O CRIME COMPENSA: A DOCE VIDA DE UM ALCAGUETE DE LUXO EM NOVA YORK.

Toque do editor

Para os mais politizados, foi (ou deveria ser) extremamente chocante que: 

  • promotores de Justiça tenham recebido de braços abertos um criminoso do colarinho branco que lhes trazia uma gravação ilegal como argumento para convencê-los a aceitarem-no como delator premiado;
  • que nem sequer tenham submetido tal gravação, precária e com gritantes indícios de manipulação, a algum perito qualificado; e
  • que, constatando que ela poderia servir para derrubar um presidente, uma autoridade superior tenha zelado por um item tão melindroso de forma extremamente relapsa a ponto de ele logo alçar voo e aterrissar nas páginas de um grande jornal, virando o País de pernas pro ar (há outras explicações possíveis, claro, mas um jornalista sério não pode afirmar aquilo que não tem como provar…).

Para o público em geral, mais chocante ainda talvez sejam as regalias inusitadas que tal criminoso recebeu, sentimento, aliás, expresso no editorial de outro jornalão:

O mecanismo da delação premiada deve, naturalmente, corresponder ao nome —admitindo sensível redução das penas previstas. O prêmio, todavia, não pode chegar à quase impunidade.

Importa investigar, ademais, os indícios de que o grupo JBS teria alcançado lucros especulativos graças ao impacto das delações. Seria somar a provocação à sem-cerimônia, o cinismo ao insulto.

Daí a relevância deste relato de Isabel Fleck, enviada especial da Folha de S. Paulo a Nova York, sobre a doce vida de corruptos que ajudam a puxar o tapete de presidentes  inclusive porque esquerdistas desnorteados andaram defendendo e heroicizando o alcaguete de luxo (mas que, em termos morais, é pior do que lixo) nas redes sociais. (por Celso Lungaretti)

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JOESLEY VIVE EM DUPLEX DE R$ 51 MIL E FREQUENTA RESTAURANTES DE LUXO EM NY

Ao contrário de suas outras viagens a Nova York, a última passagem da apresentadora Ticiana Villas Boas, mulher do empresário Joesley Batista, pela cidade não teve qualquer foto — com filtro ou sem  nas redes sociais.

É num flat modesto como este que estão vivendo…

O casal costuma fazer bate-voltas para aproveitar alguns dos melhores restaurantes de Nova York, onde tem um apartamento na 5ª Avenida. Mas agora não só eles evitaram a exposição pública como deixaram o dúplex da família antes que fosse revelado, no último dia 18, o áudio em que Joesley grava o presidente Michel Temer numa conversa comprometedora em Brasília.

 

Para escapar da imprensa, o casal e o filho de dois anos se hospedaram num luxuoso flat a duas quadras dali, o Baccarat, em frente ao MoMA (Museu de Arte Moderna), com diárias que chegam a R$ 52 mil. O local fica ao lado da churrascaria Fogo de Chão, um dos lugares preferidos do sócio da JBS na cidade.

 

A rotina do casal em Nova York inclui refinados restaurantes e bares próximos ao seu apartamento, em Midtown e no Upper East Side, a poucos minutos de caminhada.

 

Num deles, o italiano Marea, do chefe Michael White, que fica em frente ao Central Park, é possível gastar US$ 385 (mais de R$ 1.260) em 30 gramas de caviar. O menu completo, com quatro pratos, não sai por menos de US$ 102 (R$ 335) por pessoa.

…o queridinho dos promotores e sua bela esposa.

Um dos lugares preferidos de Ticiana, o exclusivo Polo Bar (da marca Polo Ralph Lauren), só admite a entrada com reserva feitas dias antes  ao menos para clientes comuns.
 

Na carta de vinhos, a grande maioria das garrafas custa mais de US$ 200 (R$ 656), e há opção de mais de US$ 12 mil (quase R$ 40 mil).

 

A rotina de Joesley, com patrimônio individual de R$ 3,1 bilhões segundo a publicação Forbes, e da mulher difere da de endinheirados na cidade americana.

 

VIZINHANÇA — Só entram familiares e amigos mais próximos na cobertura do casal, que fica exatamente ao lado da Catedral de St. Patrick e do Rockefeller Center  dois dos mais famosos pontos turísticos de NY. Não há relato de festas.

 

O apartamento, de três quartos e cerca de 390 metros quadrados, é avaliado em cerca de US$ 15,5 milhões (R$ 51 milhões). O imóvel tem vista comparável à da cobertura, no 58º andar, da Trump Tower, onde mora a primeira-dama americana, Melania Trump, a cinco quadras dali.

