A EXTRADIÇÃO DE BATTISTI DEPENDE DE UMA DECISÃO DO STF SOBRE A LIMINAR DE FUX, ADMITE O EMBAIXADOR ITALIANO.

“A Itália está pedindo a extradição do Battisti. O caso agora é discutido em frente do Supremo Tribunal Federal. Esperamos que o Supremo vá tomar uma decisão no tempo, no próximo tempo, mais curto que possível. Não tem de perguntar a mim qual é a ideia do presidente Bolsonaro. Eu acho que ele tem a mesma ideia que eu tenho sobre o tema.”

Foi o que afirmou o embaixador italiano no Brasil, Antonio Bernardini, sobre um dos tópicos discutidos na reunião que manteve nesta semana com o presidente eleito Jair Bolsonaro.

Ou seja, conforme venho afirmando desde que Bolsonaro e seu staff começaram a trombetear que o Cesare seria extraditado tão logo o novo governo assumisse, não existe como fazê-lo sem criar um conflito de Poderes.

Battisti hoje é um residente permanente em situação perfeitamente legal no Brasil e só o STF, que em 2011 aprovou a decisão do ex-presidente Lula de negar a extradição pleiteada pela Itália, poderia desatar as mãos do novo presidente da República, permitindo-lhe alterar tal status. Isto, contudo, é juridicamente impensável, por conflitar com vários dispositivos legais, dentre os quais estes:

  • a decisão brasileira de 2011 já se tornou definitiva, não podendo mais ser questionada (ou seja, não adianta quererem extraditá-lo a partir de um processo que decidiu o contrário e já está extinto, o trâmite teria de recomeçar do zero, com um novo pedido de extradição que cumprisse os mesmos trâmites legais da vez anterior);a sentença que a Itália quer fazer valer não só prescreveu há vários anos, como se trata de uma condenação à prisão perpétua, ao passo que as leis brasileiras proíbem a extradição de quem vá cumprir no seu país de origem uma pena superior a 30 anos de reclusão; 
  • Battisti está agora casado com uma brasileira e é pai comprovado de um menino brasileiro. 

Não há previsão de data para Fux submeter a questão à 1ª Turma (ou ao plenário) do STF, nada indicando que a corte vá submeter-se a caprichos fora da lei e/ou a pressões indevidas de outro país, inaceitáveis por afrontarem nossa soberania. Muito menos qualquer atalho legal que permita a um presidente da República passar por cima do Supremo ou contornar sua autoridade.

É o que o embaixador italiano acaba implicitamente de reconhecer.

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A ESCOLHA É ENTRE SEGUIRMOS VIVENDO, AINDA QUE DE FORMA INSATISFATÓRIA, OU MATARMOS UNS AOS OUTROS PELAS RUAS

O anseio meu nunca mais vai ser só / Procura ser da forma mais precisa / O que preciso for Pra convencer a toda gente Que no amor e só no amor Há de nascer o homem de amanhã(Geraldo Vandré, Bonita)

decisão que estaremos tomando neste domingo (28) transcende ideologias. É uma opção entre seguirmos vivendo, ainda que de modo insatisfatório, ou nos matarmos uns aos outros pelas ruas.

Temos, de um lado, o representante de um partido de esquerda que deixou de verdadeiramente lutar contra os poderosos desta sociedade, limitando-se a tentar ser por eles aceito como sócio minoritário. Não é, nem de longe, o governo que eu quero.

Só que, do outro lado, está um amontoado de ferrabrases alucinados por imporem ao restante da sociedade, a ferro e fogo, seus valores e modo de ser, numa esquisita associação com os oportunistas de sempre e os piores fisiológicos do esgoto da política brasileira.

Com o Fernando Haddad corremos o risco de voltar ao pacto dos explorados com os exploradores que perdurou enquanto Lula era presidente da República, no qual o primeiro contingente cedia muito e recebia em troca algumas migalhas, enquanto o segundo contingente cedia um tiquinho e recebia em troca privilégios injustificados e uma relativa paz social.

Com o Bolsonaro a promessa é de turbulências de todo tipo, com hordas caçando quem pensa, age, transa ou tem cor diferente, além de previsíveis confrontos com o Legislativo e o Judiciário quando suas propostas inconsequentes esbarrarem na dura realidade dos fatos e a opção for abandoná-las ou enfiá-las pela goela da sociedade adentro à base da porrada nas instituições e nos cidadãos.

