicado na Carta Capital e reproduzido pela Folha de S. Paulo, com o evidente objetivo de influenciar a decisão que a 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal tomará amanhã (24), ou salvando o escritor da tramoia eivada de ilegalidades com que se pretende entregá-lo à vendeta italiana ou repetindo a ignóbil decisão adotada em 1936, quando autorizou a extradição de Olga Benário para a Alemanha nazista.

Quando li o texto do Mino, tão rancoroso quanto inconsistente, pensei até em refutá-lo ponto por ponto. Mas, isto caberia caso houvesse algo a refutar. Não há nada. 


É uma narrativa que não se sustenta em evidência nenhuma, testemunha nenhuma, comprovação nenhuma, citação nenhuma. Apenas na megalomania desmedida de um indivíduo que pensa ser tão superior aos comuns mortais a ponto de apenas dar a público o que, no seu entender, é a verdade definitiva e incontestável, ponto final. Chamavam-no, não sem um tanto de ironia, de imperador, mas ele já ultrapassou tal estágio. Agora seu discurso é de quem, intimamente, acredita ser Deus. Pena que, para a maioria dos leitores dotados de espírito crítico, ele não passe de um Napoleão de hospício…

Eis a tábua dos 10 mandamentos ditados por Mino Carta para serem entregues à plebe ignara, que os deve aceitar sem o mais ínfimo questionamento, decorá-los e depois repeti-los com muita fé e devoção:

1º que os biógrafos estão todos errados e o Cesare não teria nascido e sido criado numa família comunista;

2º que, também na contramão de tudo que autores isentos já publicaram, ele teria sido um criminoso comum, só se politizando na prisão; 

3º que, nos anos de chumbo, a Itália teria continuado a ser um Estado democrático de Direito e não a democracia com áreas cinzentas a que se referiu com muita propriedade Tarso Genro (havia eleições, as instituições funcionavam, mas a Justiça e a polícia agiam como nas piores ditaduras, o que foi reconhecido até pelo grande Norberto Bobbio); 

4º que não teriam ocorrido arrependimentos arrancados sob torturas na Itália, sendo, portanto, mentirosos todos quantos denunciaram maus tratos, todos os que os documentaram e todas as entidades de defesa dos direitos humanos que cansaram de protestar contra as sevícias e as mortes delas decorrentes; 

5º que os jovens militantes de esquerda não teriam aderido à luta armada em razão do seu profundo desencanto com a traição histórica cometida pelo Partido Comunista Italiano ao se mancomunar com a reacionária, corrupta e mafiosa Democracia Cristã, mas sim por instigação da eterna vilã, a CIA (!!!); 

6º que Battisti não correria perigo se extraditado para a Itália, embora carcereiros tenham declarado à imprensa que ansiavam por matá-lo e um ministro de Estado haja afirmado quase a mesma coisa, babando de ódio; 

7º que os processos italianos dos anos de chumbo teriam sido “conduzidos por uma Justiça independente dentro de um conceito democrático inquestionável”, embora as leis de exceção vigentes naquele melancólico período possibilitassem até que um suspeito permanecesse em prisão preventiva (sem haver sofrido condenação nenhuma, portanto) durante 10 anos e meio (!!!), tendo sido revogadas quando a Itália acordou de sua histeria antibrigadista; 

8º que os Proletários Armados pelo Comunismo assaltariam “para garantir seu sustento (!!!) e não para retaliar ultradireitistas culpados de atos violentos (nem nos delírios dos promotores italianos encontramos afirmação tão estapafúrdia, é a história reescrita ao sabor dos preconceitos!): 

9º que o relatório mais tendencioso jamais apresentado por um ministro em toda a história do STF, o de Cezar Peluso 100% contra Battisti, em 2009, teria sido um “impecável pronunciamento”; 

10º e que eu, apelidado de “setores da chamada esquerda nativa”, teria encarado o “terrorismo como um movimento de resistência similar à luta armada em que alguns brasileiros se engajaram contra a ditadura” (o que nunca declarei, tendo apenas constatado que aqueles equivocados contestadores italianos, levados ao desespero pela traição histórica do PCI, sofreram uma repressão que, em tudo e por tudo, se assemelhou ao festival dos horrores dos DOI-Codi’s e aos julgamentos farsescos que tinham lugar nas auditorias militares).

Já que o Mino não se deu sequer ao trabalho de tentar comprovar qualquer um destes disparates (tarefa impossível!), deixo aos leitores as conclusões. Que necessidade eu teria de repisar o que já é do conhecimento de todos os que procuram informar-se com autores isentos?