Quando não estão se esquivando da imprensa, eles moram aqui.

Nas fotos publicadas por Ticiana em suas contas oficiais, é possível ver, da janela dos Batista, o Empire State, ícone nova-iorquino, e o Rockefeller ao lado.

 

A apresentadora do SBT, que já anunciou que estará afastada da próxima temporada do reality Bake Off Brasil — Mão Na Massa costumava postar fotos suas em caminhadas no Central Park e em ruas de Manhattan. Joesley raramente aparece nos registros.

 

Nos últimos dois anos, o casal aproveitava os intervalos das gravações dos programas de Ticiana para passar dias em Nova York. A última vez havia sido em novembro. Em janeiro, a família foi para a Disney, no estado da Flórida.

 

Quando ela ainda trabalhava na Band como jornalista, função que exerceu até 2015, as passagens dos dois pela cidade eram ainda mais rápidas: o casal embarcava no avião particular de Joesley na noite de 6ª feira e voltavam para o Brasil no domingo.

É isto que nós, brasileiros, merecemos?

Nos últimos dias, Joesley e Ticiana deixaram Nova York para um destino não informado nos Estados Unidos, por razões de segurança, segundo a JBS  o empresário relatou ameaças de morte no Brasil.
 

Na cobertura de Nova York, ainda estão familiares, como José Batista Júnior, irmão mais velho de Joesley e Wesley, que dirigiu a empresa JBS por mais de 20 anos.

 

A família tem uma casa no nome de Wesley no Colorado, onde fica a sede da JBS USA e o casal foi esquiar em 2016.

 

Joesley veio aos Estados Unidos com autorização da Justiça, após fazer a delação premiada e enviar para Miami um iate de 30 metros de comprimento e três andares.

 

Pelo acerto com a Procuradoria-Geral da República, ele pagará multa de R$ 110 milhões (o mesmo vale para Wesley). Em 2016, o lucro dele com a JBS foi de R$ 103 milhões. O acordo de leniência vive um impasse. Os Batista oferecem R$ 4 bilhões, mas investigadores pedem R$ 11 bilhões. (por Isabel Fleck)

PROCURA-SE PRESIDENTE

Certos janotas estão empenhados demais em puxarem o tapete do presidente Michel Temer, mas há entusiasmo de menos nas ruas pelos nomes cogitados para completarem o atual mandato. 

 

Fala-se em Álvaro Dias, Carmem Lúcia, Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin, Gilmar Mendes, Henrique Meirelles, Nelson Jobim, Rodrigo Maia e Tasso Jereissati. Tenho a impressão de que, após não se formar um consenso em torno de nenhum dos outros, acabaria prevalecendo o sábio da República, benquisto pelas elites, mas que pareceria ao cidadão comum mais do mesmo.

 

Já que as soluções ortodoxas não estão empolgando o povo brasileiro, que tal pensarmos nas heterodoxas?

 

Devolvermos o poder aos portugueses? Eles são burros, mas nem tanto. Agora que começam timidamente a superar a crise econômica, tudo de que não precisam é atrelarem seu destino ao de um país que deveria ser socialista mas não quer e tenta ser capitalista mas não consegue.  

 

Confiarmos nosso destino a Deus? O risco seria Ele concluir que isto aqui não tem mais jeito e convocar o Noé.

Cardozo está tentando ser o 5º cavaleiro do apocalipse?

Restaurarmos a monarquia? Seria uma boa se tivéssemos a sinceridade de admitir que quem manda mesmo é o poder econômico e presidente da República só serve para cuidar das miudezas e garantir boquinhas para seu partido, para partidos aliados, para parentes, apaniguados, cupinchas e uma infinidade de outros parasitas. Caindo esta ficha, pensaríamos em alguém para, pelo menos, desempenhar com elegância as funções cerimoniais. Por que não Dom Luís Gastão de Orléans e Bragança? 
 

Empossarmos a Dilma de volta? É o que o hilário José Eduardo Cardozo tenta obter com um pedido de liminar ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Pretende que, por meio de uma mera decisão monocrática, Moraes torne sem efeito toda aquela maratona de votações na Câmara Federal e no Senado supervisionada pelo próprio STF, iniciando uma batalha jurídica que, levada às últimas consequências, estabeleceria o pior conflito de Poderes da nossa história republicana.

Ainda bem que ninguém sério leva o Cardozo a sério!

O ROTTWEILER REINALDO AZEVEDO MORDEU A MÃO DO DONO E FICOU SEM CASINHA

O ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin, relator dos processos gerados pela Operação Lava-Jato, jogou no ventilador um lote de 2.200 gravações resultantes da delação premiada da JBS, inclusive um que traz o jornalista direitista Reinaldo Azevedo, então colunista da veja (que também hospedava seu blogue), criticando uma matéria de capa da revista.

