AOS 69 ANOS, SEM ESMORECIMENTO

Agradeço a todos os companheiros e amigos que estão postando/enviando palavras amáveis. Essas manifestações de respeito e carinho me sensibilizam, sim. E muito!

Nunca almejei ser um homem de ferro, imagem que alguns revolucionários buscam projetar  (equivocadamente, no meu entender). 

Olhando para trás, um grande mérito que vejo na geração que pegou em armas contra a ditadura militar foi o esforço que todos fizemos para colocarmo-nos à altura de um desafio para o qual bem poucos estávamos preparados e que quase sempre excedia nossas forças.

Se fôssemos super-homens nietzschianos, que méritos teríamos? Mas, não éramos; longe disto. Ainda assim, tentamos desempenhar nosso papel da melhor forma possível, assumindo todos os riscos e dispondo-nos a todos os sacrifícios. 

Havia grandeza na nossa fragilidade humana e em como fazíamos das tripas, coração para evitar que ela prejudicasse a causa que considerávamos maior e mais importante do que nós.

Este aniversário está mexendo com meus sentimentos como há muito não ocorria. 

No mês em que completei 68 anos, uma tempestade perfeita me fez temer que os fantasmas do passado nos assombrassem de novo, impondo às novas gerações de brasileiros os mesmos horrores contra os quais a minha lutou.

Chego aos 69 aliviado. Não havia fascistas perfeitos para aproveitarem a oportunidade que lhes caiu no colo e, embora o destrambelhado Governo Bolsonaro ainda vá durar algum tempo (minha previsão é de que será atirado à lixeira da História durante 2020), já está desmascarado e desmoralizado o suficiente para o impedir de alçar voos mais altos. 

Enquanto perdurar, tende a causar estragos e retrocessos em nossa vida social, e a acarretar grandes transtornos para aqueles a quem persegue com seus desmandos, mas não conseguirá mergulhar o país noutros 21 anos de arbítrio e atrocidades.

Dentre as situações particulares acima referidas encontra-se a minha, pois a última mudança de governo e sua hostilidade burocrática para com os antigos resistentes acabou sendo o estopim de uma crise financeira e familiar que há muito se esboçava.

Também neste sentido o que hoje sinto é alívio.  Passei por situações dramáticas no último semestre e consegui sair incólume, inclusive por não ter-me faltado o apoio de companheiros solidários em alguns momentos críticos.

Estava em dúvida sobre se conseguiria reconstruir mais uma vez minha vida e agora tenho certeza de que a perda de vários confortos e mesmo a falta de uma convivência familiar (exceto nos fins de semana alternados que minhas filhas passam comigo) não me derrubarão. 

Meio século depois ainda me viro bem sozinho, embora não seja a forma como prefiro levar minha vida. Mas, tanto então como agora, não havia alternativa. E sobrevivência foi uma das lições que o destino me ensinou.

Tenho, ademais, fortes motivos para sobreviver: zelar por minhas filhas até que encontrem seu caminho na vida e dar minha contribuição para que não seja em vão tudo que os brasileiros idealistas vimos sofrendo desde 2016.

A maré de ultradireita era (parafraseando Shakespeareuma tempestade de som e fúria significando nada: já podemos vislumbrar no horizonte o momento em que vai morrer na praia.

Mas, nossa tarefa não acabará aí; pelo contrário, é onde realmente vai começar. 


Ou conseguimos superar o círculo vicioso da alternância entre autoritarismo e populismo, ou continuaremos joguetes da História, que é como a burguesia nos quer ver.

Já temos todos os elementos necessários para uma conclusão definitiva: nem os Bolsonaros nem os Lulas oferecem solução para o impasse brasileiro.

Motivo? É que a crise do sistema chegou a um ponto em que não há mais governo sob o capitalismo capaz de proporcionar abastança para países periféricos como o nosso. As nações poderosas estão tentando é salvar a si próprias.

Então, a retomada do crescimento econômico se tornou uma meta que, no nosso caso, transcende o capitalismo. Até porque marchamos para uma depressão global que se desenha como muito pior que a da década de 1930.

Chega a ser até risível a pretensão de que, com alguma reformas neoliberais, o Brasil iria sair da penúria enquanto os gigantes capitalistas nela estivessem entrando. Paulo Guedes nunca passou de um mercador de ilusões.

Se trocarmos um governo selvagem na esfera do capitalismo por um governo bonzinho na esfera do capitalismo, nada realmente se resolverá. Continuaremos desperdiçando um tempo que cada vez mais nos é escasso.

Depende de nós erguermos, sobre os escombros dessa esquerda que tem perdido todas as batalhas importantes ao longo da década atual, uma esquerda realmente revolucionária, que coloque como prioridade estratégica nº 1 a superação do capitalismo. 

[E não uma enésima tentativa de conviver harmoniosamente com ele, desde já fadada ao mesmo insucesso de todas as anteriores, pois deveríamos estar carecas de saber que, em algum ponto do caminho, qualquer governo popular nos moldes dos de Lula e Dilma receberá sempre um inglório pé na bunda.]

