TEMER CAI? TEMER FICA? DE QUE IMPORTA, AFINAL? HÁ SUBSTITUTOS AOS MONTES, PARA DESEMPENHAREM O MESMO PAPEL…

Nova delação premiada vazada, novo alvoroço na política brasileira. Muita gente antevendo uma revanche contra Michel Temer, como se ele não fosse apenas um político profissional sem porte de estadista, nem carisma, nem nada que o distingua particularmente de milhares de outros que poderiam estar desempenhando o mesmo papel com desempenho equivalente. Não passa, enfim, do serviçal da vez da classe dominante. 

 

Desta vez ele cairá? É impossível afirmar agora, pois a partida mal começou. Mas, quem vai ganhar o campeonato, isto nós sabemos: serão os de sempre.

 

Se os donos do Brasil chegarem a um consenso quanto a substituto, descartarão Temer. Se não houver um nome capaz de inspirar-lhes confiança, manterão Temer. É simples assim. 

 

Nada de bom advirá para nós do jogo de cartas marcadas dos três Poderes. Decidida sua degola, ou Temer renuncia, ou o julgamento da chapa Dilma-Temer na Justiça Eleitoral, que se encaminhava para livrar a cara dele, tem o script alterado, condenando ambos. 

São duas opções óbvias para se colocar a escolha do substituto nas mãos do Congresso Nacional, que, pela via indireta, elegerá presidente quem o sistema escolher. Com isto, sairia seis para a entrada de meia dúzia.

Fazer campanha por uma eleição direta, embora a Constituição não a preveja depois de completados dois anos de mandato? Quem disse que o povo está esperançoso e ansioso por votar como em 1984 (quando lhe parecia que, escorraçados os militares do poder, tudo melhoraria como que por encanto)? Hoje, pelo contrário, o pessimismo e o desencanto são generalizados. Dificilmente uma nova mobilização do tipo diretas-já reuniria as multidões de então. 

De resto, face à acentuada desmoralização de todos os políticos que estiveram em evidência nos últimos e deploráveis tempos, é enorme a possibilidade de uma eleição direta —seja a tampão definida no texto constitucional, seja a antecipada com que muitos sonham, seja a marcada para o final de 2018—, levar ao poder um outsider como João Dória Jr. ou Jair Bolsonaro. 

Está na hora de deixarmos de dar tanta importância ao que acontece em Brasília. É tão irrelevante quanto uma miragem no deserto. Presidente não passa de um miquinho amestrado da classe dominante. A burguesia está no poder e o presidente, de um jeito ou de outro, acaba sempre a ela servindo. Temos é de mudar a essência do poder, fazendo com que passe a priorizar o bem comum, e não mais a ganância e os privilégios de ínfimas minorias. 

 

Estamos desperdiçando tempo desde a redemocratização; já são 32 anos jogados fora. Precisamos construir uma opção junto com o povo, travando as lutas do povo, até fazermos o capitalismo explodir pelas próprias contradições. 

É isto que verdadeiramente importa. É esta a lição de casa que há bom tempo deixamos de fazer, desde então colhendo resultados ora pífios, ora desastrosos.

DILMA PAGARÁ POR SUA INGENUIDADE?

Estará Dilma lamentando ter-se complicado…

Faço muitas restrições à ex-presidente Dilma Rousseff, a quem vejo como uma antiga companheira da luta contra a ditadura militar que depois desistiu da revolução e se tornou uma tecnoburocrata de corpo e alma, querendo apenas participar do poder Executivo e, atuando dentro dele como gerentona, aperfeiçoar e tornar menos desumano (isto lá é possível?!) o capitalismo praticado no Brasil.

 

Cometeu algum pecado? Se ficasse por aí, não. Cada um faz o que quer da sua vida, inclusive trocar Karl Marx pelos economistas neo-keynesianos, adeptos de uma mão forte do Estado para alavancar o desenvolvimento econômico, complementando o papel do mercado

 

O inaceitável é que, quando o príncipe Lula lhe deu o beijo que a transformou de rã em presidenta, ela e os marqueteiros resolveram utilizar oportunisticamente seu passado militante para impingir ao eleitorado uma imagem piegas, tipo heroína de telenovela.

 

Mas, como já tinha, havia muito tempo, deixado para trás nossos valores, Dilma deles discrepou totalmente em episódios cruciais como o da decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos que ela ignorou, da Lei Antiterrorismo que ela sancionou e do pedido de asilo do Edward Snowden que ela negou. 