Teríamos, reunidos num governo só: 

— a índole irascível de um Jânio Quadros, que não suportava o questionamento de seus planos mirabolantes e acabou tentando obter poderes ditatoriais mediante um autogolpe desastrado;
— a falta de um verdadeiro partido de sustentação, que obrigou Fernando Collor a montar um amplo esquema de corrupção para agraciar seus companheiros de primeira hora e saciar o apetite pantagruélico dos parlamentares de aluguel, até que os partidos poderosos uniram-se para dar um fim ao seu mandato; e
— a crassa incompetência econômica de Dilma Rousseff, principal responsável pela pior recessão brasileira de todos os tempos. 

Não é preciso ser nenhum Nostradamus para vaticinar que seria mais um governo sem prazo de validade de um quadriênio (só por milagre completaria um único ano!). 

Tão logo os iludidos pela pregação fantasiosa/rancorosa de Bolsonaro caíssem em si, constatando que os problemas antigos não estariam sendo resolvidos e muitos novos sendo criados, as cobranças começariam, depois as manifestações de rua, depois a repressão, depois mais revolta, depois mais repressão, até chegarmos ao caos, talvez a um autogolpe, talvez a um golpe militar. 

Este último é antiquado? Já parecia ser página virada em 1964, pelo menos em termos de grandes nações, mas reabrimos o ciclo e muitos outros vieram na esteira!

Enfim, votar contra Bolsonaro é o primeiro passo para o apaziguamento da sociedade brasileira, quando ela completa quatro anos perdidos por causa de um radicalismo que detona tudo e nada constrói, criando um ambiente tão desfavorável aos investimentos que a economia permanece indefinidamente patinando sem sair do lugar, enquanto o povo sofre e se desespera com uma penúria sem fim.

Sei que a decadência irreversível do capitalismo atingiu um novo patamar e não conseguiremos sequer reeditar a pequena melhora da década passada, mas ainda há como o sistema ao menos oferecer um respiro para os mais pobres recuperarem o fôlego. E nem isto teremos com o país em chamas, a consequência lógica da sociopatia extremada de Bolsonaro e o furor homicida de suas hordas de seguidores, caso o louco venha a assumir a administração do hospício.

Já deixamos pelo caminho muitos valores fundamentais da vida civilizada ao longo desta década maldita. Agora, a porta que se abre é para sairmos definitivamente da civilização, trocando o amai-vos uns aos outros pelo odiai-vos uns aos outros e por matai-vos uns aos outros.

Amanhã poderemos ter nossa última chance de impedir que o Brasil vire um péssimo lugar para se viver nos próximos anos e até sabe-se lá quando.

Temos nas mãos o nosso destino, o daqueles a quem amamos e o dos que virão depois de nós. Se cedermos à tentação de um desabafo inconsequente, não só estaremos brincando com fogo, mas condenando todos os brasileiros a se queimarem também! (Celso Lungaretti)

O OVO DA SERPENTE ESTÁ SENDO CHOCADO SOB NOSSOS NARIZES

Só não vê quem não quer: as recentes juras de amor eterno à Constituição do presidenciável ultradireitista Jair Bolsonaro valem tanto quanto as promessas de Adolf Hitler na década de 1930, de que a Alemanha sossegaria se as potências da época lhe permitissem anexar tal ou qual país livre. 

Permissão concedida, ele engolia a refeição no almoço e na janta já exigia sinal verde para outra ocupação, garantindo que, daquela vez sim, seu apetite pantagruélico seria saciado. E a novela se repetia.

Na mesma linha, o (i)legalista Bolsonaro anuncia o general Augusto Heleno Pereira como seu ministro da Defesa caso os brasileiros sejam tão ingênuos a ponto de eleger um incendiário ao invés do bombeiro de que a nação desesperadamente carece neste instante.

Trata-se de um alto oficial que geralmente evitou expor suas convicções desumanas, mas abriu o jogo em duas ocasiões. Ao passar à reserva, em maio de 2011, deve ter-se emocionado e teceu loas públicas à ditadura militar.

Pior ainda foi quando, no último mês de março, tentava justificar numa entrevista os resultados pífios da intervenção militar no Rio de Janeiro e saiu-se com esta frase tipicamente bolsonaresca:

É assim que ele gostaria de agir nos morros cariocas?

A Colômbia teve 50 anos de guerra civil porque não fizeram lá o que foi feito no Araguaia.