 

Não era ele o investigado, mas sim a interlocutora: Andrea, a irmã do senador Aécio Neves. E a crítica dizia respeito à forma como a revista abordara suspeitas contra Aécio. Azevedo preferia que o tucano fosse poupado de alusões negativas.

 

Azevedo pediu o encerramento do seu contrato com a veja e a revista aceitou.

 

É bem possível que haja jogo de cena em tudo isso. Eu não estranharei se ocorrer uma reconciliação depois que a poeira baixar, pois foram feitos uma para o outro.

Mas, foto do topo e título jocosos à parte (a vida fica muito insossa sem humor), permaneço fiel aos meus princípios, mesmo quanto estou careca de saber bem que a recíproca  jamais será verdadeira. 

 

Declaro, portanto, minha solidariedade ao Azevedo no que tange à ilegalidade gritante cometida por Fachin, ao dar a público uma conversa que não tinha absolutamente nada a ver com o objeto das investigações, mas servia para desacreditar um desafeto dele. Pode não ter sido uma vendetta ou uma forma de intimidação, mas que parece, parece…

 

Quanto às suspeitas suscitadas pela revelação estapafúrdia, eu até teria algo a dizer sobre o assunto, mas não o farei desta vez. Vou esperar até surgir uma oportunidade que não envolva grampos e abusos de poder.

De resto, a presidente do STF, Carmen Lúcia, afirmou:  

O Supremo Tribunal Federal tem jurisprudência consolidada no sentido de se respeitar integralmente o direito constitucional ao sigilo da fonte. A presidente do STF reitera o seu firme compromisso, que tem sido de toda vida, de lutar, e agora, como juíza, de garantir o integral respeito a esse direito constitucional.

Espero que ela não fique só na retórica e aja concretamente para disciplinar Fachin. Ele pisou feio na bola.

GRAVAÇÃO ADULTERADA É DO TIPO ‘MADE IN PARAGUAY’: CORTARAM MAIS DE 6 MINUTOS!!!

Ricardo Molina, o perito contratado por Michel Temer para verificar a idoneidade da gravação da conversa incriminatória que o procurador-geral da República Rodrigo Janot e o ministro do Supremo Edson Fachin abençoaram, declarou nesta 3ª feira, 23, que suas suspeitas de adulteração da fita do diálogo entre Joesley Batista e o presidente se transformaram em certeza após um estudo mais aprofundado que realizou.

Ele constatou ser inteiramente correta uma análise divulgada pela rádio CBN, que, após comparar o som de fundo da gravação com a programação original, concluiu que houve um corte de mais de seis minutos na gravação. “A CBN é a mais autorizada, ela tem o programa inteiro. O que eles fizeram está correto”, afirmou Molina à repórter Ana Carla Bermúdez, do UOL Notícias.

“Agora não tem mais discussão”, diz Molina. “A gravação foi editada e está faltando um pedaço dela, um pedaço grande. Pode ser um pedaço só ou podem ser vários pedaços, mas seis minutos é inaceitável.”

E agora, Janot? E agora, Fachin? “A noite esfriou, / o dia não veio, / o bonde não veio, / o riso não veio / não veio a utopia / e tudo acabou / e tudo fugiu / e tudo mofou”.

Foi com base nessa fajutagem made in Paraguay que vocês botaram o País de pernas pro ar?! Peçam pra sair, rápido!

DESDE QUANDO SE INVESTIGA PRESIDENTE DA REPÚBLICA COM BASE NUMA PROVA QUE PODE TER SIDO FORJADA?

Os questionamentos da atuação do procurador-geral da República Rodrigo Janot no episódio da quase derrubada do presidente Michel Temer a partir da divulgação bombástica pelo jornal O Globo de informações que estavam sob sigilo de Justiça, deverão aumentar em muito com a divulgação de uma nota à imprensa da APCF – Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais. 

 

Segundo a entidade, “ao se ouvir o áudio divulgado pela imprensa, percebe-se a presença de eventos acústicos que precisam passar por análise técnica, especializada e aprofundada, sem a qual não é possível emitir qualquer conclusão acerca da autenticidade da gravação“. Todos os grifos são meus.

 

Trocando em miúdos, Janot tomou a gravíssima decisão de recomendar a abertura de inquérito contra um presidente da República sem ter absoluta certeza de não o estar fazendo a partir de uma prova forjada. Caso fiquem comprovadas as mais de 50 edições que um perito do Tribunal de Justiça de São Paulo garante existirem na gravação ilegal que Joesley Batista fez de sua conversa com Temer, Janot não pode continuar nem mais um minuto no cargo, pois terá sido incompetente e leviano se agiu de boa fé, ou participado conscientemente de uma conspiração criminosa.