…para receber, em troca, a ingratidão, essa pantera?

E, como vestira promocionalmente uma fantasia de revolucionária, sua pusilanimidade respingava em todos nós, os que permanecemos fiéis aos princípios por ela abandonados.


Ainda assim, meu espírito de Justiça me faz lamentar o risco que ela está correndo, de sofrer uma punição mais pesada do que a da maioria dos crápulas atolados até o pescoço nos mares de lama da política brasileira.

 

Eu e quase todo mundo a vemos como uma mulher honesta que não se beneficiou pessoalmente da corrupção, mas fechou os olhos a muita coisa por fidelidade ao seu partido e a alguns dos medalhões petistas.

 

Na semana passada, contudo, ela passou a ter uma lâmina de guilhotina pendendo sobre sua cabeça: as acusações dos marqueteiros delatores. Dilma teria mantido João Santana e Mônica Moura a par das ameaças que sofriam com os avanços das investigações da Operação Lava-Jato, inclusive alertando-os de que seriam presos se voltassem ao Brasil.

 

Eis a mensagem cifrada (um tanto canhestra) que, segundo eles, teria enviado a Mônica: “O seu grande amigo está muito doente. Os médicos consideram que o risco é máximo. E o pior é que a esposa, que sempre tratou dele, agora também está doente, com o mesmo risco. Os médicos acompanham dia e noite”. 

Pela campanha sórdida de 2014 Santana não pagará. Deveria.

Se a existência de tais e-mails for confirmada pelo Google ou por perícias em computadores, tablets e celulares, Dilma terá cometido um crime gravíssimo para qualquer chefe do Executivo: a quebra da confidencialidade das informações privilegiadas de que dispunha por força do cargo, fornecendo-as a terceiros com o propósito de obstruir a Justiça.

 

E por que ela teria querido salvar logo os marqueteiros? Certamente deve ter estado ciente de outras situações semelhantes, mas parece não haver-se importado tanto com as desventuras dos envolvidos. Suspeito que o motivo, neste caso, fosse pessoal, uma relação de amizade com a Mônica.

 

Caso, repito, os promotores consigam provar que as coisas se passaram mesmo como os ingratos marqueteiros alegam, Dilma estará em sérios apuros. A menos que sua cândida mas patética ingenuidade lhe valha alguma boa vontade por parte de quem a for julgar   

 

Fico com a impressão de que, como presidenta, Dilma passou 51 meses no lugar errado, na época errada. Foi mal. 

NADA CONTRA O PUBLICITÁRIO QUE MORREU, TUDO CONTRA SEU OFÍCIO.

A morte do publicitário José Zaragoza, um dos fundadores da DPZ, motivou uma interessante troca de ideias no Facebook, da qual participei. Eis algumas intervenções. 

“Nunca gostei de publicitários. Meu primeiro estagio, de um dia, foi numa dessas agencias: me puseram fechada numa sala para endeusar um… trator. Saí dali correndo, certa de que jamais seria minha profissão. 

Ao longo da vida, acompanhando as escrotas propagandas brasileiras — contra mulheres, contra pobres, etc. —, meu conceito sobre esta que é a mais deslavada expressão do capitalismo só se solidificou.” (Elizabeth Lorenzotti)

“Já trabalhei em agências e sei que é através delas que são feitos grandes desvios. Não existe uma forma de fazer concorrência através de anúncios e filmes publicitários e através de veiculação. Cada trabalho custa o preço que quiserem colocar.” (Iuri Felix Nunes)

“O Zé Celso Martinez Correa disse tudo: ‘Os publicitários são filhos de Goebbels’. Não passam de parasitas, impingindo-nos produtos, ideias e valores inúteis mediante as mais avançadas técnicas de manipulação dos instintos e das consciências.” (CL)

“Observe que o termo certo para designá-los seria ‘propagandistas’. Eles não gostam, é claro, porque isso trai seu DNA canalha.” (Rogério Fernando Furtado)

“Jornalistas são piores…” (José Abílio Perez)

“Ambos podem matar.” (Elizabeth Lorenzotti)

“Há uma diferença fundamental. A missão de um jornalista é tornar a verdade acessível ao cidadão comum; evidentemente, a maioria não o faz, mas há exceções que enobrecem a profissão. Já o publicitário tem a missão de impingir ao cidadão comum o lixo do seu contratante, da forma mais convincente e sedutora possível. Os primeiros se prostituem pelo caminho, os publicitários já dão a largada prostituídos.” (CL)

COMPORTAMENTO DO BOLSONARO FOI CONSIDERADO PELO EXÉRCITO “AÉTICO E INCOMPATÍVEL COM O PUNDONOR MILITAR”

(seguem-se trechos da notícia Bolsonaro admitiu atos de indisciplina e deslealdade no Exércitode autoria do repórter Rubens Valente, publicada nesta 2ª feira, 15, pela Folha de S. Paulo).