Aquele país teve que passar 50 anos lutando com uma organização terrorista.

Como as novas gerações talvez ignorem o que o Sr. General estava querendo dizer, eu explico: de 69 militantes do PCdoB que implantavam a guerrilha naquela região e acabaram sendo surpreendidos pelo Exército antes de iniciarem as operações, eis o balanço das baixas:

  • na 1ª fase (1972/73) foram mortos 12 e presos 5;  e
  • na 2ª fase  (1973/74), dos 35 que sobraram nas matas, todos foram assassinados.  

O nome técnico dessa nojeira é guerra de extermínio.

Pateticamente, o Sr. General se queixou, noutro momento da mesma entrevista, do “preconceito que continua a existir contra os militares”. Por que será? 

Afinal, o que o general fez de tão chocante no Haiti?!

E existem duas outras nódoas indeléveis na folha de serviços do general, apontadas pelo veterano jornalista Jânio de Freitas:

[No] tempo em que foi auxiliar do general Cardoso no Planalto de Fernando Henrique (…) constatou-se (…) que o general Heleno era o mais frequente contato do juiz Nicolau dos Santos Neto, (…) juiz mais tarde condenado e preso por corrupção na obra do novo Tribunal da Justiça do Trabalho, em São Paulo.

Lalau passava ao general Heleno, com presteza sistemática, informações sobre os graúdos paulistas e seus negócios, os políticos, a imprensa. Entre outros temas. Era a preservação do policialismo, com todos os seus defeitos… 

… o general Heleno [também] poderia (…) esclarecer o eleitorado sobre um fato sempre omitido. Seu nome é acompanhado, muitas vezes, de citação ao comando que exerceu da Força brasileira no Haiti. 

Sem referência, jamais, a que esse comando foi encerrado bem antes do prazo, por um motivo sem precedente: a ONU pediu que o general brasileiro fosse retirado do comando….

Como as hordas bolsonaristas reagirão se o líder não entregar o que lhes prometeu?

A pergunta é: por que o ex-capitão encrenqueiro, que sempre expressou sua admiração pelo comandante (Brilhante Ustra) do pior centro de torturas dos anos de chumbo brasileiros, cerca-se de figurinhas carimbadas como o também encrenqueiro General Hamilton Mourão e, agora, o oficial cuja mão pesada no Haiti estarreceu a ONU? 

A resposta é óbvia: por estar, ou planejando dar um autogolpe, ou cogitando dá-lo dependendo da intensidade da resistência a seus desvarios. É para isto que servem tais escolhidos. 

Bolsonaro não procura pacificadores para ajudá-lo a administrar as crises que inevitavelmente surgiriam num governo obviamente tendente a turbulências. Está atrás de quem cumpra, no Brasil, o mesmo papel dos paus mandados de Nicolas Maduro, aquele a quem Bolsonaro tanto vitupera mas cujos péssimos exemplos parece prontinho para imitar.

Elegeremos um palhaço para botar fogo no circo?

E existem outros indícios eloquentes do passado monstruoso que se tenta reviver.

Casos das agressões em cascata (vide aqui) que os bolsonaristas desembestados perpetraram neste final de semana, no mais puro estilo dos ferrabrases de Adolf Hitler durante a escalada nazista; e do uso sistemático e ilimitado da mentira como arma política, só faltando mesmo inculparem os petistas pelo incêndio do Museu Nacional, na linha do incêndio do Reichstag, falsamente atribuído aos judeus. 

Então, não restará dúvida nenhuma de que o ovo da serpente está sendo chocado sob nossos narizes.

ALOPRADO QUE ESFAQUEOU BOLSONARO BISA LAMBANÇA DE GREGÓRIO FORTUNATO

Quando, num primeiro momento, a notícia era de que Jair Bolsonaro havia sido esfaqueado sem gravidade, cheguei até a colocar no meu blog uma frase na linha de que ele tanto pregara a solução de problemas pela força que um energúmeno acabara fazendo exatamente isso.

Agora, contudo, surge a informação de que o ferimento poderá ter consequências severas e até fatais. Então, como não faz parte do meu caráter tripudiar sobre a dor alheia, acabo de deletar o post.

Espero que, se escapar, Bolsonaro faça uma reflexão sobre aonde podem levar as pregações do ódio. Não valem a pena, jamais!