Contribuir para a gestação de uma nova esquerda, com líderes bem diferentes desses que pavimentaram o caminho para a vitória de Bolsonaro, é o último serviço que me proponho a prestar para a sociedade brasileira.

E é o que manterá minha determinação não só aos 69 anos, mas enquanto tiver forças e lucidez para continuar perseguindo meus objetivos maiores. Como diziam Gil e Caetano outrora, “é preciso estar atento e forte / não temos tempo de temer a morte”.

Estarei tentando, até o fim, legar aos pósteros o Brasil com que sonhava em 1967, quando tracei o rumo que queria dar à minha existência. 

Ele me conduziu às estrelas e também aos abismos, mas não o trocaria por nenhum outro. Como Neruda, confesso que vivi. (Celso Lungaretti)

O QUE FAZER COM TODOS OS PROCESSOS DA LAVA JATO CONTAMINADOS POR ABUSOS DE PODER? SE NÃO PRESTAM, JOGUE-SE FORA!

Um clássico do tempo em que ainda havia vida inteligente no cinema voltado para o grande público (esse que hoje lota salas para assistir às besteirinhas da Marvel Comics…) foi Agonia e êxtase, de 1965, dirigido por Carol Reed.

O tema: a conturbada parceria entre dois homens de personalidade muito forte, o papa guerreiro Júlio II e o pintor Michelangelo Buonarroti, da qual resultou a maior obra-prima de arte religiosa em todos os tempos, a série de pinturas que decorou o enorme teto da Capela Sistina, com destaque para A criação de Adão

Principalmente escultor, Michelangelo de início não ficou empolgado com a tarefa e foi preenchendo os espaços com pinturas sacras convencionais, suficientes para satisfazer as expectativas do contratante. Até que, na taverna onde fazia suas refeições, o dono destruiu os barris de vinho que azedara, virando vinagre. E justificou: “Se não presta, joga-se fora”.

Consciente de que seu trabalho não vinha sendo o melhor que poderia fazer, Michelangelo também destruiu tudo que havia feito e recomeçou do zero, passando a criar imagens realmente inspiradas, mesmo que a empreitada lhe custasse muito mais esforço e consumisse quatro anos de sua existência.

É o dilema do Supremo Tribunal Federal neste instante. A Operação Lava-Jato está totalmente desmoralizada, agora que sua máscara foi arrancada pelo Intercept Brasil e ficamos sabendo que muitas das condenações obtidas resultaram de uma tabelinha ilegal entre sua força-tarefa e o juiz dos casos, Sergio Moro. 

Então, ao invés de um julgador neutro, quem sentenciava era, na prática, o comandante secreto da força-tarefa: Moro orientava Deltan Dallagnol sobre como ele e sua equipe deveriam preparar o pacote para que a condenação fizesse algum sentido em termos jurídicos.

Mais: a força-tarefa mentia descaradamente para os ministros do STF, o que Teori Zavascki até procurou evitar, mas seu sucessor, Edson Fachin, engolia as lorotas como um patinho.

Mais: o ex-procurador geral da República Rodrigo Janot relata no seu livro de memórias a pressão que sofreu de Dallagnol e integrantes da força-tarefa, no sentido de antecipar a apresentação de uma denúncia contra Lula que era condição necessário para, noutro processo, poderem acusá-lo de crime grave e com pena rigorosa. 

Janot garante ter resistido à pressão descabida e mantido seu cronograma; fica claro, contudo, que a força-tarefa estava disposta a tudo,  não só para obter condenações, mas também para maximizar o tempo de prisão.

Mais: acabamos de saber que auditores da Receita Federal incumbidos de investigar os envolvidos com os escândalos no RJ montaram um lucrativo negócio de extorsão de delatores premiados.

Tudo isso e muito mais que veio à tona no presente ano deixa aos ministros do Supremo Tribunal Federal um único caminho para honrar suas togas: se não presta, joga-se fora!

Estão discutindo o que anular em processos nos quais os acusados de verdade tiveram de apresentar suas alegações finais na mesma data dos delatores premiados, os quais, na verdade, embora estes últimos, na prática, tivessem deixado de ser acusados e se tornado paus mandados dos acusadores.

É ridículo tentarem encontrar uma fórmula mágica para anular algumas sentenças e preservarem outras. Cogitam casuísmos do tipo restringir o direito à anulação a quem entrou com pedido no sentido de conhecer exatamente do que o acusavam antes de apresentar sua defesa final; restringi-lo às condenações nas quais se constata influência evidente das delações premiadas no veredito, etc.

Mas, obviamente, as delações premiadas criaram indisposição contra todos os processados e ajudaram a dar credibilidade à farsa judicial na qual tais processos se constituíram.

Então, se não prestam, que se joguem fora todos os trâmites desses processos e se recomece do zero!