O fãzoca do torturador serial Brilhante Ustra…

Documentos obtidos pela Folha no Superior Tribunal Militar mostram que o deputado e presidenciável Jair Bolsonaro (PSC-RJ) admitiu em 1987 ter cometido atos de indisciplina e deslealdade para com os seus superiores no Exército.

 

O então capitão foi acusado por cinco irregularidades e teve que responder a um Conselho de Justificação, uma espécie de inquérito, formado por três coronéis..

 

Ele foi considerado culpado pelos coronéis, mas absolvido depois em recurso acolhido pelos ministros do STM, por 8 votos a 4.

 

O processo tinha dois objetos: um artigo que ele escreveu em 1986 para a revista Veja para pedir aumento salarial para a tropa, sem consulta aos seus superiores, e a afirmação, meses depois, pela mesma publicação, de que ele e outro oficial haviam elaborado um plano para explodir bombas-relógio em unidades militares do Rio.

 

Os documentos informam que, pela autoria do artigo, Bolsonaro foi preso por 15 dias ao “ter ferido a ética, gerando clima de inquietação na organização militar” e “por ter sido indiscreto na abordagem de assuntos de caráter oficial, comprometendo a disciplina”.

 

[Tudo começou quando]  O Exército detectou um movimento para desestabilizar a cadeia de comando e determinou uma investigação, a mando do ministro e general Leonidas Pires Gonçalves, alvo de Bolsonaro.

…o terrorista que contava planos malucos para repórteres…

Em interrogatório reservado de 1987, o então capitão assinou documento no qual reconhece ter cometido uma “transgressão disciplinar” ao escrever para Veja. “E que, à época, não levou em consideração que seria uma deslealdade mas que, agora, acha que sim.”

 

O STM decidiu que pelo artigo ele já havia sido punido com a prisão. 

 

Depois, a revista publicou que ele e outro capitão haviam elaborado um plano chamado Beco sem saída, que previa uma série de explosões. Como evidência, a revista divulgou esboços atribuídos a Bolsonaro.

 

Na reportagem, ele dizia que haveria “só a explosão de algumas espoletas” e explicava como fazer uma bomba-relógio. “Nosso Exército é uma vergonha nacional, e o ministro está se saindo como um segundo Pinochet”, afirmava.

…e o grande defensor de posições abomináveis.

Bolsonaro negou a autoria de qualquer plano de bombas e citou que dois exames grafotécnicos resultaram inconclusos. Perícia da Polícia Federal, porém, foi inequívoca ao concluir que as anotações eram dele.
 

Os coronéis decidiram, por unanimidade, pela condenação. “O Justificante [Bolsonaro] mentiu durante todo o processo, quando negou a autoria dos esboços publicados na revista ‘Veja’, como comprovam os laudos periciais.”

 

Segundo documento assinado por três coronéis, Bolsonaro “revelou comportamento aético e incompatível com o pundonor militar e o decoro da classe, ao passar à imprensa informações sobre sua instituição”.

 

Pela lei, decisões do conselho deviam ser enviadas ao STM. No tribunal, Bolsonaro negou em abril de 1988 o plano das bombas, mas reconheceu a autoria do artigo: “Admito também a transgressão disciplinar […], pela qual, acertada e justamente, fui punido com quinze dias de prisão…”.

Obs. Os interessados em mais informações sobre o plano do Bolsonaro de explodir os banheiros da Vila Militar poderão obtê-las clicando aqui.

O LEÃO DO IMPOSTO DE RENDA NÃO PASSA DE UM ROBIN HOOD ÀS AVESSAS

Lembram-se de quando tantos esquerdistas decepcionados diziam que, no governo, Lula era um pai para os pobres e uma mãe para os ricos

 

Isto tinha tudo a ver com o pacto que o Zé Dirceu, em nome dele, firmara em 2002 com os poderosos da economia, confirmado pelo próprio Lula em sua verdadeira ode ao capitalismo intitulada Carta aos Brasileiros.