Quanto ao aloprado que esfaqueou Bolsonaro, foi filiado ao Psol entre 2007 e 2014, o que certamente será capitalizado à exaustão pelos inimigos do partido. O dano que ele causou ao Psol e a toda a esquerda brasileira é gigantesco.

Aparenta ser um homem de tão poucas leituras quanto luzes, portanto dificilmente conhecerá a história de Gregório Fortunato, um guarda-costas de Getúlio Vargas que, além do dever profissional, tinha verdadeira adoração pelo chefe. 

Oliveira: dano gigantesco!

Indignado com as críticas virulentas que o jornalista Carlos Lacerda fazia a Vargas, decidiu calá-lo a tiros por conta própria, em agosto de 1954. Feriu-o na perna e matou um oficial da aeronáutica que o protegia. 

Resultado: com as Forças Armadas em pé de guerra exigindo sua renúncia, Getúlio optou pelo suicídio, a única forma que lhe restara para (por meio da carta-testamento) contra-atacar, frustrando os planos de tomada de poder por parte da direita. 

O tal Adélio Bispo de Oliveira já deve ter conseguido matar a candidatura de Guilherme Boulos. Vejamos quantos estragos mais sua estupidez causará. (Celso Lungaretti)

O LEGADO DE LULA: UMA TERRA ARRASADA E UMA ESQUERDA MAIS ARRASADA AINDA.

A comédia dos erros terminou melancolicamente


Sem surpresa nenhuma o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi declarado inelegível pela Justiça Eleitoral, pois é isto que determina a Lei da Ficha Limpa

Se sua condenação por corrupção e lavagem de dinheiro foi justa ou injusta, é algo a ser resolvido na esfera da Justiça Criminal, cujas decisões o Tribunal Superior Eleitoral não tem poder para questionar.

Se sua exclusão do pleito deveria se dar após uma sentença de 2ª ou 3ª instância, é algo a ser resolvido pelo Supremo Tribunal Federal, cujas decisões o TSE não tem poder para questionar. O certo é que, desde 2010, a condenação em 2ª instância vem sendo considerada suficiente.

E todas as decisões do TRF-4, do STJ e do STF foram no sentido de que nem a sentença do Lula seria cancelada, nem a inelegibilidade após a 2ª instância revista neste momento. O que vimos nesta 6ª feira (31) foi apenas a confirmação da derrota anunciada – e pelo acachapante placar de 6×1!

Então, por que o PT insistiu tanto em manter um candidato a presidente ilusório até cinco semanas antes do 1º turno? Cabe aqui uma recapitulação.

De Gaulle teria dito que o PT não é um partido sério…

Mesmo tendo o partido sido gerado em plena ditadura militar, seus fundadores não deixaram de colocar no manifesto de fundação, aprovado em fevereiro de 1980, que teria como objetivos supremos o fim da exploração capitalista e a construção de uma sociedade igualitária e livre:

…As riquezas naturais, que até hoje só têm servido aos interesses do grande capital nacional e internacional, deverão ser postas a serviço do bem-estar da coletividade.  

Para isso é preciso que as decisões sobre a economia se submetam aos interesses populares. Mas esses interesses não prevalecerão enquanto o poder político não expressar uma real representação popular, fundada nas organizações de base, para que se efetive o poder de decisão dos trabalhadores sobre a economia e os demais níveis da sociedade

É preciso que o Estado se torne a expressão da sociedade, o que só será possível quando se criarem condições de livre intervenção dos trabalhadores nas decisões dos seus rumos…  

…O PT buscará conquistar a liberdade para que o povo possa construir uma sociedade igualitária, onde não haja explorados nem exploradores…

Mas, logo na sua primeira década de existência o PT já desistiu informalmente da meta revolucionária, expurgou as tendências internas que a priorizavam e passou a objetivar apenas a conquista de posições de poder dentro do capitalismo, não mais para construir uma sociedade igualitária, mas sim para proporcionar pequenas melhoras aos trabalhadores. 

Eis, enfim, o real candidato do PT: o ciclista Haddad. Terá ele… 

As eleições foram significando cada vez mais para o PT, enquanto a participação nas lutas sociais ia passando para segundo e até terceiro plano. 

As consequências de sua furtiva guinada ideológica não se tornaram tão evidentes no século passado (porque estava na oposição), nem durante os dois mandatos presidenciais de Lula (porque o bom desempenho das commodities brasileiras lhe permitia cumprir a promessa de botar um pouco mais de pão na mesa dos trabalhadores, embora sem retirá-lo da esbórnia dos privilegiados, tanto que nossa escandalosa desigualdade econômica não diminuiu em momento nenhum).