Pois, se for apenas para dar credibilidade aos abusos de poder dos agentes do Estado, assuma-se de uma vez que no Brasil vige a lei do mais forte e desmonte-se o oneroso sistema de Justiça que estaria apenas salvar aparências e enganar trouxas. (por Celso Lungaretti)

OS VERDADEIROS LEGADOS DA LAVA JATO SÃO UM PAÍS EM FRANGALHOS E UM GOVERNO DE ABERRAÇÕES

Os perspicazes cansaram de cantar a bola de que, alcançado o objetivo de recolocar a direita-ela-mesma no poder, em substituição a serviçais ditos de esquerda que nem sequer para gerenciar o capitalismo se mostraram competentes, a Operação Lava Jato seria esvaziada.

Como os leitores podem constatar no artigo do Celso Rocha de Barros aqui postado, é o que sucede neste momento.

Donde se conclui que, pela segunda vez seguida, uma eleição presidencial brasileira foi marcada por um grotesco estelionato eleitoral: 

— Dilma Rousseff prometeu que não deixaria serem implantadas as reformas neoliberais exigidas pelo grande capital e a primeira coisa que fez, após a posse, foi nomear o neoliberal Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, concedendo-lhe carta branca para implantar as reformas neoliberais;

— Jair Bolsonaro prometeu dar força total ao combate à corrupção (com a qual, no mínimo, compactuara durante toda sua trajetória política), mas é conivente com a desmoralização de Sergio Moro e o esvaziamento da Lava Jato, embora os continue apoiando para efeito externo.

No segundo caso, permito-me considerar apenas para efeito retórico a pergunta do Rocha de Barros:

Vou morrer sem entender por que, em algum momento, o Brasil achou que Jair Bolsonaro estava preocupado em combater a corrupção.

É óbvio que o meu xará entendeu, sim, o porquê. A corrupção chegou ao Brasil a bordo das caravelas portuguesas, já dura mais de meio milênio e, nas últimas sete décadas, tem sido amplamente utilizada pela direita para derrubar governos que não são do seu agrado. Incrivelmente, nosso povo sempre tem engolido o isca, o anzol e até mesmo a linhada…

Nem Getúlio Vargas, com todo o seu carisma populista, conseguiu evitar que as denúncias udenistas do mar de lama o tragassem. O máximo que pôde fazer foi, por meio do suicídio e da sua famosa carta, evitar que os conspiradores colhessem o prêmio de sua infâmia.

vassourinha do Jânio Quadros não varreu a bandalheira, desviando-se para alvos mais fáceis como o monoquíni e as brigas de galo.

Os golpistas de 1964 tinham como grande trunfo propagandístico, além do anticomunismo, a ameaça de adotarem linha dura contra os corruptos (daí aquela quartelada ter sido apelidada, durante algum tempo, de Redentora…). Os otários de classe média que se deixaram iludir, foram doar ouro para o bem do Brasil..

Igualzinho ao Bolsonaro, o caçador de marajás Fernando Collor estava cercado de marajás por todos os lados e com eles convivia em perfeita comunhão de interesses, mas esta ficha só caiu para o povo depois que havia jogado seu voto no lixo.

Caberia eu encerrar o post vituperando o povo brasileiro por cair várias vezes no mesmo conto do vigário. Mas, dou um desconto por se tratar, na maioria, de gente simples, que acredita piamente nas manipulações da indústria cultural (e, agora, na propaganda enganosa com que a direita infesta o WhatsApp).

Mas, é indesculpável que ditos progressistas vira e mexe derrapem também, embora devessem estar carecas de saber que o combate à corrupção é uma bandeira da direita, conforme Paulo Francis cansava de repetir, alfinetando contingentes de esquerda que, contrários a Vargas, botaram azeitonas na empada udenista de 1954.

Eu bati muito na mesma tecla em 2008, quando parte considerável da esquerda tomou partido numa disputa de gangstêres do capitalismo por um florescente segmento do mercado de telecomunicações, favorecendo uma quadrilha em detrimento da outra apenas porque um banqueiro menor estava sendo preso e depois libertado pelo Gilmar Mendes. Mas, como nos westerns italianos, não havia herói nenhum naquele imbroglio todo, só bandidos dos dois lados.

Precisaríamos ter coragem de mostrar ao povo que o combate à corrupção sob o capitalismo não passa de um interminável enxugar gelo. Depois da temporada de espetaculosa caça às bruxa, pouco a pouco os sabás vão voltando na surdina.

Num sistema que coloca o enriquecimento pessoal como prioridade máxima da existência humana, sempre haverá quem tenha esperteza e coragem suficientes para tentar alcançar tal objetivo à margem da lei.

E, por piores que sejam os castigos para os infratores, isto jamais vai dissuadir todos os indivíduos, pois muitos deles acreditarão ser capazes de cometer o crime perfeito e escapar impunes.

Então, nisto discordo do Rocha de Barros e de todos que querem preservar algum legado da Lava Jato. 

Os verdadeiros legados são um país em frangalhos e o abominável governo que está aí, e este só merece ser preservado na memória circense, categoria espetáculos de aberrações. (por Celso Lungaretti)

EI, BOZO!

EHeil, Bolsonaro! (vide aqui), meu bom amigo e tradicional colaborador deste blog, Rui Martins, fez uma análise política séria de algo que absolutamente não era sério nem importante: aquele amontoado de abominações ideológicas, velharias medievais, crassas asneiras e delírios de anormais reunidos no discurso desta 3ª feira (24) do mais tosco presidente brasileiro de todos os tempos. 