 

Tratou-se um documento escrito sob medida para tranquilizar magnatas, atualizando o Manifesto de Fundação do PT de 1980. Passou-se uma borracha no objetivo de se construir “sociedade igualitária, onde não haja explorados nem exploradores” e se colocou, no lugar, “o caminho de combinar o incremento da atividade econômica com políticas sociais consistentes e criativas”,  sempre se mantendo “o respeito aos contratos e obrigações do país“. 

 

Ou seja, contratos injustos ao extremo, que beneficiavam de forma escandalosa a classe privilegiada, continuariam sendo ciosamente respeitados. Foi o preço que Fausto/Lula pagou aos Mefistófeles do capitalismo para que o poder econômico consentisse na sua ascensão a presidente da República. 

O resultado seria escancarado nas várias evidências de que os interesses do grande capital eram considerados pelos formuladores da política econômica como intocáveis; e, de maneira mais explícita, naqueles descarados press releases por meio dos quais, a cada mês, o Itaú e o Bradesco anunciavam terem atingido novo patamar de receita ou lucratividade, como se estivessem em campanha para conquistarem o Prêmio Guinness da agiotagem legalizada
 

Também constava da Carta aos Brasileiros a promessa de o governo do PT reduzir os tributos pagos pelo empresariado, tomando providências contra “o caráter regressivo e cumulativo dos impostos, fardo insuportável para o setor produtivo e para a exportação brasileira”.

 

O bom colunista Vinícius Mota, nesta 2ª feira, 15, mostra que o fardo era (e é) bem mais insuportável para os que ganham menos, muito menos. O tal do leão do Imposto de Renda não passa de um Robin Hood às avessas, pois tira dos pobres e alivia para os ricos…

 

Leiam e avaliem:

Em 2015, segundo dados que a Receita acaba de divulgar, os 435 mil indivíduos no topo da remuneração representaram apenas 1,6% de todos os contribuintes que declararam Imposto de Renda. A esse pequeno conjunto de cidadãos correspondeu, no entanto, 15% da massa de rendimentos que é isenta do tributo.

Nesse ápice de pirâmide, quanto mais se eleva a renda, maior é a fatia que escapa à mordida do leão. Em torno de R$ 40 em cada R$ 100 recebidos pelos 29 mil brasileiros mais ricos (renda mensal média de R$ 332 mil) são imunes ao IR, contra cerca de R$ 30 no universo dos declarantes.

Mecanismos indiretos de cobrança de imposto e benefícios legais não garantem taxação equitativa da pessoa que recebe como acionista de empresas. O ambiente incentiva, nas altas rendas, esse regime de remuneração, sobre o qual há escassa prestação balanceada de contas.

Embora seja assunto complexo tecnicamente e custoso politicamente, é possível corrigir anomalias nele embutidas… 

Mas o governo do PT, na contramão de partidos homólogos nos países ricos, jamais patrocinou uma reforma tributária para corrigir iniquidades. Preferiu reforçar os laços do capitalismo de compadrio que enfiou o Brasil na crise

SABE O TONHÃO, AQUELE QUE ANDAVA SEMPRE DESCENDO A PORRADA NAS BICHAS? SAIU DO ARMÁRIO…

O Departamento de Psicologia da Universidade da Georgia (EUA) concluiu o que muita gente desconfiava: homofóbicos são gays enrustidos. Na maioria dos casos, há um conflito tão grande quanto à própria sexualidade que o tormento se transforma em raiva e agressividade.

Os pesquisadores recrutaram homens, declaradamente heterossexuais. Eles enfrentaram uma bateria de perguntas que os dividiu em dois grupos: os que se sentiam mais e o que se sentiam menos desconfortáveis com o assunto homossexualidade.

Em seguida todos foram equipados com um pletismógrafo peniano, aparelho que mede o grau de excitação do pênis em resposta a imagens. Os participantes assistiram a cenas de sexo heterossexual, de sexo entre duas mulheres e de sexo entre dois homens.

O surpreendente das reações nesta última situação é que cobaias do grupo com mais tendências homofóbicas tiveram quatro vezes mais aumento de volume peniano do que os do grupo formado por quem não se incomodava com homossexuais. Mais da metade dos homofóbicos teve ereção, enquanto menos de um quarto do outro grupo mostrou algum tipo de excitação ao ver as imagens de dois homens transando.

Esta pilhéria que um internauta fez com o deputado Jair Bolsonaro está bem no espírito do artigo

Bastante revelador: depois do teste, quando confrontados, todos os homofóbicos negaram o que sentiram minutos antes.