Quando a crise capitalista se aguçou sobremaneira na presente década, contudo, o cobertor foi ficando cada vez mais curto para cobrir tanto a cabeça de uns quanto os pés dos outros. A política de conciliação de classe foi colocada em xeque, pois numa fase de vacas magras já não era mais possível continuar mascarando a existência de uma contradição fundamental entre os interesses de explorados e exploradores. 

A presidente Dilma Rousseff, que há muito se desencantara com a luta de classes e passara a crer que contradições insolúveis pudessem ser resolvidas com soluções tecnoburocráticas (superestimando desmedida e alucinadamente seu próprio papel como gerentona), tentou uma jogada arriscada para impedir o castelo de cartas de desabar. Era preciso fazer a economia crescer o suficiente para os bancos continuarem comemorando recordes de faturamento a cada mês e para os pobres seguirem deslumbrados com o maravilhoso mundo do consumo ao qual haviam obtido limitado e endividado acesso!

Dilma retirou do baú de velharias as fórmulas desenvolvimentistas de seis décadas antes, com a esperança de fazer o carro da economia pegar no tranco graças aos investimentos estatais. Mas, como o relógio da História não anda para trás, o que ela conseguiu foi colocar a economia brasileira no rumo de uma formidável recessão.

…mais sorte do que a Dilma das pedaladas fiscais?

A hora da verdade chegou em 2014, quando fatalmente não conseguiria reeleger-se a partir dos resultados entregues por seu primeiro governo e de esperanças que ainda fosse capaz de despertar. E o quadro pioraria ainda mais caso o distinto público se desse conta da tempestade que se formava.

Então, como tábua de salvação, ocultou dos eleitores (por meio das famosas pedaladas fiscais) o estado calamitoso das finanças públicas; satanizou adversários exagerando verdades e espalhando as mais cabeludas mentiras; e praticou um ignóbil estelionato eleitoral ao prometer salvar os brasileiros das reformas neoliberais que seus rivais estariam tramando na calada da noite, ao passo que ela, a angelical, jamais cometeria tamanha maldade…

Desde então, o PT passou cada vez mais a sobreviver politicamente à custa de fantasias e embromações.

Depois de cumprir uma por uma todas as etapas do ritual do impeachment e ser derrotado em todas, passou a atribuir o defenestramento de Dilma a um diabólico golpe… que, na verdade, nada mais foi do que a secular prevalência, nos momentos críticos, das necessidades e interesses da classe dominante, pois está é a lógica do sistema. Só ingênuos esperavam que sucedesse o contrário. 

Com isto mais o Fora Temer, o PT conseguiu desviar a atenção dos terríveis erros por ele cometidos, que possibilitaram a derrubada de Dilma mediante um mero piparote parlamentar; e da óbvia constatação de que não adiantava mais eleger presidentes, já que eles seriam deseleitos pelo poder econômico quando este bem entendesse. 

Mas, conseguindo espertamente evitar  um processo de autocrítica do qual sairiam bem menores do que entraram, os dirigentes petistas ao mesmo tempo abortaram a definição de novas linhas mestras para a atuação partidária, já que as anteriores haviam implodido espetacularmente. A salvação dos ineptos se deu à custa de sacrificar-se o futuro: que mágica besta!  

Que dilúvio nos legará esse outro Luís?

O certo é que, para que se consumassem os desastres recentes do PT, concorreu mesmo a adoção de dois pesos e duas medidas: pecados idênticos, cometidos por outros partidos e políticos, foram tratados como venais e os petistas, como mortais. 

Mas as alegações de inocência, tanto no impeachment quanto nos processos por corrupção, nunca passaram de lorotas inverossímeis; o mar de lama existiu mesmo e as práticas que teoricamente ensejariam cassação de mandatos, idem.

Aos olhos dos cidadãos com um mínimo de espírito crítico, o PT, ao incidir nas mesmas práticas e recorrer às mesmas desculpas esfarrapadas quando apanhado com a boca na botija, igualou-se às agremiações convencionais, perdendo o status de partido diferenciado e confiável. Acreditar nele passou a ser um ato de fé; e não é com fanáticos que se constrói uma sociedade emancipada.