Folha de S. Paulo afirma ter apurado que “a PGR não enviou o áudio para a Polícia Federal porque considerava que essa era uma etapa posterior na investigação, depois de aberto o inquérito, e que eventuais dúvidas poderiam dirimidas ao longo da apuração”. 

 

Ora, a sofreguidão em abrir aos trancos e barrancos um inquérito que provocaria alvoroço no País inteiro e tamanho pânico nas bolsas de valores que mais de R$ 200 bilhões trocaram de mãos num único dia, foi simplesmente descabida, chocante e, não há como evitarmos a palavra, suspeita.

 

A nota da APCF lembra, ainda, que “sempre que houver vestígios materiais, é temerária a homologação de delações sem a devida analise pericial“, sendo, portanto, “inaceitável que, tendo à disposição a Perícia Oficial da União, que possui os melhores especialistas forenses em evidências multimídia do país, não se tenha solicitado a necessária análise técnica no material divulgado, permitindo que um evento de grande importância criminal para o país venha a ser apresentado sem a qualificada comprovação científica”.

HÁ QUEM TENTE RELATIVIZAR A FRAUDE DESMASCARADA E EXPOSTA. DESSE JEITO DERRUBARÍAMOS PRESIDENTE TODO ANO…

Um furo deste blogue: eis o equipamento que o Joesley usou.

Não canso de me surpreender com a passionalidade de pessoas que têm um nível de informação e formação cultural superior à da grande maioria dos brasileiros, mas se comportam como tacanhos torcedores organizados de futebol diante dos acontecimentos políticos.

 

Quando li que um perito com larga experiência havia constatado mais de 50 edições na gravação que estava sendo utilizada para derrubar um presidente da República, não tive nenhuma dúvida em escrever que tal castelo de cartas havia desmoronado espetacularmente. Pois, se uma prova dessas, que parece ter sido forjada por um amador com kit de espião adquirido em loja de brinquedos, for suficiente produzir uma consequência tão grave, passaríamos a trocar de presidente ano sim e outro também.

 

Vejo, contudo, que já se tenta relativizar a fraude desmascarada e exposta, comparando, p. ex., tal armação tosca com o grampo aplicado na então presidente Dilma Rousseff e divulgado ilegalmente.

 

Ora, basta um mínimo de honestidade intelectual para qualquer um concluir que alhos não se misturam com bugalhos. 

 

Como jamais foi questionada a exatidão daquela tratativa telefônica sobre o envio do termo de posse para o Lula através do Jorge Messias, sobrou uma conversa que, inquestionavelmente, comprovava a intenção presidencial de torná-lo ministro para evitar que caísse nas garras da Justiça. Houve uma óbvia ilegalidade, mas não uma falsificação.

Faltou o balão com o que o Joesley estava pensando: enganei os bobos, na casca do ovo

Já o grampo do Temer, inquestionavelmente ilegal e vazado ilegalmente antes de o relator Edson Fachin, face ao fato consumado, liberá-lo para conhecimento público, pode não passar de um quebra-cabeças montado com as falas do presidente sendo retiradas do contexto original e encaixadas nos trechos em que serviriam para o incriminar.  
 

Já existe, inclusive, a suspeita de outro perito, de que ruídos foram acrescentados para tornarem incompreensíveis frases do Temer que seriam inconvenientes para os objetivos dos fraudadores.

 

Então, nem um episódio é irmão gêmeo do outro, nem é cabível sustentar-se que o enterro deva seguir em frente porque “a fita com Temer já produziu efeitos políticos cataclísmicos que são o resultado de verdades que descobrimos sobre o presidente”. Isto seria uma aberração, à medida que nada, absolutamente nada proveniente da delação emasculada dos dois comprovados Irmãos Metralha poderá ser doravante considerado como “verdades”. A credibilidade deles foi pro brejo.

Fachin e Janot: o que é que eles vão dizer lá em casa?!

O procurador-geral Rodrigo Janot e o relator do STF Edson Fachin têm mais é de corrigirem imediatamente seus erros crassos, anulando a delação e passando a desconsiderá-la por completo, bem como às providências dela decorrentes. O trabalho voltou à estaca zero e tem de ser totalmente refeito. 
 

Ambos deveriam também, até o fim dos seus dias, pedir perdão aos que fizeram péssimos negócios por terem ficado atônitos em meio ao alvoroço e ao pânico que a denúncia fraudulenta provocou.