 

O estudo tem 20 anos. De lá para cá, outras instituições realizaram testes parecidos e o resultado é sempre o mesmo: a atitude negativa, a agressividade, a intolerância e a fobia se manifestam em pessoas que tentam reprimir o desejo sexual que sentem por outros do mesmo gênero.

(parágrafos iniciais do artigo Estudos mostram que os homofóbicos 

são homossexuais enrustidos, de Mariluz Pereira Jorge)

UMA HIPÓTESE DIFERENTE SOBRE O TRIPLEX DA DISCÓRDIA

Toque do editor

Se você, caro leitor, chegou a este blogue e a este post, é provável que tenha sido em busca de um enfoque alternativo à mesmice dominante na web – seja por a muitos faltarem conhecimentos e imaginação para irem além do óbvio, seja porque outros tantos não ousam expor-se à ira dos grupos de pressão atuantes. 

Uma das principais características do náufrago tem sido a de sempre marchar na contramão da intolerância e do sectarismo, estimulando o exercício do pensamento crítico. 

Pelo menos aqui, as pautas não são determinadas por nenhum rolo compressor virtual. Todos os temas são discutidos livremente e todos os autores que escrevam textos interessantes são admitidos, desde que não defendam abominações como a pedofilia, o terrorismo islâmico ou o capitalismo.

Em meio à montoeira de análises previsíveis sobre o interrogatório do ex-presidente Luiz Inácio Lula de Silva, a grande maioria com viés (pró-réu ou pró-juiz) facilmente identificável por quem é do ramo, encontrei esta pérola do Marcelo Coelho, divergindo diametralmente de quantos consideram obrigatórias as digitais do acusado na arma do crime para que este possa ser condenado.

Modestamente, admito que ainda não tenho uma opinião formada sobre o entendimento que ele propõe. Precisarei pensar bem sobre isto.

Mas, também para os leitores tal reflexão será, no meu entender, benéfica, daí eu estar publicando o artigo, com a ressalva de que ele não expressa necessariamente a posição do blogue. (Celso Lungaretti)

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NÃO É NECESSÁRIO SER PARANOICO PARA DUVIDAR DA VERSÃO DO LULA

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Um artigo de Marcelo Coelho

Lula pode ser condenado por crime de corrupção? Vejamos o que diz o Código Penal. Corrupção passiva, segundo o artigo 317, é  “solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem”.

 

A definição, como se vê, é ampla. O político ou funcionário público não precisa dar nada em troca do que recebeu. Não ajudar uma empreiteira em licitações, aprovar lei favorável a um setor econômico, conceder financiamentos especiais a esta ou aquela empresa. Basta solicitar uma propina, mesmo que não cumpra sua parte no trato, para ser corrupto.

 

Em seu depoimento ao juiz Sergio Moro, o ex-presidente foi literal em suas negativas a respeito do apartamento no Guarujá, que foi visitar em companhia de Léo Pinheiro, presidente da OAS.

 

“Não solicitei, não recebi, não paguei e não tenho nenhum triplex”, disse Lula.

 

Todo réu, em última análise, tem apenas duas opções a seu dispor: ou confessa ou o nega o crime de que é acusado. Mesmo diante de provas contundentes, é sempre possível dar explicações elaboradíssimas, e no fim cabe ao juiz acreditar ou não, fazer a avaliação subjetiva do que é plausível e do que não é.

 

Um marido entra em casa e vê a mulher, nua, no quarto com o vizinho. Adultério!, conclui. Há um largo folclore, contudo, em torno das desculpas invocadas pelo casal pego em flagrante. “Sou sonâmbulo”, diz o vizinho, “e entrei aqui pensando que fosse minha cama.” “Ainda bem que você chegou”, diz a mulher, “este canalha tentava me violentar.”

Lula se explicando durante o interrogatório da última 4ª feira

Podem persistir ao máximo nas explicações, e dizer ainda que, se o marido não está acreditando, é porque sofre de mentalidade preconceituosa, ou simplesmente tem um espírito vingativo, paranoico e persecutório.

 

Lula pode perfeitamente sustentar que não solicitou nem recebeu de presente o apartamento na Praia das Astúrias; não há gravação, troca de e-mails ou testemunhas de qualquer conversa nesse sentido entre ele e Léo Pinheiro.

 

Há, todavia, um terceiro ponto no que diz a lei. Considera-se corrupção não apenas solicitar ou receber propina, mas também “aceitar promessa de tal vantagem”.