Para reforçar a narrativa do golpe e a narrativa do preso político, criou-se o roteiro de um espetáculo de mafuá: a farsa do candidato fantasma, que só serviu para travar a campanha eleitoral e oxigenar o representante do DOI-Codi no pleito presidencial (o truculento candidato que explora, da forma mais grotesca e obtusa, os filões do anticomunismo e do antipetismo) .

Quem disse depois de mim, o dilúvio foi o rei francês Luís XV, e a profecia se cumpriria com seu neto Luís XVI sendo guilhotinado na Grande Revolução Francesa.

Que dilúvio nos legará esse outro Luís? Uma coisa é certa: ele sai de cena deixando atrás de si uma terra arrasada e uma esquerda mais arrasada ainda.

CIRO GOMES PROMETE LIBERTAR LULA, RESTAURANDO A AUTORIDADE DO PODER POLÍTICO SOBRE O JUDICIÁRIO

O boquirroto Ciro Gomes, com seu besteirol…

Ciro Gomes faz lembrar o Pelé. Não por ser genial na arena política como o Edson Arantes o era nos gramados, longe disto. Mas por causa da frase célebre do Romário: “O Pelé, calado, é um poeta”.

Se havia algo inoportuno e contraproducente para um presidenciável afirmar nesta altura do campeonato, o Ciro encontrou:

[O Lula] Só tem chance de sair da cadeia se a gente assumir o poder e organizar a carga. Botar juiz para voltar para a caixinha dele, botar o Ministério Público para voltar para a caixinha dele e restaurar a autoridade do poder político.

Ou seja, num momento em que o combate à corrupção continua sendo desejado pela maioria dos brasileiros (em abril, p. ex., 57% concordavam com a prisão de condenados em 2ª instância e 36% discordavam) e os Dallagnols da vida a toda hora acusam os políticos de estarem sabotando a Operação Lava-Jato para salvar os corruptos, Ciro Gomes veste a carapuça e diz que ele e seu grupo vão enquadrar os juízes! 

Os tenentistas togados agora têm um retrato para colar no alvo de suas diatribes alarmistas: o do Ciro Gomes.

…corroborou os exageros alarmistas do Deltan Dallagnol

A incontinência verbal ocorreu durante entrevista ao programa Resenha, da TV Difusora do Maranhão. Talvez o Ciro tenha acreditado que estava suficientemente longe dos principais centros políticos para dizer besteiras sem que elas repercutissem. Ledo engano. Até que demorou um pouco (foi no último dia 16), mas as besteiras acabaram aterrissando no jornal mais influente do país. E vão ser amplamente utilizadas pelos adversários como munição contra ele, claro…

Na mesma entrevista, ele se ufanou de haver tentado ensinar o Padre Nosso ao vigário:

Eu ajudei o Lula por 16 anos sem tirar nenhum dia. Já zangado, porque via as coisas acontecendo, sabia que ia dar problema e cansei de avisar pra ele e ele não quis ouvir, porque poder muito tempo tira a pessoa do normal.

E comentou que, sendo a candidatura do Lula barrada pela Justiça Eleitoral, o PT não deve cair na tentação de substitui-lo por outra Dilma:

“Só porque gostam muito do Lula ele vai apontar outra Dilma?”

O Brasil não aguenta um presidente por procuração numa altura dessas. O camarada diz eu gosto muito do Lula, mas só porque gostam muito do Lula ele vai apontar outra Dilma? O país está precisando de pulso, de liderança, de autoridade, até para corrigir a carga. Imagina com um cabra desse do outro lado, se o Lula tem alguma chance de sair da cadeia? Nenhuma.

E vendeu seu peixe, defendendo uma união da esquerda e se colocando como o único candidato preparado e capaz de proteger as políticas sociais e interesses nacionais. 

Sutil como um elefante. Será que, em matéria de imagem, ele tem recebido conselhos do pai do Neymar?

BOLSONARISTAS LANÇAM NO FIM DE JULHO UMA VERSÃO DARK DO FORO DE SÃO PAULO

Os convidados…

A direita está organizando um evento para servir de contraponto ao Foro de São Paulo. Assim, enquanto o tradicional encontro de legendas de esquerda vai ser realizado entre 15 e 17 de julho, em Cuba, a versão dark está marcada para o dia 28 de julho, em Foz do Iguaçu, PR.