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AVISO AOS NAVEGANTES

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Por último, uma resposta aos companheiros que me recriminam por estar, no entender deles, ajudando a salvar um presidente merecedor da degola.

 

Há meio século optei por trilhar o caminho revolucionário e nele permaneço até hoje. Minha visão de revolução, no que mais importa, nunca mudou: é a de os explorados consciente e voluntariamente tomarem seu destino das mãos e reconstruírem a sociedade alçando o bem comum a prioridade suprema, em substituição ao lucro, à ganância e aos privilégios de ínfimas minorias. 

“Alicerces podres não sustentam edifício nenhum”

Como consequência, abomino a prática de tangê-los para a direção correta por meio de artifícios e mentiras, como se fossem debeis mentais e nós, os sábios, os devêssemos manipular para o bem deles.

 
Também mantenho até hoje a convicção de que existe uma interação dialética entre fins e meios, de forma que a adoção utilitária de meios crapulosos necessariamente respinga no objetivo almejado, conspurcando-o, por mais nobre que antes ele fosse.
 

Então, discordo frontalmente da derrubada do Temer mediante conspirações direitistas às quais esquerdistas ingênuos aderem por mero revanchismo, colocando azeitona na empada alheia. Alicerces podres não sustentam edifício nenhum, daí ser impensável nos igualarmos aos inimigos em termos de maquiavelismo barato, abrindo mão do nosso grande trunfo que é a superioridade moral.

 

Mesmo numa visão apenas pragmática a coisa emperra, porque tudo indica tratar-se de um complô visando à eleição indireta de um tucano para o mandato-tampão, possibilitando-lhe encaminhar a vitória eleitoral do seu partido em 2018.

 

Entre o nada brilhante Temer cumprindo o mandato até o fim ou sua substituição, p. ex., por um estrategista de competência comprovada como o FHC, parece-me óbvia a opção menos ruim.

Quanto às reformas exigidas pelo grande capital, a alternativa a elas é a superação do capitalismo, o resto não passando de malabarismos com números e retórica falaciosa.
 

Qualquer partido que se resigne a governar segundo os ditames capitalistas terá de fazer o serviço sujo de impô-las, tal como Dilma Rousseff tentou –e fracassou– ao entregar a condução da política econômica ao neoliberal Joaquim Levy, um antípoda ideológico do seu desenvolvimentismo neo-keynesiano. 

TEMER SAI DO SUFOCO: A GRAVAÇÃO QUE O INCRIMINA É UMA FRAUDE!

O castelo de cartas d’O Globo, do procurador-geral Rodrigo Janot e do ministro do Supremo Edson Fachin desabou de vez: o diálogo entre o empresário Joesley Batista e o presidente Michel Temer não foi igual ao que os ventos levaram até a redação do jornal carioca e depois o relator do STF tornou acessível àqueles para quem informações sigilosas não caem do céu. Trata-se de uma fraude  – e das mais toscas!

 

Como prova, não vale nada. Vai para o lixo juntamente com tudo que tiver a mesma origem, pois a credibilidade de um fraudador é nenhuma.

 

Eis como a Folha de S. Paulo relatou sua apuração jornalística:

Uma perícia contratada pela Folha concluiu que a gravação da conversa entre o empresário Joesley Batista e o presidente Michel Temer sofreu mais de 50 edições. 

O laudo foi feito por Ricardo Caires dos Santos, perito judicial pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. 

Segundo ele, o áudio divulgado pela Procuradoria-Geral da República tem indícios claros de manipulação, mas ‘não dá para falar com que propósito’. 

Afirma ainda que a gravação divulgada tem ‘vícios, processualmente falando’, o que a invalidaria como prova jurídica. 

‘É como um documento impresso que tem uma rasura ou uma parte adulterada. O conjunto pode até fazer sentido, mas ele facilmente seria rejeitado como prova’, disse Santos. 

Segundo disse à Folha a Procuradoria, a gravação divulgada é ‘exatamente a entregue pelo colaborador e sua autenticidade poderá ser verificada no processo’. 

‘Foi feita uma avaliação técnica da gravação que concluiu que o áudio revela uma conversa lógica e coerente’, declarou a Procuradoria na noite desta sexta (19)

CRIME PERFEITO?

A pergunta que não quer calar é: o tal Joesley ainda pode ser alcançado pela Justiça brasileira ou cometeu o crime perfeito? Que nos informem as autoridades logradas. 

Joesley foi empreendedor do ano. Que prêmio ganhará agora?

Quanto a’O Globo, tem mais é de pedir desculpas ao Brasil inteiro, pois seu furo cheio de furos inquietou milhões de brasileiros, provocou alvoroço na política e pânico nos mercados.
 