 

Eis que o presidente de uma das maiores construtoras do país convida Lula a visitar um apartamento no Guarujá. Ele vai, acompanhado de sua mulher, Marisa Letícia.

 

Pelo que declarou Lula ao juiz Moro, Léo Pinheiro comportou-se como um “vendedor”. Era apenas uma proposta de negócio, não o oferecimento de um presente.

Entra aqui a questão do plausível e do implausível. Se estamos simplesmente diante da venda de um apartamento, aliás modesto, no Guarujá, qual o interesse do empresário – às voltas com contratos milionários e obras gigantescas – em fechar o negócio?

 

Lula diz ter encontrado inúmeros defeitos no apartamento; o imóvel não lhe convinha. A narrativa pode ser perfeitamente verdadeira. Valeria para descrever a conversa com um corretor de imóveis comum. Numa conversa com o presidente da OAS, poderia refletir, contudo, o desejo de receber um presente melhor.

 

Se Lula estivesse negando qualquer oferta de favorecimento, teria sido melhor nem mesmo haver visitado o apartamento. Um político incorrupto recusaria imediatamente o passeio. Seria por ingenuidade que Lula aceitou uma visita ao apartamento, achando que se tratava de uma proposta comercial de Léo Pinheiro?

 

Quem quiser que acredite; não é necessário ser um perseguidor paranoico, entretanto, para duvidar dessa versão.

LULA x MORO: QUEM FOI O VENCEDOR?

Daquela vez um humorista deitou e rolou

Como diria Fiori Gigliotti, um conhecido locutor esportivo do passado, fecham-se as cortinas e termina o espetáculo

 

Os que torceram desbragadamente para o réu ou para o julgador, agora querem saber o placar final. Quem piscou primeiro? Quem foi mais rápido no gatilho? Quem mordeu o pó da derrota?

 

A resposta é simples: nenhum deles. Pois tudo não passou de mais uma Batalha de Itararé.

 

Para as novas gerações, tão desconhecedoras e indiferentes ao que ocorreu antes de gloriosamente chegarem ao mundo, rememoro. 

 

Corria o ano da graça de 1930. As tropas insurgentes de Getúlio Vargas vêm do Rio Grande do Sul para tentarem tomar a capital federal (Rio de Janeiro). Os efetivos leais ao presidente que elas querem depor, Washington Luiz, esperam-nas no município de Itararé, na divisa entre SP e PR. Canta-se em prosa e verso aquela que será a mais formidável e sangrenta das batalhas.

 

Mas, nem um único tiro chega a ser disparado; antes disso, o presidente bate em retirada, entregando o poder a uma junta governativa.

 

Ironizando, o grande humorista Aparício Torelly escreve que, como nada lhe reservaram no rateio de cargos governamentais entre os vencedores, ele próprio se outorgaria a recompensa:

O Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio, outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos, outros patriotas menores foram exercer o seu patriotismo a tantos por mês em cargos de mando e desmando… e eu fiquei chupando o dedo. 

Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve.

Desta vez a grande imprensa lucrou muito com o factoide 

Até agora, nem o juiz Sérgio Moro nem o acusado Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República do Brasil, reivindicou o título de Barão de Curitiba.

 

E nem era de esperar-se que a oitiva do réu terminasse com um deles detonando o outro. Só ingênuos pouco familiarizados com a Justiça sonhavam com Moro forçando Lula a confessar que comeu nas mãos das empreiteiras, ou Lula provando que o verdadeiro objetivo de Moro é impedir sua candidatura a presidente em 2018…

 

Deu para notar-se um insistente empenho de Moro em arrancar algo mais de Lula, embora o fizesse sempre de forma educada e respeitosa. Podemos conjeturar que ele não alongaria tanto o interrogatório no caso de um réu que não equivalesse a um troféu, mas a coisa para por aí: ninguém pode recriminar um juiz por ser zeloso.

 

Quanto a Lula, a derrapada mais marcante foram suas hesitações ao tentar explicar o encontro que manteve com o ex-diretor da Petrobrás Renato Duque e o sócio da OAS Léo Pinheiro, articulado pelo então tesoureiro do PT João Vaccari Neto. Pareceu estar pisando em ovos, o que pode ter algo a ver com as atuais negociações de Duque para fazer delação premiada. Dependendo do que vier pela frente, sua credibilidade poderá ficar bem arranhada.