Como vivo na pátria desalmada, idiotizada, Brasil, estou acostumado com a vacuidade intelectual de todas e quaisquer manifestações faladas ou tecladas do Bozo. Então, marcante para mim naquele stand up na ONU foi apenas sua enorme dificuldade para ler a cola do teleprompter, revelando que nem algo tão primário foi capaz de fazer pessoalmente: a tarefa coube a escrevinhador(es) de discursos… que jamais passaria(m) de aprendiz(es) nas agências de comunicação nas quais trabalhei! 

Humoristas profissionais ao menos decoram seus scripts, mas até nisto o Bozo é amador.

É normal que, morando e trabalhando em Genebra, o Rui tenha uma visão exagerada tanto do Bozo quanto da ONU, cuja impotência em impedir que as nações poderosas (com destaque para Israel) façam as mais fracas de sacos de pancadas lhe valeu o apropriado apelido de muro de lamentações

Na verdade, o discurso do Bozo, como muitos analistas escreveram, não passou de uma oportunidade perdida: em nada alterou o péssimo conceito que o mundo já tinha dele e só serviu para agradar aos seus seguidores brasileiros mais aloprados, os únicos que o continuarão apoiando caso sua popularidade continue despencando na velocidade atual.

Então, eu nem desperdiçaria meu tempo com a algaravia do Bozo se não fosse este trecho do artigo do Rui:

…chegou também a hora de se deixar de se falar em Bozo, de se tratar o presidente como idiota. Não é por aí que se conseguirá reverter a situação política no Brasil. Ele até que pode ser, ou se fazer como se fosse, mas, ali na tribuna da ONU, lendo seu discurso, ele se comportou como um líder nacionalista de extrema-direita, um Hitler tupiniquim…

Ora, que motivo eu, já chegando aos 69 anos, teria para continuar lançando no espaço virtual minhas mal tecladas linhas, se não fosse pelo prazer de dar nome aos bois, o que não pude fazer em boa parte da minha carreira jornalística? 

Então, como agora não sou mais obrigado a poupar os calos dos fãs de nenhuma celebridade, nem pretendo adotar raciocínios de propagandistas, trato o presidente como bufão, pois é como bufão que o vejo. Simples assim. 

Para dizer a verdade, nem mesmo estou certo de que ele seja realmente um fascista convicto. Pode muito bem não passar de um espertalhão que vislumbrou no anticomunismo e no antipetismo bons nichos para a arregimentação de patetas que batalhariam por ele de graça; enfim, uma versão mais rudimentar do astrólogo que descobriu ser mais rentável deixar o movimento dos astros em paz e extrair seus ganhos das cartilhas simplificadas de ódio para otários.

Aproveito para tranquilizar o Rui quanto à reversão da situação política no Brasil: não precisaremos deixar de tratar o Bozo como idiota, pois o desvario ultradireitista está sendo varrido do horizonte político, conforme o Igor Gielow assinalou (vide aqui).

Por quê? Porque jamais teve chance de vingar em médio e longo prazos, já que a globalização dos mercados é um fenômeno irreversível sob o capitalismo (ou seja, enquanto o capitalismo durar). O drama do Reino Unido está servindo para comprová-lo: na ponta do lápis, o Brexit é receita certa de empobrecimento acentuado e acelerado. 

Como  a História não marcha para trás, é tão inviável querer restaurar a moral e misticismo da Idade das Trevas, anulando toda a evolução da humanidade desde o iluminismo, como tentar cancelar a 3ª Revolução Industrial, recriando protecionismos, reservas de mercado e outras artificialidades soberanamente burras. [Lembram de quando a Política Nacional de Informática, promulgada em 1984, nos fazia avançar em passo de lesma e os carros aqui fabricados bem mereciam a qualificação de carroças?]

Então, como quem permanecer aberto ao fluxo internacional de produtos e serviços terá uma vantagem competitiva enorme com relação a quem constrói muros para separá-lo do vizinho, desde o início eu sabia que era inevitável o novo nacionalismo selvagem morrer na praia, como está morrendo.

Só errei no timing: pensei que ele fosse demorar mais para derreter, causando estragos maiores. 

Enfim, o Bozo, na ONU, me fez lembrar uma frase do filme Made in USA, do Godard dos bons tempos, quando a matadora profissional diz ao poeta: “Quando falo de um homem, é porque ele já morreu”.

Aquele discurso atroz versou sobre aquilo que já morreu e muitos só perceberão quando os cadáveres baixarem à terra. (por Celso Lungaretti)

POPULISTAS DE DIREITA E DE ESQUERDA BERRAM EM UNÍSSONO: “A AMAZÔNIA É NOSSA!”. VAMOS REFLETIR SOBRE ISTO?

Uma conjunção de erros terríveis, acasos funestos e manipulações tecnológicas que pegaram a Justiça de surpresa (possibilitando que eleitorados fossem submetidos a verdadeiras lavagens cerebrais), fez com que uma tempestade perfeita desabasse sobre Inglaterra, Estados Unidos e Brasil.