O advogado de Temer, Antonio Claudio Mariz de Oliveira, já manifestara sua estranheza com relação às regalias concedidas a Joesley e seu irmão :

Quem está examinando essa delação com cuidado chega à conclusão de que os benefícios [que Joesley obteve com a delação] são inusitados e inusuais. Dificilmente um delator porta passaporte. Eles não apenas mantiveram o documento como estão mudando o domicílio fiscal [para os EUA]. Causaram prejuízos institucionais e morais ao Brasil mas tiveram ganhos, comprando dólar na baixa e comprando ações da própria empresa por preços mais baixos.

 

A barriga do ano

Trata-se de uma alusão ao fato de que a JBS comprou dólar na véspera do vazamento dos áudios da delação premiada da empresa. No dia seguinte, o preço da moeda explodiu no Brasil. 

 

Mariz de Oliveira também questionou a permissão que as autoridades concederam a Joesley, para viajar a Nova York. E disse mais:

Ele [Joesley] lançou uma infâmia sobre o presidente e foi embora do país, 

Eles [os dois irmãos] receberam salvo-conduto por todos os crimes e delitos que cometeram. Tiveram como pena a devolução de uma parte irrisório do dinheiro [que dizem ter gastado em propina], tudo isso com o beneplácito das autoridades.

Pouco antes de ser divulgado o xeque-mate que a Folha deu no assunto, eu colocara no ar meu artigo Há algo de podre no reino da Lava-Jato. Nunca uma análise minha havia sido confirmada com tanta rapidez pelos fatos…

HÁ ALGO DE PODRE NO REINO DA LAVA-JATO

Desde o tempo da Operação Satiagraha (2004), uma mera briga de gangsters empresariais disputando encarniçadamente um mercado muito promissor (sem nenhum motivo real para a esquerda alinhar-se com um ou outro lado), eu sustento que a corrupção é intrínseca ao capitalismo e que o combate à corrupção é uma bandeira de direita.

 

Mas, a roubalheira se tornou tão desmedida e descarada no Brasil que eu acabei vendo com alguma simpatia a Operação Lava-Jato. Apesar de sua faina me parecer equivalente a enxugar gelo (com o tempo, as mazelas sempre acabam voltando, pois o enriquecei! capitalista as alimenta), parecia-me haver, pelo menos, honestidade de propósitos por parte de Sérgio Moro e dos promotores.

 

Nesta semana, contudo, a ação concertada com O Globo me deixou com a pulga atrás da orelha, por ser evidente a forçação de barra para a produção de um fato político de extrema gravidade: a derrubada de um presidente da República e a escolha de outro por via indireta. Se for para trocarmos de governante a cada ano, é melhor partirmos logo para o parlamentarismo, em que isto se dá com mais naturalidade; no nosso presidencialismo a mudança é muito traumática.

 

Last but not least, há enorme chance de o beneficiário vir a ser um tucano; e não por acaso, pois os últimos acontecimentos têm aquele jeitão inconfundível de jogo de cartas marcadas e de armação ilimitada.

Ora, há uma enorme diferença entre uma agremiação fisiológica como o PMDB, que procura estar sempre presente nos governos de outros partidos em posição de destaque, vendendo-lhes caro seus préstimos, e o PSDB, que tem um projeto de poder (neoliberal) e quadros competentes para tocá-lo adiante. 

 

Michel Temer dificilmente faria/fará seu sucessor, mas um tucano eleito para cumprir mandato tampão de um ano e alguns meses não deixará escapar tal oportunidade de preparar o caminho para a vitória em 2018, que pode desdobrar-se em vários outros mandatos (em São Paulo, p. ex., está em curso o sexto consecutivo).

 

Afora a possibilidade de que qualquer erro de cálculo venha a alavancar a escalada de algum dos outsiders nefastos que espelham-se em Donald Trump.

 

Advogados, promotores e juízes que se agrupam para desenvolver, explicita ou implicitamente, uma atuação política, tendem a querer erradicar os males da sociedade por meio de sentenças inspiradas na Razão e na Justiça que eles acreditam personificar. Ou seja, são propensos ao autoritarismo, Robespierres em miniatura.

Pesadelo jacobino: a revolução devorando seus filhos.

 Mas, brasileiro cordial que sou, não quero saber de guilhotinas por aqui. Nem de um tipo de militância jurídica que mais parece ser uma continuação da política por outros meios.
 

Daí estar reproduzindo uma notícia da competente colega Mônica Bergamo que veio bem ao encontro das minhas avaliações e preocupações.