 

O nome que melhor expressaria a intenção de criarem uma alternativa ao Foro de São Paulo seria, claro, Foro de Foz. Com uma vantagem adicional, qual seja sua pertinência com o que se pretende reunir: exatamente aquelas excreções que vão sendo despejadas nos rios e são por estes conduzidas à foz, desaguando em oceanos, mares, outros rios, lagos ou lagoas. 

…e o anfitrião.

No caso em pauta, só a última opção se aplica. Mas, ao contrário do que ocorre nas lagoas de tratamento dos esgotos, temo que a purificação seja impossível.  
 

Enfim, optaram pela denominação de Cúpula Conservadora das Américas, evitando uma piada pronta mas dando ensejo a outra: o que resultará dessa cópula, o monstro da lagoa negra?

 

Já confirmaram presença o ex-senador chileno Nicolás Díaz, o economista bolsonarista Paulo Guedes e o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, cotado para vice do presidenciável cuja candidatura se pretende alavancar com o evento (o general Heleno é aquele saudosista da ditadura militar que será eternamente lembrado por sua apologia do extermínio na frase “A Colômbia ficou 50 anos em guerra civil porque não fizeram o que fizemos no Araguaia”). A participação de Olavo de Carvalho será online.

Ausências lamentadas (o diabo não os liberou…)

A expectativa dos organizadores é que baixem umas 3 mil almas penadas para debaterem plataformas malignas nas áreas de economia, segurança, cultura e política. Alguém conhece um bom exorcista?

 

Segundo o deputado Delegado Fernando Francischini (PSL-PR), está prevista a elaboração de uma carta de princípios da direita (Guia do Retrocesso?): “A ideia é, com a eleição do Bolsonaro, formar um novo eixo político, econômico e cultural na região”.

 

Presumo que esse novo eixo terá muita afinidade com aquele da 2ª Guerra Mundial, constituído por Alemanha, Itália e Japão…

UM APELO DA FAMÍLIA DE NORAMBUENA ÀS AUTORIDADES BRASILEIRAS: QUE ELE SEJA EXPULSO POR RAZÕES HUMANITÁRIAS.

Suplicy endereçou apelo…

O ex-senador e atual vereador paulistano Eduardo Suplicy encaminhou ao governador do Rio Grande do Norte, Robinson Mesquita de Faria, e a outras autoridades daquele estado um pedido de que apurem diversas irregularidades cometidas contra o ativista chileno Mauricio Hernández Norambuena, que se destacou como combatente e dirigente na luta contra a sanguinária ditadura de Augusto Pinochet no seu país e hoje se encontra encarcerado na penitenciária federal de Mossoró.

 

Ele cumpre, desde 2002, uma pena de 30 anos por sua participação no sequestro do publicitário Washington Olivetto, tendo estado sempre submetido aos rigores do Regime Disciplinar Diferenciado, em unidades prisionais que o praticam independentemente de reconhecerem ou não que o fazem. 

 

...ao governador Robinson Faria.

Assim, diz Suplicy na sua mensagem, como consequência do RDD “e do longo tempo recluso, isolado, com mínimo contato com a família, que vive a mais de 5.000 quilômetros, [Norambuena] apresenta graves problemas de saúde física e mental”.

 

Também destaca a necessidade de verificação do cálculo de cumprimento de pena e progressão de regime, além de transmitir o pleito de Norambuena, no sentido de que o transfiram “para um presídio brasileiro que cumpra as normas estabelecidas na Convenção Americana de Direitos Humanos”..

NOVA OPÇÃO: A EXPULSÃO PARA UM TERCEIRO PAÍS.

Entre a farta documentação que Suplicy anexou está uma carta da família de Norambuena, não só reforçando o pedido de sua transferência para outra unidade, como sugerindo uma solução alternativa para o problema, até agora não contemplada, que seria a expulsão para um terceiro país (já que a mera extradição para o Chile, há muito autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, não pôde até agora ser efetuada porque a Justiça chilena não se dispôs a cumprir uma exigência da lei brasileira):

…[Ele está submetido a] um regime carcerário de exceção, que foi prorrogado continuamente, acabando por se tornar permanente… [Tal sistema] configura um tratamento cruel, desumano e degradante, uma vez que contempla um conjunto diverso de medidas que se constituem num agravo a direitos essenciais do ser humano, não obstante sua condição de condenado e cativo. 

Ademais, após permanecer 16 anos em regime de isolamento e punição, lhe corresponderia estar numa prisão aberta desde novembro de 2014, ou com benefícios carcerários desde 2011. O que não sucedeu, por diferentes empecilhos. 