Como consequência, estes três países passam por seus piores momentos nas décadas recentes, com repercussões em escala planetária.

No Brasil, um presidente com QI negativo e alma de vereador obstina-se em cumprir suas promessas aos apoiadores de campanha, que foram os piores possíveis: trogloditas do agronegócio, fabricantes de armas, empresários cujo universo mental é ainda o do capitalismo selvagem, fanáticos religiosos que querem anular toda a trajetória civilizatória a partir do iluminismo, ultradireitistas alucinados, racistas, homófobos, misóginos e outros refugos da humanidade. 

Quem mais apoiaria Jair Bolsonaro? E que outro candidato seria tão tacanho a ponto de acreditar que os compromissos assumidos com essa ralé repulsiva e ignóbil precisariam ser honrados?!

Então, como a única ideologia que ele conhece é a das cartilhas do anticomunismo tosco para arrancar grana de perfeitos otários (um conjunto de garranchos impressos, cujo autor é um astrólogo picareta que faz qualquer coisa para alavancar seus negócios), Bolsonaro beija o chão em que Donald Trump pisa.

Ao mesmo tempo e incorrendo em flagrante contradição, ele insufla um nacionalismo fake sempre que as nações civilizadas cobram do Brasil que pare de dar sinal verde para a destruição da Amazônia.

As ridicularias do populismo de direita ameaçam ressuscitar as do populismo de esquerda, começando por Lula, é claro. Ele acaba de dar entrevista à RFI, na qual não poderia faltar o brado retumbante de A Amazônia é nossa! (ambos os populismos concordam em ser atrasados, mantendo uma visão de mundo que caducou no século passado). Eis o mais do mesmo do Lula:

A Amazônia é propriedade do Brasil. Ela faz parte do patrimônio brasileiro. É o Brasil quem tem que cuidar dela.  

Isso não quer dizer que é preciso ser ignorante, que a ajuda internacional não é importante. Mas a Amazônia não pode ser um santuário da humanidade. 

Lembro que 20 milhões de pessoas vivem lá, precisam comer e trabalhar. Devemos também cuidar deles, levando em consideração a preservação do meio ambiente.

Não lhe parece ocorrer que 20 milhões de pessoas só comem e trabalham enquanto estiverem vivas, sendo tal condição exatamente o que está em jogo quando o capitalismo destrói de forma tão acelerada os recursos indispensáveis para a sobrevivência da espécie humana.

A internacionalização da Amazônia até que seria justificável se o mundo inteiro passasse a colocar como sua prioridade máxima deter a atual marcha da insensatez ecológica. Mas, enquanto não se eliminarem causas muito mais graves do aquecimento global e das alterações climáticas, como o uso de combustíveis fósseis para o transporte individual, a coisa soa farsesca. 

Evidentemente, é muito mais fácil para os poderosos imporem sua vontade ao Brasil do que às indústrias automobilística e do petróleo, mas a hora das meias medidas já passou faz tempo. Ou nos compenetramos de que os encaminhamentos têm de ser encarados desde já como emergenciais, ou esperamos as grandes catástrofes começarem a acontecer para, quem sabe então, começarmos a agir de verdade, torcendo para que não seja tarde demais para evitarmos o pior.

E por que pensarmos em respostas definitivas a problemas transitórios? Afinal, o Brasil só deixou de ser um gestor pelo menos aceitável da Amazônia no presente ano, quando um circo de horrores tomou o lugar do governo federal. 

Os mesmos donos do PIB que colocaram Bolsonaro na Presidência da República podem retirá-lo quando bem entenderem, tão logo constatem que sob ele a economia não reaquecerá de jeito nenhum, pois, com reformas ou sem reformas, a insegurança permanente que ele inspira é péssima para os negócios, afugentando novos investimentos e, portanto, prolongando a estagnação. 

Meu prognóstico é que tal decisão seja tomada nas reuniões de novembro/dezembro em que as grandes empresas fazem um balanço de seus resultados do ano que finda e definem metas para o seguinte. Se concordarem que o descarte de Bolsonaro é necessário, iniciarão 2020 com a perspectiva de encaminharem sua remoção. E certamente a conseguirão, mais facilmente até do que no caso da Dilma, pois cada vez mais brasileiros se dão conta de que ele não passa de um desequilibrado crônico.

Então, o real problema imediato para as nações civilizadas é evitarem que o governo Bolsonaro, enquanto durar, produza mais estragos na Amazônia. Certamente encontrarão soluções menos bombásticas para atingirem tal objetivo, pois país tão fragilizado economicamente quanto o Brasil não tem como resistir às pressões que eles podem desencadear.

E muita coisa mudará quando o retumbante fracasso econômico de Donald Trump fizer com que ele seja expelido na eleição do ano que vem e quando Bolsonaro vazar, provavelmente também no ano que vem. Quem viver, verá.

Quanto à desnorteada esquerda brasileira, o que não pode é reassumir a cegueira nacionalista em pleno século 21. Tem de finalmente se compenetrar  de que tudo mudou quando foi ultrapassada a barreira da necessidade. 