Encerro com a reedição de um artigo meu de abril de 2014, que considero muito relevante neste instante, por dizer tudo que se precisa saber sobre a autoridade moral que Mino Carta não tem para deitar falação sobre Cesare Battisti: 

“ENQUANTO MALHÃES LANÇAVA CORPOS EM RIOS, MINO CARTA BATIA BUMBO PARA MÉDICI”

Em 1970 ele escrevia editoriais puxando o saco…

Quando Mino Carta fez de sua revista um house organ no pior sentido da palavra, infestando-a de textos panfletários e lobistas que secundavam a caça a Cesare Battisti deflagrada por Silvio Berlusconi, cansei de desafiá-lo para defender sua postura inquisitorial numa polêmica.

 

Adivinhava que se acovardaria, como sempre se acovardou. 

 

Já amarelara em 2004, quando uma repórter da Carta Capital me entrevistou sobre o 25º aniversário da Lei da Anistia e ele ordenou, na enésima hora, que fossem suprimidas todas as referências ao meu nome. 

 

Também naquela ocasião mandei uma veemente contestação da atitude despótica que, com a mesma prepotência dos censores da ditadura, ele tomou.

Em vão: não deixou que publicassem, nem respondeu. Estava ciente de que todo seu poder de nada valeria num confronto de textos, pois eu pulverizaria facilmente sua algaravia pomposa. 

 

A que se devia tal antipatia gratuita? É simples: ele odeia os contestadores de 1968. Sempre nos detestou. Como boa parte dos comunistas da velha guarda, naquele ano decisivo ele se posicionou, junto com os partidões da Itália e da França, do outro lado da barricada. Entre as forças da ordem e os jovens rebeldes, ficou com as primeiras.

…do ditador mais sanguinário de todos.

E contraiu ódio eterno pelos verdadeiros esquerdistas, que expuseram a cumplicidade dos PC’s com a burguesia (o PC francês tudo fez para minar o apoio dos operários à revolução que já estava nas ruas, enquanto o italiano compartilhou o poder com ninguém menos que a Democracia Cristã, podre até a medula).

Então, mesmo sem ter identificação ou simpatia pelo Demétrio Magnoli, não posso deixar de aplaudir as estocadas certeiras que ele deu no Mino Carta, na Folha de S. Paulo.

Começa citando a ode ao golpe de 1964 que o próprio Mino fez publicar na Veja de 1º de abril de 1970 (ou seja, o editorial que ele assinava com suas iniciais, MC), ajudando os milicos a soprarem as seis velinhas:

Propostos como solução natural para recompor a situação turbulenta do Brasil de João Goulart, os militares surgiram como o único antídoto de seguro efeito contra a subversão e a corrupção (…). 

Mas, assumido o poder, com a relutância de quem cultiva tradições e vocações legalistas, eles tiveram de admitir a sua condição de alternativa única. E, enquanto cuidavam de pôr a casa em ordem, tiveram de começar a preparar o país, a pátria amada, para sair da sua humilhante condição de subdesenvolvido. Perceberam que havia outras tarefas, além do combate à subversão e à corrupção —e pensaram no futuro

Como polemista, Magnoli fez picadinho…

Hoje, muitos companheiros desavisados mostram deferência e respeito por esse sujeitinho que via os Ustras e Curiós como “único antídoto de seguro efeito contra a subversão e a corrupção” (exatamente a desculpa esfarrapada que utilizaram para a usurpação do poder), atribuía-lhes relutância em incidirem nas práticas hediondas (todos que passamos pelas câmaras de tortura podemos afiançar que, sádicos como eram, eles extraíam visível prazer do que faziam), louvava a preocupação deles com o futuro (qual, a de assegurarem a própria impunidade antes de serem enxotados?) e a firmeza com que botavam “a casa em ordem” (nela impondo a paz dos cemitérios!)

Espero que doravante passem a ser mais seletivos em suas devoções, não engolindo gato por lebre.

Enfim, está certíssimo o Magnoli ao jogar na cara do Mino o seguinte:

Enquanto Paulo Malhães lançava corpos em rios, Mino Carta batia bumbo para Médici.

…do lobista do Berlusconi.

A censura não tem culpa: os censores proibiam certos textos, mas nunca obrigaram a escrever algo.  

Os proprietários da Abril não têm culpa (ou melhor, são culpados apenas pela seleção do diretor de Redação): segundo depoimento (nesse caso, insuspeito) de um antigo editor da revista e admirador do chefe, hoje convertido, como ele, ao lulismo, Carta dispunha de tal autonomia que os Civita só ficavam sabendo do conteúdo da Veja depois de completada a impressão.

Desta vez, mesmo que encontre uma insuspeitada e até agora inexistente coragem, de nada lhe adiantará. Não existe resposta nem justificativa possíveis.