 

Eu, particularmente, preferiria que ele não parecesse estar insinuando que Marisa Letícia teria alguma responsabilidade no imbróglio do triplex, mas sei que me atenho a valores morais do passado, hoje em desuso…

De resto, nada ocorreu com importância e/ou impacto suficientes para influir na sentença que Moro deverá anunciar lá pela metade do ano, nem para servir como um poderoso trunfo positivo ou negativo na próxima campanha eleitoral do Lula (caso ele não venha a estar impedido de disputar o pleito).
 

Vida que segue.

O DUELO MARCADO ENTRE MORO E LULA TEM TUDO A VER COM OS FAROESTES, MAS ME FEZ LEMBRAR OUTRO TIPO DE FILME…

Eu gostava mais destes duelos

O depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao juiz Sérgio Moro, marcado para a próxima 4ª feira (10) em Curitiba, desperta nos aficionados de ambos expectativa semelhante à da molecada de outrora quando, nas matinês de domingo, estava prestes a começar o duelo ao amanhecer na rua principal, momento culminante de muitos bangue-bangues de então.

A coisa chegou a tal ponto que Moro divulgou uma mensagem em vídeo pedindo à sua torcida organizada para se desmobilizar. Eis um trecho:

Eu tenho ouvido que muita gente que apoia a Operação Lava Jato pretende vir a Curitiba manifestar esse apoio… 

Eu diria o seguinte, esse apoio sempre foi importante, mas nessa data ele não é necessário. Tudo que se quer evitar, nessa data, é alguma espécie de confusão e conflito. Acima de tudo, não quero que ninguém se machuque em eventual discussão ou conflito nessa data. Por isso, a minha sugestão é a de que não venham. Não precisa. Deixem a Justiça fazer o seu trabalho.

A mim, contudo, o espetáculo da próxima 4ª feira fez lembrar um filme bem diferente dos westerns: um clássico do cinema político italiano!

Se o leitor estranhar, dou-lhe toda razão. É que, como o Raul Seixas, devo ser mesmo um chato. Pelo menos no sentido desta estrofe de Ouro de Tolo, o primeiro grande sucesso do Raulzito: “Mas que sujeito chato sou eu/ Que não acha nada engraçado/ Macaco, praia, carro/ Jornal, tobogã/ Eu acho tudo isso um saco”. 

Tenho certeza de que, vivo, ele estaria achando também a torcida contra e a favor da Lava-Jato um saco…

Estes atores até que são esforçados…

E a que filme italiano, afinal, me refiro? A Esse Crime Chamado Justiça (1971), o título brasileiro de In Nome Del Popolo Italiano, do grande Dino Risi (*).

Diretor de obras-primas como Perfume de Mulher (a distância entre o original italiano e o remake estadunidense é a mesma que existe entre o genial Vittorio Gassman e o correto Al Pacino), Risi foi mestre das comédias impregnadas de críticas sociais e uma visão compassiva da realidade.


Aliás, o Perfume de Mulher de 1974 contém um dos maiores momentos de um ator que vi em toda a vida: é simplesmente de arrepiar a metamorfose do militar cego quando, abalado por haver vacilado e descumprido o pacto de suicídio com outro veterano, não consegue mais manter a postura agressiva que utilizava como defesa desde que uma bomba lhe explodira na cara, tirando sua visão (não suportando que tivessem pena dele, a todos afastava com cafajestadas e grosserias).

Não dá sequer para imaginarmos um ator que expressasse, com a mesma dignidade de Gassman, a desorientação e fragilidade do personagem quando finalmente cai sua máscara.

…mas não chegam nem perto destes!

Assim como não nos vem à cabeça ninguém melhor do que Marlon Brando para transmitir a profunda repulsa pela desumanidade que inspira a frase “o horror, o horror!”, em Apocalypse Now; ou outro que não Gregory Peck fazendo as alegações finais da defesa do negro injustiçado em O Sol É Para Todos.

Foi também Gassman quem interpretou o repulsivo empresário de Esse Crime Chamado Justiça. É investigado por um procurador honesto (Ugo Tognazzi), por suspeita de haver assassinado a amante.

No curso do inquérito, vêm à tona sucessivos casos de pessoas destruídas pela ganância e insensibilidade predatórias do empresário.

Finalmente, quando tudo aponta para sua culpa, cai nas mãos do procurador uma carta que comprova não ter havido crime, mas sim suicídio.

Não haveria lugar melhor que um tribunal para tal espetáculo?