Passamos milênios disputando a ferro e fogo aquilo que era escasso e insuficiente para todos. Agora, dispomos de conhecimentos científicos e meios tecnológicos para garantir a cada ser humano o suficiente para uma existência digna, desde que os aproveitemos racionalmente e levando em conta a necessidade de preservarmos nosso habitat e não esgotarmos os recursos que nos são indispensáveis. 

Então, a postura com relação aos outros povos têm de ser drasticamente alterada: não podemos mais encará-los como adversários na disputa por bens escassos, mas sim como parceiros na construção de um mundo em que se garanta o suficiente para a felicidade de todos.

Seria ótimo se conseguíssemos nos imbuir desta nova consciência antes de estarmos com a corda no pescoço, precisando unirmo-nos para nossa salvação pura e simples.

E é à esquerda que caberia disseminar a nova consciência, ao invés de continuar “sempre, sempre, matando amanhã o velhote inimigo que morreu ontem”, como disse Caetano Veloso num desabafo inspirado de meio século atrás. (por Celso Lungaretti)

RANDOLFE RODRIGUES APANHOU DO CAPITÃO E DEPOIS VIROU ‘LARANJA’ DOS TENENTES TOGADOS. TEM DE RENUNCIAR!

Em outubro de 2013, o senador Randolfe Rodrigues (Psol) foi agredido pelo deputado Jair Bolsonaro (PP) ao integrar um grupo de parlamentares ligados à Comissão Nacional da Verdade que visitava as instalações de um dos piores centros de tortura da ditadura militar, o DOI-Codi do Rio de Janeiro.

Em outubro de 2018, como o Intercept acaba de revelar, o senador Randolfe Rodrigues (Rede) serviu de laranja para a força-tarefa da Lava Jato, que tentava impor limites à atuação do ministro Gilmar Mendes no Supremo.

 

A articulação entre o crítico do antigo totalitarismo e os tenentes togados do novo autoritarismo resultou na apresentação, por parte de Randolfe, de uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental no STF para impedir que Gilmar soltasse presos em processos nos quais ele não fosse o juiz da causa.

O que estará dizendo? “Seu pai me bateu, mas já esqueci”?

A força-tarefa da Lava Jato, sabe-se agora, tinha Deltan Dallagnol como figura de proa e Sergio Moro como comandante secreto. Desempenhou papel de primeira grandeza na tomada da Presidência da República pela horda bolsonarista.

Se Randolfe tiver conservado um pingo de dignidade, renunciará imediatamente ao mandato.

Se não o fizer, muita gente concluirá que ele mereceu mesmo a porrada na cara que tomou em 2013, não pelo que fazia naquele momento, mas pelo que viria a fazer cinco anos depois. (por Celso Lungaretti)

É GRANDE A MARGEM DE MANOBRA PARA OS PODEROSOS, SEM INFRINGIREM A LETRA DAS LEIS, ESTUPRAREM O ESPÍRITO DE JUSTIÇA

No domingo publiquei dois posts, este e este, que dão ao leitor uma boa noção de como o encalacrado Flávio Bolsonaro se livrou, ainda que provisoriamente, de investigações que, em circunstâncias normais, o acabariam levando a ser processado e condenado.

Como seu caso, a partir da decisão do ministro Antonio Dias Toffoli, presidente do STF, ficou na dependência de outro cujo julgamento está marcado para novembro, o 01 não será incomodado pelas autoridades nos próximos meses.

E, a julgar por precedentes como o de Ronaldo Cunha Lima, muitos outros meses ou anos poderá ele ganhar por meio das infinitas manobras protelatórias que as leis brasileiras facultam a quem tem luminares do Direito a defendê-los, até ocorrer a prescrição.

Para quem não se lembra, Cunha Lima alvejou Tarcísio Burity, seu adversário político, em pleno restaurante, diante de dezenas de testemunhas. Mesmo assim, seus defensores e as influências que mobilizou conseguiram evitar que fosse preso, perdesse o cargo de governador da Paraíba ou se tornasse inelegível (viria a ser, em seguida, senador e depois deputado federal). 

Nunca foi inocentado: seu processo tramitou em passo de tartaruga e finalmente evaporou (expressei minha indignação com este e outros casos aberrantes aqui).

É um roteiro cuja repetição pode muito bem ocorrer agora, em benefício do príncipe herdeiro. E, em termos jurídicos, nada há a objetar-se na decisão de Toffoli, pois tudo que ele fez encontra respaldo em nossas leis.

Foi o que cansei de repetir, em vão, durante a lengalenga do impeachment da Dilma. A retórica panfletária a respeito de golpe esbarrava nos fatos de que todos os procedimentos constitucionais estavam sendo cumpridos e as acusações possibilitavam, sim, sua condenação à perda do cargo. 

Nunca presidente nenhum haver sido impichado por descumprimento da lei orçamentária  não implicava que a dita cuja tivesse virado letra morta; ao outro lado bastava cinicamente retrucar que para tudo há uma primeira vez.