É por isto que a família está fazendo esta solicitação de transferência, já que Mauricio não pode ser enviado ao Chile, seu país natal, por ter penas superiores aos 30 anos que é a condenação que deve cumprir no Brasil. 

Razão pela qual a aplicação de sua expulsão por parte do Brasil só poderá ser efetivada para um terceiro país que mostre disposição de recebê-lo. Ao que se soma a nova legislação migratória brasileira, que prevê a possibilidade de sua expulsão a um terceiro país por razões humanitárias, daí estarmos, como família, fazendo este apelo a vocês.

DELAÇÃO PREMIADA DO PALOCCI É HOMOLOGADA E PT PODERÁ TER SEU REGISTRO CASSADO

Antonio Palocci me faz lembrar um western italiano.

 

Antes que o leitor comece a suspeitar de Alzheimer, esclareço: refiro-me a um diálogo magistral do filme Quando os brutos se defrontam (d. Sergio Sollima, 1967), um dos que melhor conseguiu embutir assuntos sérios num enredo de ação, satisfazendo tanto aos espectadores que buscavam apenas emoções baratas quanto aos capazes de captar algo além do óbvio.

 

Mostra o professor tísico de um colégio de elite do Leste estadunidense (Gian-Maria Volonté) indo ao Oeste para, num clima quente e seco, tentar recuperar a saúde. Lá seu destino se entrelaça com o de um chefe de bandidos (Tomas Milian)  e acaba surgindo uma improvável amizade entre ambos. 

 

Mas, a interação os transforma. O selvagem desenvolve sentimentos nobres e o civilizado, ao mesmo tempo que se fortalece fisicamente, fica embriagado com o poder que seus conhecimentos e sua inteligência privilegiada lhe podem proporcionar entre os rústicos.

 

Acaba se tornando o líder de todos os foras-da-lei da região. E, quando desmascara e está prestes a executar um espião da agência de detetives Pinkerton, diz ao sujeito que, mesmo tentando passar-se por inculto, ele ainda deixava perceber que era uma pessoa estudada.

 

E o homem da Pinkerton lhe responde: “Já você é a pior espécie de parasita. Civilizado entre os civilizados, selvagem entre os selvagens, se adapta perfeitamente a qualquer ambiente e passa a manipular todos ao redor, tendo como único objetivo satisfazer sua ambição desmedida”.  

Igualzinho ao Palocci, que, quando estava entre os idealistas, era simpático ao trotskismo e pertenceu à Libelu; depois, ao se ver diante das tentações da política profissional, cedeu a todas elas, mandou os escrúpulos às favas, tornou-se um ás da corrupção, encheu-se de grana, tudo fez para esmagar um coitadeza com sua autoridade ministerial e, preso, se revelou o maior delator serial do petrolão, com um comportamento mais vergonhoso ainda que o de muitos empresários cuja única ideologia era o enriquecei! capitalista.

 

E por que falar no Palocci agora? É que nesta 6ª feira (22) o Tribunal Regional Federal da 4ª Região homologou sua delação premiada. O acordo com a Polícia Federal de Curitiba já estava fechado e assinado desde abril, mas o Ministério Público Federal discordava.

 

Tão logo o Supremo Tribunal Federal decidiu que a Polícia Federal também tem autoridade para firmar tais acordos, o TRF-4 correu a dar sinal verde ao Palocci para usar seus conhecimentos e sua inteligência privilegiada na inglória faina de safar-se da prisão passando por cima dos cadáveres (em sentido figurado, claro…) de quantos ex-companheiros de partido ele conseguir ferrar.

 Até mesmo o registro do PT corre perigo, pois sabe-se que Palocci vai sustentar que o ditador líbio Muammar Gaddafi forneceu US$ 1 milhão teria para a campanha presidencial de Lula em 2002, o que é terminantemente vedado pela Constituição Federal:

Art. 28. O Tribunal Superior Eleitoral, após trânsito em julgado de decisão, determina o cancelamento do registro civil e do estatuto do partido contra o qual fique provado:I – ter recebido ou estar recebendo recursos financeiros de procedência estrangeira;II – estar subordinado a entidade ou governo estrangeiros… 

Se conseguir fornecer alguma prova concreta de que isto realmente aconteceu, Palocci poderá jogar a pá de cal no caixão do PT.