O advogado Antonio Claudio Mariz de Oliveira, que defende Michel Temer na área criminal, afirma que a gravação da conversa entre o empresário Joesley Batista, da JBS, e o presidente da República ‘parece que foi coisa preparada’. 

Segundo Mariz, (…), o empresário foi ao Palácio do Jaburu, onde se encontrou com o presidente e gravou a conversa, ‘para provocar [o presidente] e fazer uma delação premiada’. 

Por esse raciocínio, Batista teria tentado induzir o diálogo com Temer, usando depois a gravação como moeda de troca para que o Ministério Público Federal aceitasse fazer um acordo de colaboração com os donos da JBS. 

Joesley Batista: delação premiada ou negócio da China?

‘Ele lançou uma infâmia sobre o presidente e foi embora do país’, afirma. 

Joesley teve permissão das autoridades para viajar a Nova York. 

‘Quem está examinando essa delação com cuidado chega à conclusão de que os benefícios [que Joesley obteve com a delação] são inusitados e inusuais. Dificilmente um delator porta passaporte. Eles não apenas mantiveram o documento como estão mudando o domicílio fiscal [para os EUA]. Causaram prejuízos institucionais e morais ao Brasil mas tiveram ganhos, comprando dólar na baixa e comprando ações da própria empresa por preços mais baixos’, afirma Mariz. 

A JBS comprou dólar na véspera do vazamento dos áudios da delação premiada da empresa. No dia seguinte, o preço da moeda explodiu no Brasil. A Comissão de Valores Mobiliários está investigando a operação. 

‘Eles receberam salvo-conduto por todos os crimes e delitos que cometeram. Tiveram como pena a devolução de uma parte irrisório do dinheiro [que dizem ter gastado em propina], tudo isso com o beneplácito das autoridades’, diz o advogado

A CAVALARIA EMPRESARIAL CHEGARÁ NA ENÉSIMA HORA PARA SALVAR A PELE DO TEMER?

Pode estar em curso uma contra-ofensiva para salvar o mandato do presidente Michel Temer. Depois de ele já parecer resignado a renunciar, algo o levou a, no pronunciamento que fez na tarde de ontem (5ª feira, 18), negar veementemente tal possibilidade. 

 

E começaram a pipocar na mídia análises sobre ser inconclusiva a transcrição da conversa em que ele teria supostamente aconselhado a continuidade do pagamento de subornos ao encarcerado Eduardo Cunha. Há, inclusive, a suspeita de que as conversas incriminatórias tenham sido editadas, daí seu encaminhamento para perícia.

 

De que houve uma ação orquestrada contra Temer, não há a menor dúvida. Se envolveu ou não fraude, logo saberemos.  

Será que o enterro foi prematuro?

Caso a bomba arrasa-quarteirão tenha sido detonada pelos tucanos, com o apoio de O Globo e dos muitos aliados de que as aves de mau agouro dispõem entre os togados (o PSDB há muito é o partido mais influente nas fileiras judiciais), quem poderia estar agora desamarrando tal pacote? 
 

Tal poder de fogo quem tem são os poderosos da economia, que contam com Temer para a aprovação das odiosas reformas por eles tidas como obrigatórias.

 

Se os donos do Brasil tiverem mesmo resolvido respaldar Temer, a indústria cultural a eles avassalada conseguirá, sim, ressuscitá-lo, impingindo-o de novo. Nestes tristes trópicos ela faz e desfaz cabeças a bel-prazer. Somos o país dos videotas.

 

Mas, objetarão alguns, o Aécio também foi crucificado.  Como lealdade é palavra inexistente no vocabulário político, talvez ele haja sido considerado sacrificável, por conveniência tática e/ou porque estivesse disputando espaços com outro(s) cacique(s). 

 

Se estes palpites que estou dando forem corretos, a derrubada do Temer, no script dos puxadores do seu tapete, levaria à eleição indireta de um grão tucano para o mandato-tampão, com grande possibilidade de ser o FHC. Este, tendo a caneta presidencial na mão e fazendo uso da sua inegável competência estratégica, decerto montaria um sólido cenário para uma vitória do PSDB em 2018.

 

Então, estariam sendo muito ingênuos os esquerdistas entusiasticamente empenhados na destruição de um político de voos rasteiros como o Temer. Caso isto desimpedir mesmo o caminho para aquele que é o mais articulado dos inimigos, aí a troca não será de seis por meia dúzia, mas sim de seis por seiscentos.

CERTEZAS, PROGNÓSTICOS E PALPITES SOBRE OS PRÓXIMOS E EMOCIONANTES CAPÍTULOS DA NOVELA DA CRISE

Uma certeza é a de que Michel Temer só vai cair se e quando o poder econômico (aquele que realmente manda e demanda no Brasil!) tiver decidido quem o substituirá e como.