Daí meus esforços para convencer os petistas de que, quando a Câmara Federal deu sinal verde para a abertura do processo de impeachment, iniciou-se a contagem regressiva para a destituição de Dilma, com as batalhas jurídica e parlamentar se tornando mera perda de tempo. 

Minha sugestão foi de que ela renunciasse imediatamente e toda a esquerda se unisse em torno da bandeira de eleição direta para a escolha de quem a sucederia, aproveitando a impopularidade de Michel Temer para retomar a ofensiva política, ao invés de passar meses sangrando e sendo desmoralizada, até o mais amargo (e inexorável) fim. Ninguém escutou.

Quanto à acusação de golpe, nem fez as massas se mobilizarem significativamente na defesa do mandato de Dilma, nem sensibilizou ONU, OEA, cortes internacionais, etc., pois só o espírito das leis brasileiras havia sido estuprado; a letra das leis não sofrera arranhão nenhum. 

Golpes brancos não causam comoção maior, ainda mais quando têm lugar num continente que até poucas décadas atrás foi palco de tantos golpes sanguinários, com tanques nas ruas e resistentes executados/torturados aos montes.

Então, as novas gerações têm de aprender a lição que a minha estava careca de saber: as instituições da democracia burguesa estão, acima de tudo, a serviço dos poderosos. 

Se quisermos uma Justiça de verdade, teremos de conquistá-la superando o capitalismo. A utilidade da que temos agora é apenas tática. Não é ela que nos dará o que formos incapazes de conquistar nas lutas sociais. Ponto final. (por Celso Lungaretti)

E SE O TOFFOLI SOLTAR O LULA DURANTE O RECESSO DO SUPREMO?

O pulo do gato que quase deu certo em julho passado…

A questão acima foi colocada pelo blogueiro do UOL Josias de Souza, que, contraditoriamente, sempre se mostra simpático à Lava Jato e quase sempre desce o cacete no Governo Bolsonaro, como se o segundo não fosse consequência direta da primeira. 

E como se o tenentismo togado pudesse propiciar outra coisa além de um(a) presidente da República autoritário(a) tentando impor sua vontade ao Legislativo e ao Judiciário.

O Josias é daqueles que acreditam na possibilidade de erradicar-se a corrupção sob o capitalismo. Eu considero mais plausível a existência de mula sem cabeça e fada dos dentes…

Mas, se a defesa do Lula protocolar no Supremo Tribunal Federal um habeas corpus para o libertar durante o mês de julho, a decisão caberá mesmo ao plantonista, ou seja, ao Dias Toffoli. Daí o receio do Josias, pois ele obviamente escreveu o post para que não aconteça uma repetição do solta-não-solta de quase um ano atrás, quando o desembargador Rogério Favreto, do TRF-4, esteve próximo de mandar Lula pra casa no seu plantão de fim de semana:

Antes de vestir toga, Toffoli foi assessor da liderança do PT na Câmara, advogado eleitoral de Lula, auxiliar jurídico de José Dirceu na Casa Civil e advogado-geral da União no governo do agora presidiário petista.

…pode ser tentado de novo em julho próximo e obter êxito…

A despeito desse histórico, Toffoli não hesitou há um ano em liderar na 2ª Turma a votação que abriu a cela de um José Dirceu já condenado em segunda instância a mais de 30 anos de cadeia.

Josias aconselha o Toffoli a negar o habeas corpus caso ele se corporifique nas suas mãos, sob pena de ter de passar “o resto da vida fugindo das mordidas” e de ser obrigado a trocar “o terno por uma armadura”.

Eu admito que também temo tal hipótese, mas por motivo bem diferente. 

O Lula, com sua confusionista candidatura fantasma que jamais seria consentida pelo TSE e com sua desastrosa sabotagem (a puxada de tapete que deu no Ciro Gomes) à união da esquerda na eleição de 2018, já atirou a Presidência no colo do Bolsonaro.

Espera-se que, pelo menos, não ajude Bolsonaro a tornar-se um ditador. A única chance que o dito cujo tem de ser bem sucedido num autogolpe é utilizando novamente Lula como espantalho e açulando suas turbas contra o Supremo e o Congresso. A traquinagem petista/toffolista preencheria dois destes requisitos. 

…mas, brincar com fogo seria uma boa ideia no cenário atual? 

Correr tamanho risco apenas para garantir algumas semanas de liberdade para Lula (a decisão monocrática de Toffoli teria de passar pelo crivo do plenário tão logo o STF voltasse do recesso) seria o cúmulo da insensatez e do egoísmo. 

O diabo é que os dirigentes petistas várias vezes têm colocado os interesses específicos do partido acima dos interesses maiores da esquerda, dos trabalhadores e dos brasileiros em geral. 

Que botem a mão na consciência e não brinquem com fogo, pois muita gente boa se queimaria junto com eles.