Então, depois de haver seguido fielmente as regras durante toda a sua carreira, o funcionário decide fazer a verdadeira justiça: suprime a prova, para que, por linhas tortas, seja punido um cidadão extremamente nocivo a seus semelhantes.

Tenho a impressão de que Moro se vê exatamente como o procurador honesto. E que ele tem de Lula uma imagem tão negativa (embora por outros motivos) quanto a que o personagem do Ugo Tognazzi tinha do personagem do Vittorio Gassman.

Sou totalmente contrário ao maniqueísmo, como deve ser qualquer revolucionário que conheça o bê-a-bá do marxismo e do anarquismo. Então, desprezo as emoções primárias do big gundown e a puerilidade das teorias da conspiração que pululam de lado a lado. 

Vejo no episódio da próxima 4ª feira apenas o encontro de dois personagens que geralmente agiram de acordo com seus valores, mas que, em determinadas circunstâncias, sentiram-se no direito de serem infiéis a eles, ultrapassando limites que não deveriam ter ultrapassado..

Obs. – Para não ficar falando de filmes inacessíveis aos leitores, informo que o raro Perfume de Mulher de 1974 pode ser baixado aqui, com legenda em português; e o raríssimo Esse Crime Chamado Justiça, com legenda espanhola, aqui ou aqui.

RIGOR EXTREMO NAS PENAS PARA OS BOBALHÕES QUE APENAS ELUCUBRARAM SOBRE ATENTADOS CONTRA A RIO-16

Moe, Larry, Curly… havia um quarto pateta?

Em 12 de maio de 2016, a então presidente Dilma Rousseff foi afastada provisoriamente do cargo, substituída pelo vice Michel Temer enquanto durasse a tramitação do seu processo de impeachment no Senado. 

 

Exatamente oito semanas antes, no dia 17 de março, ela acrescentara mais uma nódoa à sua biografia. E das piores! Foi quando Dilma sancionou a fascistoide lei antiterrorismo, sobre a qual  o senador Humberto Costa, que já era o líder do PT no Senado, disse tudo que havia para ser dito: “O Brasil não precisa de outro AI-5”.

 

É paradoxal que tenha cabido a uma ex-resistente, perseguida e torturada durante o reinado de arbítrio e atrocidades instaurado pelo AI-5, o melancólico papel de dar sinal verde a uma nova escalada de abusos e injustiças!

 

É vergonhoso que Dilma tenha se prestado a isto, obcecada que estava em provar aos poderosos da economia que nada restara nela da guerrilheira que afrontara a ditadura militar, como se isto ainda pudesse salvá-la do defenestramento anunciado!

Este moleque pegou 6 anos, sendo 5 em regime fechado. 

Um primeiro resultado de sua maldita assinatura naquele maldito papelucho acaba de ser anunciado: um juiz federal condenou oito bobalhões por ficarem elucubrando no Facebook, Twitter, Instagram e WhatsApp sobre atentados terroristas durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Por que não pegaram megafones e discutiram seus planos mirabolantes no intervalo de um Fla-Flu? Daria no mesmo…
 

Tais trapalhões, que não moveram uma palha para levar seus delírios à prática, agora vão mofar de 5 a 15 anos na prisão, parte em regime fechado. 

 

Por culpa de uma aberração jurídica que iguala planejamento com execução, como se tudo sobre o que amadores falastrões papeiam se tornasse realidade. Eu diria que uns 98% dessas besteirinhas devam ficar só no blablablá.

 

E por culpa de uma tecnoburocrata que já não tinha mais afinidade nenhuma com seu passado revolucionário, mas o foi retirar do arquivo morto quando Lula a escolheu para sucessora, passando a utilizá-lo como trunfo retórico durante a campanha eleitoral e em outras situações nas quais lhe conveio.

 

A mim, pelo menos, nunca enganou. 

Era a última chance de vermos punidos os carrascos do Araguaia

Ninguém que conservasse fibra de revolucionário(a) teria deixado de cumprir a determinação da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que mandou apurar o genocídio do Araguaia e punir seus responsáveis, ao mesmo tempo em que apontava a total inconsistência jurídica da decisão do STF que considerou lícito torturadores anistiarem a si próprios em pleno regime de exceção, na contramão de toda a jurisprudência civilizada.

 

Muito menos envergonharia o povo brasileiro com sua patética subserviência aos EUA, negando asilo a Edward Snowden, o que nos colocou abaixo até da Rússia em matéria de direitos humanos!