Sem pacote pronto, neca. Profissionais agem assim. 

 

Menos mal que, desta vez, se trataria de uma morte política, e não física – como no caso de ditaduras que adiam a comunicação de que o tirano foi para o inferno até que haja consenso quanto ao nome do sucessor. Pelo menos o fedor do defunto não vai estar aumentando enquanto disputam seu espólio.

 

O se, no primeiro parágrafo, é quase uma figura de retórica, pois há 99% de chances de o Temer vazar. O 1% fica por conta, exatamente, da possibilidade de não encontrarem outro adequado para o papel de responsabilizar-se por medidas impopulares e as conseguir aprovar. Talvez seja esta última esperança que o tenha dissuadido de renunciar até agora.

Para muitos, morte de Costa e Silva foi anunciada com atraso. 

Mas, se os poderosos da economia resolverem dar-lhe mão forte, a indústria cultural conseguirá, sim, ressuscitá-lo, impingindo-o de novo. Nestes tristes trópicos ela faz e desfaz cabeças a bel-prazer. Somos o país dos videotas.
 

Os petistas que não exultem com os infortúnios de Temer e Aécio Neves, pois é tudo que faltava para o xeque-mate em Lula (o qual, por conta da chocante ingratidão da marqueteira delatora, poderá agora ter a companhia de Dilma, mas, tal ocorrendo, ela entraria apenas como contrapeso…). 

 

Guilhotinados um cacique do PMDB, um do PSDB e um do PT, seria fácil convencer a opinião pública de que teria havido havido imparcialidade. Então, docemente constrangidos, Moro e os promotores finalmente estariam com as mãos livres para fazerem o que sempre quiseram fazer.

 

Tão remota quanto a possibilidade de Temer dar a volta por cima é a de o sistema consentir com eleições diretas, tendo a boa desculpa de que, nesta situação concreta, contrariariam a Constituição. 

Quem será o próximo?

Então, com as principais lideranças políticas do País sendo despedaçadas pelo vazamento amplo, geral e irrestrito de delações que deveriam ser sigilosas, quem sobraria para ser eleito indiretamente pelo Congresso e juntar os cacos durante o mandato-tampão para o qual nos encaminhamos?

 

Ele mesmo, o sábio da República, que, aos 85 anos, não tem mais pique para um mandato completo, mas parece vigoroso o suficiente para aguentar o tranco por um ano e meio, tempo suficiente para restabelecer o prestígio dos tucanos após as penas do Aécio terem ido para o ventilador.

 

Se houver sido em benefício de Fernando Henrique Cardoso que O Globo fez o que fez com Michel Temer, estará explicado aquilo que tantos acharam pra lá de esquisito…

Observação: já tinha colocado este post no ar quando captei indícios de que pode estar havendo uma contra-ofensiva para salvar o mandato de Temer. Depois de ele já parecer resignado a renunciar, algo o levou a, no pronunciamento que fez à tarde, negar veementemente tal possibilidade. E começaram a pipocar na mídia análises sobre ser inconclusiva a transcrição da conversa em que ele teria aconselhado a continuidade do pagamento de subornos ao encarcerado Eduardo Cunha.

Caso a óbvia armação contra Temer tenha partido dos tucanos, com o apoio de O Globo e dos muitos aliados de que as aves de mau agouro dispõem entre os togados (o PSDB há muito é o partido mais influente nas fileiras judiciais), quem poderia estar desamarrando tal pacote? Só mesmo os poderosos da economia, que contam com Temer para a aprovação das odiosas reformas por eles tidas como obrigatórias.

Mas, objetarão alguns, o Aécio também foi colocado na berlinda.  Como lealdade é palavra inexistente no dicionário da política oficial, talvez ele haja sido sacrificado por conveniência tática e porque estivesse disputando espaços com outro(s) cacique(s). 

Se estes palpites que estou dando forem corretos, a derrubada do Temer, no script dos puxadores do seu tapete, levaria à eleição indireta de um grão tucano para o mandato-tampão, com grande possibilidade de ser o FHC. Este, tendo a caneta presidencial na mão e fazendo uso da sua inegável capacidade estratégica, decerto montaria um sólido cenário para uma vitória tucana em 2018.

Só esquerdistas muito ingênuos, para não dizer rematadamente tolos, contribuiriam para a destruição de um político de voos rasteiros, desimpedindo o caminho para outro que é o mais articulado dos nossos inimigos e, portanto, aquele que maiores danos poderá causar.