XEQUE MATE: UMA VEZ CONFIRMADA A VERACIDADE DAS MENSAGENS VAZADAS, A SENTENÇA DO LULA TERÁ DE SER ANULADA

O que já foi divulgado das mensagens trocadas entre Sergio Moro e os procuradores da força-tarefa da Lava Jato é mais do que suficiente para concluirmos que o ex-presidente Lula não teria sido condenado segundo as leis deste país, mas sim vitimado por um conluio entre o juiz que deveria julgar de forma isenta e o Ministério Público que deveria montar o processo sem favorecer ou prejudicar intencionalmente ninguém. 

Se Moro chegava ao cúmulo de recomendar que determinada procuradora não participasse da oitiva de Lula e o veto era mesmo acatado pela Lava Jato, não há mais nada a se discutir. É a gota d’água.

Então, como disse o ministro do Supremo Gilmar Mendes, pouco importa a forma como tais mensagens chegaram ao The Intercept, mas sim se eram estas mesmas as afirmações delas constantes ou houve alguma adulteração.

Ou seja, resta agora uma questão meramente técnica: a realização de perícias. Se foi isso mesmo que conversaram, na surdina, partes que só deveriam tratar desses assuntos às claras e nos autos, a nulidade é a consequência óbvia e inescapável.

Caso contrário, só nos restará deixarmos de ilusões sobre Estado democrático de Direito e reconhecermos que estamos num Estado arbitrário de direita(por Celso Lungaretti)

ALERTA VERMELHO: QUASE UM SÉCULO DEPOIS DA MARCHA SOBRE ROMA…

…OS FASCISTAS DAQUI A TENTARÃO IMITAR NO DIA 30!

Um amigo de décadas acaba de receber pelo WhatsApp e me repassar um áudio de 1’05’, no qual o locutor que se identifica como Beto Fontes, de Londrina, PR (seu perfil no Youtube o apresenta como “jornalista investigativo, analista de mídias sociais, ativista e coaching“), faz esta convocação para uma versão brasileira da Marcha sobre Roma de 1922, que marcou a conquista do poder por parte dos fascistas italianos:

Este áudio é curtíssimo para que vocês possam compartilhar em todas as redes.

Dia 30/06/2019 voltaremos às ruas contra o crime político organizado.

A pauta será única e objetiva, ou seja, o tiro letal contra a corrupção que vem atravancando um governo que nós elegemos democraticamente.

Todo poder emana do povo, artigo 1º, é constitucional. E o povo irá às ruas ordenado para que o presidente Jair Bolsonaro acione o artigo 142 da Constituição Federal e faça uma faxina constitucional.

[Que] Juízes e políticos corruptos, inclusive jornalistas criminosos, [sejam] julgados e condenados sem redução de pena.

Quem manda no Brasil somos nós e o governo que nós elegemos democraticamente está precisando do nosso apoio.

E a pauta é objetiva e única: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.

Quanto ao citado artigo 142, eis o que ele estabelece:

As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.

Então, depreende-se que se pretenda colocar o povo nas ruas para dar ao presidente Jair Bolsonaro um pretexto para ele, presumivelmente em nome da defesa da lei e da ordem, ordenar às Forças Armadas que barbarizem o Judiciário, o Legislativo e a imprensa.

Isto se faz com anuência do próprio presidente ou à sua revelia? Não há como provar, mas se pode conjeturar, a partir deste relato de hoje (2ª feira, 17) do jornalista Reinaldo Azevedo:

É de assombrar a sequência de ações destrambelhadas do senhor presidente da República em 96 horas. Entre a quinta, data em que o deputado Samuel Moreira apresentou o texto da Previdência, e este domingo, o chamado Mito se dedicou incontinente à tarefa de gerar crises. 

E não! Não se trata de coisas irrelevantes. Pior: em duas das invectivas contra o bom senso, contou com o auxílio de Paulo Guedes, tido por incautos como âncora da estabilidade do governo. 

…Atenção! Na mesma quinta em que se apresentou o texto da Previdência, Bolsonaro demitiu Santos Cruz da Secretaria de Governo e pôs em seu lugar um general da ativa: um paraquedista vai fazer articulação política. 

Na sexta, anunciou que vai pôr na rua o presidente dos Correios e criticou o STF, voltando a defender um evangélico no tribunal. No mesmo dia, Guedes disparou contra Joaquim Levy, então presidente do BNDES, e desferiu duras críticas ao Congresso e ao texto da reforma. 

No sábado, o presidente disse que a cabeça de Levy estava a prêmio e que, para governar, precisa mais do povo do que do Parlamento. Adicionalmente, defendeu o armamento da população e, se preciso, a luta armada propriamente. 

E isso em meio ao escândalo das conversas de pornografia política e jurídica explícita entre Sergio Moro e Deltan Dallagnol.

Ou seja, há fortes motivos para supormos que Bolsonaro esteja mesmo decidido a virar a mesa para obter poderes bem maiores do que a Constituição lhe concede. E que ele sonhe com uma reedição do êxito de Mussolini ao marchar com seus fascistas sobre Roma.

Mas, se todos que repudiam o golpismo e o autoritarismo reagirem firmemente, Bolsonaro pode, isto sim, bisar o fracasso retumbante que Jânio Quadros colheu em 1961 com sua renúncia que embutia um autogolpe. (por Celso Lungaretti)